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HOJE ALGUMAS FRASES ME DEFINEM: Clarice Lispector "Os contos de fadas são assim. Uma manhã, a gente acorda. E diz: "Era só um conto de fadas"... Mas no fundo, não estamos sorrindo. Sabemos muito bem que os contos de fadas são a única verdade da vida." Antoine de Saint-Exupéry. Contando Histórias e restaurando Almas."Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." Fernando Pessoa

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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Os Três Conselhos

Um pobre rapaz tinha casado, e para arranjar a sua vida, logo ao fim do primeiro ano teve de ir
servir uns patrões muito longe. Ele era assim bom homem, e pediu ao amo que lhe fosse
guardando na mão o dinheiro das soldadas. Ao fim de uns quatro anos já tinha um par de
moedas, que lhe chegava para comprar um eidico, e quis voltar para casa. O patrão disse-lhe:
– Qual queres, três bons conselhos que te hão-de servir para toda a vida, ou o teu dinheiro?
– Ele, o dinheiro é sangue, como diz o outro.
– Mas podem roubar-to pelo caminho e matarem-te.
– Pois então venham de lá os conselhos.
Disse-lhe o patrão:
– O primeiro conselho que te dou é que nunca te metas por atalho, podendo andar pela estrada
real.
– Cá me fica para meu governo.
– O segundo, é que nunca pernoites em casa de homem velho casado com mulher nova.
Agora o terceiro vem a ser: nunca te decidas pelas primeiras aparências.
O rapaz guardou na memória os três conselhos, que representavam todas as suas soldadas; e
quando se ia embora, a dona da casa deu-lhe um bolo para o caminho, se tivesse fome; mas
que era melhor comê-lo em casa com a mulher, quando lá chegasse. Partiu o homenzinho do
Senhor, e encontrou-se na estrada com uns almocreves que levavam uns machos com
fazendas; foram-se acompanhando e contando a sua vida, e chegando lá a um ponto da
estrada, disse um almocreve que cortava ali por uns atalhos, porque poupava meia hora de
caminho. O rapaz foi batendo pela estrada real, e quando ia chegando a um povoado, viu vir o
almocreve todo esbaforido sem os machos; tinham-no roubado e espancado na quelha. Disse
o moço:
– Já me valeu o primeiro conselho.
Seguiu o seu caminho, e chegou já de noite a uma venda, onde foi beber uma pinga, e onde
tencionava pernoitar; mas quando viu o taverneiro já homem entrado, e a mulher ainda
frescalhuda, pagou e foi andando sempre, Quando chegou à vila, ia lá um reboliço; era que a
Justiça andava em busca de um assassino que tinha fugido com a mulher do taverneiro que
fora morto naquela noite. Disse o rapaz lá consigo:
– Bem empregado dinheiro o que me levou o patrão por este conselho.
E picou o passo, para ainda naquele dia chegar a casa. E lá chegou; quando se ia
aproximando da porta, viu dentro de casa um homem, sentado ao lume com a sua mulher! A
sua primeira ideia foi ir matar logo ali a ambos. Lembrou-se do conselho, e curtiu consigo a sua
dor, e entrou muito fresco pela poria dentro. A mulher veio abraçá-lo, e disse:
– Aqui está meu irmão, que chegou hoje mesmo do Brasil. Que dia! E tu também ao fim de
quatro anos!
Abraçaram-se todos muito contentes, e quando foi a ceia para a mesa, o marido vai a partir o
bolo, e aparece-lhe dentro todo o dinheiro das suas soldadas. E por isso diz o outro, ainda há
quem faça bem.

Teófilo Braga,
Contos Tradicionais do Povo Português,
1883
* * *

As Três Cidras do Amor


Era uma vez um príncipe, que andava à caça: tinha muita sede, e encontrou três cidras; abriu
uma, e logo ali lhe apareceu uma formosa menina, que disse:
– Dá-me água, senão morro.
O príncipe não tinha água, e a menina expirou. O príncipe foi andando mais para diante, e
como a sede o apertava partiu outra cidra. Desta vez apareceu-lhe outra menina ainda mais
linda do que a primeira, e também disse:
– Dá-me água, senão morro.
Não tinha ali água, e a menina morreu; o príncipe foi andando muito triste, e prometeu não abrir
a outra cidra senão ao pé de uma fonte. Assim fez; partiu a última cidra, e desta vez tinha água
e a menina viveu. Tinha-se-lhe que brado o encanto, e como era muito finda, o príncipe
prometeu casar com ela, e partiu dali para o palácio para ir buscar roupas e levá-la para a
corte, como sua desposada. Enquanto o príncipe se demorou, a menina olhou dentre os ramos
onde estava escondida, e viu vir uma preta para encher uma cantarinha na água; mas a preta,
vendo figurada na água uma cara muito linda, julgou que era a sua própria pessoa, e quebrou a
cantarinha dizendo:
– Cara tão linda a acarretar água! Não deve ser.
A menina não pôde conter o riso; a preta olhou, deu com ela, e enraivecida fingiu palavras
meigas e chamou a menina para ao pé de si, e começou a catar-lhe na cabeça. Quando a
apanhou descuidada, meteu-lhe um alfinete num ouvido, e a menina tornou-se logo em pomba.
Quando o príncipe chegou, em vez da menina achou uma preta feia e suja, e perguntou muito
admirado:
– Que é da menina que eu aqui deixei?
– Sou eu, disse a preta. O sol crestou-me enquanto o príncipe me deixou aqui.
O príncipe deu-lhe os vestidos e levou-a para o palácio, onde todos ficaram pasmados da sua
escolha. Ele não queria faltar à sua palavra, mas roía calado a sua vergonha. O hortelão,
quando andava a regar as flores, viu passar pelo jardim uma pomba branca, que lhe perguntou:
– Hortelão da hortelaria,
Como passou o rei
E a sua preta Maria?
Ele, admirado, respondeu:
– Comem e bebem,
E levam boa vida.
– E a pobre pombinha
Por aqui perdida!
O hortelão foi dar parte ao príncipe, que ficou muito maravilhado, e disse-lhe:
– Arma-lhe um laço de fita.
Ao outro dia passou a pomba pelo jardim e fez a mesma pergunta: o hortelão respondeu-lhe, e
a pombinha voou sempre, dizendo:
– Pombinha real não cai em laço de fita.
O hortelão foi dar conta de tudo ao príncipe; disse-lhe ele:
– Pois arma-lhe um laço de prata.
Assim fez, mas a pombinha foi-se embora repetindo:
– Pombinha real não cai em laço de prata.
Quando o hortelão lhe foi contar o sucedido, disse o príncipe:
– Arma-lhe agora um laço de ouro.
A pombinha deixou-se cair no laço; e quando o príncipe veio passear muito triste para o jardim,
encontrou-a e começou a afagá-la; ao passar-lhe a mão pela cabeça, achou-lhe cravado num
ouvido um alfinete. Começou a puxá-lo, e assim que lho tirou, no mesmo instante reapareceu a
menina, que ele tinha deixado ao pé da fonte. Perguntou-lhe porque lhe tinha acontecido
aquela desgraça e a menina contou-lhe como a preta Maria se vira na fonte, como quebrou a
cantarinha, e lhe catou na cabeça, até que lhe enterrou o alfinete no ouvido. O príncipe levou-a
para o palácio, como sua mulher e diante de toda a corte perguntou-lhe o que queria que se
fizesse à preta Maria.
– Quero que se faça da sua pele um tambor, para tocar quando eu for à rua, e dos seus ossos
uma escada para quando eu descer ao jardim.
Se ela assim o disse, o rei melhor o fez, e foram muito felizes toda a sua vida.

* * *

Teófilo Braga,
Contos Tradicionais do Povo Português,
1883

O Caldo de Pedra



Um frade andava ao peditório; chegou à porta de um lavrador, mas não lhe quiseram aí darnada. O frade estava a cair com fome, e disse:– Vou ver se faço um caldinho de pedra. E pegou numa pedra do chão, sacudiu-lhe a terra epôs-se a olhar para ela para ver se era boa para fazer um caldo. A gente da casa pôs-se a rirdo frade e daquela lembrança. Diz o frade:– Então nunca comeram caldo de pedra? Só lhes digo que é uma coisa muito boa.Responderam-lhe:– Sempre queremos ver isso.Foi o que o frade quis ouvir. Depois de ter lavado a pedra, disse:– Se me emprestassem aí um pucarinho.Deram-lhe uma panela de barro. Ele encheu-a de água e deitou-lhe a pedra dentro.– Agora se me deixassem estar a panelinha aí ao pé das brasas.Deixaram. Assim que a panela começou a chiar, disse ele:– Com um bocadinho de unto é que o caldo ficava de primor.Foram-lhe buscar um pedaço de unto. Ferveu, ferveu, e a gente da casa pasmada para o quevia. Diz o frade, provando o caldo:– Está um bocadinho insosso; bem precisa de uma pedrinha de sal.Também lhe deram o sal. Temperou, provou, e disse:-Agora é que com uns olhinhos de couve ficava que os anjos o comeriam.A dona da casa foi à horta e trouxe-lhe duas couves tenras. O frade limpou-as, e ripou-as comos dedos deitando as folhas na panela.Quando os olhos já estavam aferventados disse o frade:– Ai, um naquinho de chouriço é que lhe dava uma graça...Trouxeram-lhe um pedaço de chouriço; ele botou-o à panela, e enquanto se cozia, tirou doalforge pão, e arranjou-se para comer com vagar. O caldo cheirava que era um regalo. Comeue lambeu o beiço; depois de despejada a panela ficou a pedra no fundo; a gente da casa, queestava com os olhos nele, perguntou-lhe:– Ó senhor frade, então a pedra?Respondeu o frade:– A pedra lavo-a e levo-a comigo para outra vez.E assim comeu onde não lhe queriam dar nada.

Conto Tradicional Português,

Teófilo Braga,

1883

* * *

O Boi Cardil

Um rei tinha um criado, em quem depositava a maior confiança, porque era o homem que
nunca em sua vida tinha dito uma mentira. Recebeu o rei um presente de boi muito formoso, a
que chamavam o boi Cardil; o rei tinha-o em tanta estimação que o mandou para uma das suas
tapadas acompanhado do criado fiei para tratar dele. Teve uma ocasião uma conversa com um
fidalgo, e falou da grande confiança que tinha na fidelidade do seu criado. O fidalgo riu-se:
– Porque te ris? – perguntou o rei.
– É porque ele é como os outros todos, que enganam os amos.
– Este não!
– Pois eu aposto a minha cabeça como ele é capaz de mentir até ao rei.
Ficou apostado. Foi o fidalgo para casa, mas não sabia como fazer cair o criado na esparrela e
andava muito triste. Uma filha nova e muito formosa, quando soube a causa da aflição do pai,
disse:
– Descanse, meu pai, que eu hei-de fazer com que ele há-de mentir por força ao rei.
O pai deu licença. Ela vestiu-se de veludo carmesim, mangas e saia curta, toda decotada, e
cabelos pelos ombros e foi passear para a tapada; até que se encontrou com o rapaz que
guardava o boi Cardil. Ela começou logo:
– Há muito tempo que trago uma paixão, e nunca te pude dizer nada.
O rapaz ficou atrapalhado e não queria acreditar naquilo, mas ela tais coisas disse e jeitinhos
deu que ele ficou pelo beiço. Quando o rapaz já estava rendido, ela exigiu-lhe que, em paga do
seu amor, matasse o boi Cardil. Ele assim fez e deu-se por bem pago todo o santíssimo dia.
A filha do fidalgo foi-se embora, e contou ao pai como o rapaz tinha matado o boi Cardil; o
fidalgo foi contá-lo ao rei, fiado em que o rapaz havia de explicar a morte do boi com alguma
mentira. O rei ficou furioso quando soube que o criado lhe tinha matado o boi Cardil, em que
punha tanta estimação. Mandou chamar o criado.
Veio o criado, e o rei fingiu que nada sabia; perguntou-lhe
– Então como vai o boi?
O criado julgou ver ali o fim da sua vida e disse:
Senhor! pernas alvas
E corpo gentil,
Matar me fizeram
Nosso boi Cardil.
O rei mandou que se explicasse melhor; o moço contou tudo. O rei ficou satisfeito por ganhar a
aposta, e disse para o fidalgo:
– Não te mando cortar a cabeça como tinhas apostado, porque te basta a desonra de tua filha.
E a ele não o castigo porque a sua fidelidade é maior do que o meu desgosto.




Conto Tradicional Português,
Teófilo Braga,
1883



"Histórias alimentam a alma, alegram o coração"

* * *

O Aprendiz de Mago

Um homem de grandes artes tinha na sua companhia um sobrinho, que lhe guardava a casa
quando precisava sair. De uma vez deu-lhe duas chaves, e disse:
– Estas chaves são daquelas duas portas; não mas abras por cousa nenhuma do mundo,
senão morres.
O rapaz, assim que se viu só, não se lembrou mais da ameaça e abriu uma das portas. Apenas
viu um campo escuro e um lobo que vinha correndo para arremeter contra ele. Fechou a porta
a toda a pressa passado de medo. Daí a pouco chegou o Mago:
– Desgraçado! para que me abriste aquela porta, tendo-te avisado que perderias a vida?
O rapaz tais choros fez que o Mago lhe perdoou. De outra vez saiu o tio e fez-lhe a mesma
recomendação. Não ia muito longe, quando o sobrinho deu volta à chave da outra porta, e
apenas viu uma campina com um cavalo branco a pastar. Nisto lembrou-se da ameaça do tio e
já o sentindo subir pela escada, começou a gritar:
– Ai que agora é que estou perdido!
O cavalo branco falou-lhe:
– Apanha desse chão um ramo, uma pedra e um punhado de areia, e monta já quanto antes
em mim.
Palavras não eram ditas, o Mago abriu a porta da casa: o rapaz salta para cima do cavalo
branco e grita:
– Foge! que aí chega o meu tio para me matar.
O cavalo branco correu pelos ares fora; mas indo lá muito longe, o rapaz torna a gritar:
– Corre! que meu tio já me apanha para me matar.
O cavalo branco correu mais, e quando o Mago estava quase a apanhá-los, disse para o rapaz:
– Deita fora o ramo.
Fez-se logo ali uma floresta muito fechada, e, enquanto o Mago abria caminho por ela,
puseram-se muito longe. Ainda o rapaz tornou outra vez a gritar:
– Corre! que já aí está meu tio, que me vai matar.
Disse o cavalo branco:
– Bota fora a pedra.
Logo ali se levantou uma grande serra cheia de penedias, que o Mago teve de subir, enquanto
eles avançavam caminho. Mais adiante, grita o rapaz:
– Corre, que meu tio agarra-nos.
– Pois atira ao vento o punhado de areia, disse-lhe o cavalo branco.
Apareceu logo ali um mar sem fim, que o Mago não pôde atravessar. Foram dar a uma terra
onde se estavam fazendo muitos prantos. O cavalo branco ali largou o rapaz e disse-lhe que
quando se visse em grandes trabalhos por ele chamasse mas que nunca dissesse como viera
ter ali. O rapaz foi andando e perguntou por quem eram aqueles grandes prantos.
– É porque a filha do rei foi roubada por um gigante que vive em uma ilha aonde ninguém pode
chegar.
– Pois eu sou capaz de ir lá.
Foram dizê-lo ao rei; o rei obrigou-o com pena de morte a cumprir o que dissera. O rapaz
valeu-se do cavalo branco, e conseguiu ir à ilha trazendo de lá a princesa, porque apanhara o
gigante dormindo.
A princesa assim que chegou ao palácio não parava de chorar. Perguntou-lhe o rei:
– Porque choras tanto, minha filha?
– Choro porque perdi o meu anel que me tinha dado a fada minha madrinha e, enquanto o não
tornar a achar, estou sujeita a ser roubada outra vez ou ficar para sempre encantada.
O rei mandou lançar o pregão em como dava a mão da princesa a quem achasse o anel que
ela tinha perdido. O rapaz chamou o cavalo branco, que lhe trouxe do fundo do mar o anel,
mas o rei não lhe queria já dar a mão da princesa; porém ela é que declarou que casaria com o
jovem para que dissessem sempre: Palavra de rei não torna atrás.

Conto Tradicional Português,
Teófilo Braga,
1883

* * *

Os Dez Anõezinhos da Tia Verde-água

Era uma mulher casada, mas que se dava muito mal com o marido, porque não trabalhava
nem tinha ordem no governo da casa; começava uma coisa e logo passava para outra, tudo
ficava em meio, de sorte que quando o marido vinha para casa nem tinha o jantar feito, e à
noite nem água para os pés nem a cama arranjada. As coisas foram assim, até que o homem
lhe pôs as mãos e ia-a tosando, e ela a passar muito má vida. A mulher andava triste por o
homem lhe bater, e tinha uma vizinha a quem se foi queixar, a qual era velha e se dizia que as
fados a ajudavam. Chamavam-lhe a Tia Verde-Água:
– Ai, Tia! vocemecê é que me podia valer nesta aflição.
– Pois sim, filha; eu tenho dez anõezinhos muito arranjadores, e mando-tos para tua casa para
te ajudarem.
E a velha começou a explicar-lhe o que devia fazer para que os dez anõezinhos a ajudassem;
que quando pela manha se levantasse fizesse logo a cama, em seguida acendesse o lume,
depois enchesse o cântaro de água, varresse a casa, aponteasse a roupa, e no intervalo em
que cozinhasse o jantar fosse dobando as suas meadas, até o marido chegar. Foi-lhe assim
indicando o que havia de fazer, que em tudo isto seria ajudada sem ela o sentir pelos dez
anõezinhos. A mulher assim o fez, e se bem o fez melhor lhe saiu. logo à boca da noite foi a
casa da Tia Verde-Água agradecer-lhe o ter-lhe mandado os dez anõezinhos, que ela não viu
nem sentiu, mas porque o trabalho correu-lhe como por encanto. Foram-se assim passando as
coisas, e o marido estava pasmado por ver a mulher tornar-se tão arranjadeira e limposa; ao
fim de oito dias ele não se teve que não lhe dissesse como ela estava outra mulher, e que
assim viveriam como Deus com os anjos. A mulher contente por se ver agora feliz, e mesmo
porque a féria chegava para mais,
vai a casa da Tia Verde-Água agradecer-lhe o favor que lhe
fez:
– Ai, minha Tia, os seus dez anõezinhos fizeram-me um servição; trago agora tudo arranjado, e
o meu homem anda muito meu amigo. O que lhe eu pedia agora é que mos deixasse lá ficar.
A velha respondeu-lhe:
– Deixo, deixo. Pois tu ainda não viste os dez anõezinhos?
– Ainda não; o que eu queria era vê-los.
– Não sejas tola; se tu queres vê-los olha para as tuas mãos,
e os teus dedos é que são os dez
anõezinhos.
A mulher compreendeu a causa,
e foi para casa satisfeita consigo por saber como é que se faz
luzir o trabalho.

* * *
Teófilo Braga
Contos Tradicionais do Povo Português
(1883)

Sempre Não

Um cavaleiro, casado com uma dama nobre e formosa, teve de ir fazer uma longa jornada:
receando acontecesse algum caso desagradável enquanto estivesse ausente, fez com que a
mulher lhe prometesse que enquanto ele estivesse fora de casa diria a tudo: – Não. Assim
pensava o cavaleiro que resguardaria o seu castelo do atrevimento dos pajens ou de qualquer
aventureiro que por ali passasse. O cavaleiro já havia muito que se demorava na corte, e a
mulher aborrecida na solidão do castelo não tinha outra distracção senão passar as tardes a
olhar para longe, da torre do miradouro. Um dia passou um cavaleiro, todo galante, e
cumprimentou a dama: ela fez-lhe a sua mesura. O cavaleiro viu-a tão formosa, que sentiu logo
ali uma grande paixão, e disse:
– Senhora de toda a formosura! Consentis que descanse esta noite no vosso solar?
Ela respondeu:
– Não!
O cavaleiro ficou um pouco admirado da secura daquele não, e continuou:
– Pois quereis que seja comido dos lobos ao atravessar a serra?
Ela respondeu:
– Não.
Mais pasmado ficou o cavaleiro com aquela mudança, e insistiu:
– E quereis que vá cair nas mãos dos salteadores ao passar pela floresta?
Ela respondeu:
– Não.
Começou o cavaleiro a compreender que aquele Não seria talvez sermão encomendado, e
virou as suas perguntas:
– Então fechais-me o vosso castelo?
Ela respondeu:
– Não.
– Recusais que pernoite aqui?
– Não.
Diante destas respostas o cavaleiro entrou no castelo e foi conversar com a dama e a tudo o
que lhe dizia ela foi sempre respondendo
– Não.
Quando no fim do serão se despediam para se recolherem a suas câmaras, disse o cavaleiro:
– Consentis que eu fique longe de vós?
Ela respondeu:
– Não.
– E que me retire do vosso quarto?
– Não.
O cavaleiro partiu, e chegou à corte, onde estavam muitos fidalgos conversando ao braseiro, e
contando as suas aventuras. Coube a vez ao que tinha chegado, e contou a história do Não;
mas quando ia já a contar a modo como se metera na cama da castelã, o marido já sem ter
mão em si, perguntou agoniado:
– Mas onde foi isso cavaleiro?
O outro percebeu a aflição do marido e continuou sereno:
– Ora quando ia eu a entrar para o quarto da dama, tropeço no tapete,sinto um grande
solavanco, e acordo! Fiquei desesperado em interromper-se um sonho tão lindo.
O marido respirou aliviado, mas de todas as histórias foi aquela a mais estimada.

Teófilo Braga
Contos Tradicionais do Povo Português
(1883)
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