Quem sou eu

Minha foto
HOJE ALGUMAS FRASES ME DEFINEM: Clarice Lispector "Os contos de fadas são assim. Uma manhã, a gente acorda. E diz: "Era só um conto de fadas"... Mas no fundo, não estamos sorrindo. Sabemos muito bem que os contos de fadas são a única verdade da vida." Antoine de Saint-Exupéry. Contando Histórias e restaurando Almas."Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." Fernando Pessoa

Colaboradores

Mostrando postagens com marcador Teófilo Braga. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Teófilo Braga. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Manuel Feijão


Imagem do Google

Dois casados viviam muito tristes por serem já velhos e não terem filhos, Vai a mulher disse uma vez:
— A cousa que eu mais queria neste mundo era ter um filho, ainda que ele fosse do tamanho de um feijão.
Passados tempos, quando menos o esperavam, velha teve um filho, tão pequerruchinho, tão pequerruchinho, que era mesmo do tamanho de um feijão. Criou-se o menino, e puseram-lhe o nome de Manuel Feijão; a mãe nunca tirava o sentido dele, e ainda assim muitas vezes o perdia. De uma vez foi botar umas gavelas ao boi, e entre elas tinha-se perdido Manuel Feijão e o boi engoliu-o. A mãe muito apoquentada começou a gritar por toda a parte:
— Manuel Feijão! Manuel Feijão!
Ele respondia dentro da barriga do boi:
— Crós, crós!
— Manuel Feijão, onde estás?
— Crós, crós! na barriga do boi.
A mãe pôs-se a aparar o que o boi fazia, e assim tornou a achar Manuel Feijão todo sujinho; lavou-o muito bem lavado, mas o pequeno era muito traquina, não tinha medo dos bois, e até os queria levar para o campo. Metia-se-lhe numa venta, e assim os guiava para pastar e para voltar para casa, e até para levar no carro o jantar ao pai.
De uma vez teve uma necessidade, e abaixou-se debaixo de uns feitos; ora andava por ali uma cabra a pastar, e indo comer os olhinhos do feito, engoliu Manuel Feijão. A mão ficou desta vez mais aflita porque o pequeno não aparecia; a cabra com as dores de barriga, corria por escombros e valados, mas sempre vinha dar à horta do pobre lavrador; por fim cansado de escorraçar a cabra, temendo que fosse coisa ruim, o pai de Manuel Feijão deu uma estourada na cabra, e matou-a, e atirou com ela para o meio da estrada. Veio de noite um lobo e comeu as tripas da cabra, e lá se foi Manuel Feijão aos tombos dentro da barriga do lobo. Começou a dar-lhe voltas nas tripas, e o lobo com as dores subiu-se por um pinheiro acima. Nisto vêm uns ladrões carregados com uns sacos de dinheiro, em cima de um macho; Manuel Feijão faz com que o lobo se atire lá de cima, arrebentou no meio do chão, e os ladrões fugiram espantados. Manuel Feijão assim que apanhou o lobo com as tripas de fora, saiu lá de dentro, e subiu para o macho, meteu-se dentro de uma orelha e começou a beliscá-lo. O macho botou a fugir, a fugir, e ele guiou-o para a casa do pai, e chegou à porta ainda de noite, a fazer muito estrupido. Perguntaram de dentro:
— Quem é que está aí?
— Ê Manuel Feijão, crós, crós!
A mãe reconheceu-o, veio abrir à pressa; abraçou-o, lavou-o, e o pai foi descarregar o macho e guardar os sacos de dinheiro, e foram todos muitos felizes.
Conto de fadas português. Recolhido por Téofilo Braga. Fonte: Fonte: Os melhores contos Populares de Portugal. Org. de Câmara Cascudo. Dois Mundos Editora, 1944.

sábado, 22 de janeiro de 2011

O Velho Querecas


imagem do Google
ERA uma moça solteira e muito animosa que ficou órfã de pai e mãe e sem ter onde se abrigar. Na cidade havia uma casa abandonada porque apareciam almas do outro mundo e ninguém queria lá ficar uma noite. A moça lá foi ter e arranjou as coisas para dormir. Perto da meia-noite ouviu um barulho no forro do quarto, gemidos e uma voz gritando: eu caio! eu caio! eu caio!
— Pois cai logo, disse a moça. Caiu uma perna e o barulho começou a ouvir-se mais forte o a voz gritando: eu caio! eu caio! eu caio!
— Pois caia quem já caiu, dizia a moça. Caiu outra perna e assim, com muito barulho, gemidos e gritos de eu caio, eu caio, foram caindo braços, peito, mãos, cabeça, até que tudo ficou no assoalho e se juntou, levantando-se um homem careca, já velho, muito simpático.
— És a única pessoa no mundo que não teve medo de mim e ajudou-me a desencantar. Ainda falta muito mas quero agradecer-te. Aqui tens uma bolsa que sempre estará cheia de moedas por mais que gastes.
Desapareceu o velho e a casa ficou sem barulho algum, muito sossegada. A moça ficou vivendo muito bem, tratando-se do melhor, sem que vissevivalma. Lá uma vez por outra ouvia uma voz que lhe perguntava:
— Falta-lhe alguma coisa?
— Nada me falta, respondia a moça — quem me fala?
— E’ o velho Querecas! dizia a voz.
A moça começou a reparar que a cama amanhecia como se dormissem nela duas pessoas. Resolveu verificar e fingiu adormecer. No escuro .sentiu que uma pessoa entrava no quarto, despia-se e se metia na cama, adormecendo. Ouvindo o ressonar, a moça fez lume para ver quem era, lem-hrando-se do velho Querecas, dono da casa. Viu um moço muito bonito e forte, dormindo calmamente. A moça ficou tão embevecida em contemplá-lo que um pingo de cera da vela caiu em cima do rosto do rapaz e acordou-o.
— Ah! ingrata! Dobraste-me o encanto que estava quási a terminar. Agora para me achares, sapatos de ferro hás-ãe gastar…
Desapareceu o rapaz e a moça ficou muito desconsolada pelo castigo da sua curiosidade. Mandou fazer uns sapatos de ferro, calçou-os e pôs-se a correr mundo, procurando o paradeiro do namorado. Ninguém dava notícia. Os sapatos foram-se gastando e a moça cada vez mais cansada de andar e sofrer necessidades.
Uma tarde chegou a uma cidade e não encontrou hospedagem em parte alguma. Depois de muito procurar, escondeu-se num palheiro abandonado, metendo-se dentro das palhas secas para dormir. Muito tarde acordou por um sussurro de vozese conheceu que eram bruxas numa reunião. Falavam entre elas:
— Que há de novo no teu mundo?
— As mesmas cousas e as mesmos lousas! Por fim uma bruxa que viera por derradeiro disse:
— Novidade, novidade é que o príncipe desta cidade, que estava encantado, no velho Querecas, vai morrer porque ninguém o pode ver…
— E por que não o vêem?
— Porque está invisível e só será visto pelo tecido da bolsa sem fim que ele deu a uma menina que ia quebrando o encanto, mas perdeu porque era curiosa.
Conversaram muito e depois se separaram voando para todos os lados. A moça, logo que rompeu o dia, procurou a verdade e lhe ensinaram o palácio do rei. Foi perguntar pela rainha velha e esta lhe disse que o filho estava encantado num quarto do castelo, doente, mas ninguém o via por mais que procurasse ver. A moça pediu que a levassem até esse quarto, e lá chegando rasgou a bolsa que o velho Querecas lhe dera, e pela fazenda olhou, avistando o mesmo rapaz seu conhecido, deitado no chão, com os olhos fechados, parecendo muito mal. A moça deu um grito e o rapaz acordando, e reconhecendo-a, deu outro ainda maior, deseneantando-se e aparecendo aos olhos de todos. Começaram a tratá-lo com muito carinho e ele ficou bom e casou com a moça.
Teófilo Braga registou uma versão do Algarve, Contos Tradicionais, 1, 4, apenas semelhante no início. A versão que ouvi é do Porto. Os elementos ocorrem noutros contos europeus, parecendo o velho Querecas constituir um conto de convergência. 0 pingo de cera despertando o encantado é o característico na espécie, já presente na lenda de Eros e Psique. O namorado invisível aparece no conto espanhol de Porqueros, León, La loba negra, que o prof. Espinosa registou, Cuentos Populares Españoles, II, 144. O corpo que despenca aos pedaços para a prova de coragem da heroína, figura, apud Braga, na lenda de Atenodoro, narrada por Alexander-ab-Alexandro e traduzida para o português pelo padre Manuel Consciência, Academia universal de vária erudição sagrada e profana, p. 545, Lisboa, 1734. Alexandre de Alexandria faleceu no ano de 328. Sapatos de bronze ou de ferro, medindo o tempo pelo desgaste no uso, encontram-se nas saga de Loo-brókar e na de Skjoldunga, ambas islandesas, apud Stith Thompson, no seu Motif-lndex of Folk-Literature, H 1583.1: — Time measured by worn iron shoes. No Folclore espanhol os siete pares de zapatos de hierro aparecem no Castillo de Oropé, Cabeza de Burro, El lagarto de las siete camisas, contos 128, 127, 130 do Cuentos Populares Españoles, II, Stanford Uni-versity, 1924.
Imagem do Google

domingo, 2 de maio de 2010

Os Dez Anõezinhos da Tia Verde-Água - 20MMN

Era uma mulher casada, mas que se dava muito mal com o marido, porque não trabalhavanem tinha ordem no governo da casa; começava uma coisa e logo passava para outra, tudoficava em meio, de sorte que quando o marido vinha para casa nem tinha o jantar feito, e ànoite nem água para os pés nem a cama arranjada. As coisas foram assim, até que o homemlhe pôs as mãos e ia-a tosando, e ela a passar muito má vida. A mulher andava triste por ohomem lhe bater, e tinha uma vizinha a quem se foi queixar, a qual era velha e se dizia que asfados a ajudavam. Chamavam-lhe a Tia Verde-Água:– Ai, Tia! vocemecê é que me podia valer nesta aflição.– Pois sim, filha; eu tenho dez anõezinhos muito arranjadores, e mando-tos para tua casa parate ajudarem.E a velha começou a explicar-lhe o que devia fazer para que os dez anõezinhos a ajudassem;que quando pela manha se levantasse fizesse logo a cama, em seguida acendesse o lume,depois enchesse o cântaro de água, varresse a casa, aponteasse a roupa, e no intervalo emque cozinhasse o jantar fosse dobando as suas meadas, até o marido chegar. Foi-lhe assimindicando o que havia de fazer, que em tudo isto seria ajudada sem ela o sentir pelos dezanõezinhos. A mulher assim o fez, e se bem o fez melhor lhe saiu. logo à boca da noite foi acasa da Tia Verde-Água agradecer-lhe o ter-lhe mandado os dez anõezinhos, que ela não viunem sentiu, mas porque o trabalho correu-lhe como por encanto. Foram-se assim passando ascoisas, e o marido estava pasmado por ver a mulher tornar-se tão arranjadeira e limposa; aofim de oito dias ele não se teve que não lhe dissesse como ela estava outra mulher, e queassim viveriam como Deus com os anjos. A mulher contente por se ver agora feliz, e mesmoporque a féria chegava para mais, vai a casa da Tia Verde-Água agradecer-lhe o favor que lhefez:– Ai, minha Tia, os seus dez anõezinhos fizeram-me um servição; trago agora tudo arranjado, eo meu homem anda muito meu amigo. O que lhe eu pedia agora é que mos deixasse lá ficar.A velha respondeu-lhe:– Deixo, deixo. Pois tu ainda não viste os dez anõezinhos?– Ainda não; o que eu queria era vê-los.– Não sejas tola; se tu queres vê-los olha para as tuas mãos,
e os teus dedos é que são os dezanõezinhos.A mulher compreendeu a causa,
e foi para casa satisfeita consigo por saber como é que se faz luzir o trabalho.

* * *

----

* * *

domingo, 4 de abril de 2010

O Caldo de Pedra - 16H MMN


Um frade andava ao peditório; chegou à porta de um lavrador, mas não lhe quiseram aí dar nada. O frade estava a cair com fome, e disse:– Vou ver se faço um caldinho de pedra. E pegou numa pedra do chão, sacudiu-lhe a terra e pôs-se a olhar para ela para ver se era boa para fazer um caldo. A gente da casa pôs-se a rir do frade e daquela lembrança. Diz o frade:– Então nunca comeram caldo de pedra?
Só lhes digo que é uma coisa muito boa. Responderam-lhe:– Sempre queremos ver isso. Foi o que o frade quis ouvir. Depois de ter lavado a pedra, disse:– Se me emprestassem aí um pucarinho. Deram-lhe uma panela de barro. Ele encheu-a de água e deitou-lhe a pedra dentro.– Agora se me deixassem estar a panelinha aí ao pé das brasas. Deixaram. Assim que a panela começou a chiar, disse ele:– Com um bocadinho de unto é que o caldo ficava de primor. Foram-lhe buscar um pedaço de unto. Ferveu, ferveu, e a gente da casa pasmada para o que via. Diz o frade, provando o caldo:– Está um bocadinho insosso; bem precisa de uma pedrinha de sal. Também lhe deram o sal. Temperou, provou, e disse: -Agora é que com uns olhinhos de couve ficava que os anjos o comeriam. A dona da casa foi à horta e trouxe-lhe duas couves tenras.O frade limpou-as, e ripou-as comos dedos deitando as folhas na panela. Quando os olhos já estavam aferventados disse o frade:– Ai, um naquinho de chouriço é que lhe dava uma graça...Trouxeram-lhe um pedaço de chouriço; ele botou-o à panela,e enquanto se cozia, tirou do alforge pão, e arranjou-se para comer com vagar. O caldo cheirava que era um regalo.Comeu e lambeu o beiço; depois de despejada a panela ficou a pedra no fundo;a gente da casa, queestava com os olhos nele, perguntou-lhe:– Ó senhor frade, então a pedra?Respondeu o frade:– A pedra lavo-a e levo-a comigo para outra vez. E assim comeu onde não lhe queriam dar nada.



Conto Tradicional Português,
Teófilo Braga,
1883

* * *

----------------

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O Cego e o Moço


Um cego andava pedindo esmola pela mão de um moço; a uma porta deram-lhe um naco de
pão e um bocado de linguiça. O moço pegou no pão e deu-o ao cego para metê-lo na sacola, e
ia comendo a linguiça muito à sorrelfa. O cego, desconfiado, pelo caminho começa a bradar
com o moço:
– Ó grande tratante, cheira-me a linguiça! Acolá deram-me linguiça e tu só me entregaste o
pão.
– Pela minha salvação, que não deram senão pão.
– Mas cheira-me a linguiça, refinado larápio!
E começou a bater com o bordão no moço pancadas de criar bicho. O moço era ladino e disse
lá para si que o cego lhas havia de pagar. Quando iam por uns campos onde estavam uns
sobreiros, o moço embicou o cego para um tronco, e grita-lhe:
– Salta, que é rego. O cego vai para saltar e bate com os focinhos no sobreiro. Grita ele:
– Ó rapaz do diabo! Que te racho.
Diz-lhe ele:
Pois cheira-lhe o pão a linguiça, E não lhe cheira o sobreiro à cortiça?

* * *


Teófilo Braga,
Contos Tradicionais do Povo Português,
1883

* * *

Os Três Conselhos

Um pobre rapaz tinha casado, e para arranjar a sua vida, logo ao fim do primeiro ano teve de ir
servir uns patrões muito longe. Ele era assim bom homem, e pediu ao amo que lhe fosse
guardando na mão o dinheiro das soldadas. Ao fim de uns quatro anos já tinha um par de
moedas, que lhe chegava para comprar um eidico, e quis voltar para casa. O patrão disse-lhe:
– Qual queres, três bons conselhos que te hão-de servir para toda a vida, ou o teu dinheiro?
– Ele, o dinheiro é sangue, como diz o outro.
– Mas podem roubar-to pelo caminho e matarem-te.
– Pois então venham de lá os conselhos.
Disse-lhe o patrão:
– O primeiro conselho que te dou é que nunca te metas por atalho, podendo andar pela estrada
real.
– Cá me fica para meu governo.
– O segundo, é que nunca pernoites em casa de homem velho casado com mulher nova.
Agora o terceiro vem a ser: nunca te decidas pelas primeiras aparências.
O rapaz guardou na memória os três conselhos, que representavam todas as suas soldadas; e
quando se ia embora, a dona da casa deu-lhe um bolo para o caminho, se tivesse fome; mas
que era melhor comê-lo em casa com a mulher, quando lá chegasse. Partiu o homenzinho do
Senhor, e encontrou-se na estrada com uns almocreves que levavam uns machos com
fazendas; foram-se acompanhando e contando a sua vida, e chegando lá a um ponto da
estrada, disse um almocreve que cortava ali por uns atalhos, porque poupava meia hora de
caminho. O rapaz foi batendo pela estrada real, e quando ia chegando a um povoado, viu vir o
almocreve todo esbaforido sem os machos; tinham-no roubado e espancado na quelha. Disse
o moço:
– Já me valeu o primeiro conselho.
Seguiu o seu caminho, e chegou já de noite a uma venda, onde foi beber uma pinga, e onde
tencionava pernoitar; mas quando viu o taverneiro já homem entrado, e a mulher ainda
frescalhuda, pagou e foi andando sempre, Quando chegou à vila, ia lá um reboliço; era que a
Justiça andava em busca de um assassino que tinha fugido com a mulher do taverneiro que
fora morto naquela noite. Disse o rapaz lá consigo:
– Bem empregado dinheiro o que me levou o patrão por este conselho.
E picou o passo, para ainda naquele dia chegar a casa. E lá chegou; quando se ia
aproximando da porta, viu dentro de casa um homem, sentado ao lume com a sua mulher! A
sua primeira ideia foi ir matar logo ali a ambos. Lembrou-se do conselho, e curtiu consigo a sua
dor, e entrou muito fresco pela poria dentro. A mulher veio abraçá-lo, e disse:
– Aqui está meu irmão, que chegou hoje mesmo do Brasil. Que dia! E tu também ao fim de
quatro anos!
Abraçaram-se todos muito contentes, e quando foi a ceia para a mesa, o marido vai a partir o
bolo, e aparece-lhe dentro todo o dinheiro das suas soldadas. E por isso diz o outro, ainda há
quem faça bem.

Teófilo Braga,
Contos Tradicionais do Povo Português,
1883
* * *

As Três Cidras do Amor


Era uma vez um príncipe, que andava à caça: tinha muita sede, e encontrou três cidras; abriu
uma, e logo ali lhe apareceu uma formosa menina, que disse:
– Dá-me água, senão morro.
O príncipe não tinha água, e a menina expirou. O príncipe foi andando mais para diante, e
como a sede o apertava partiu outra cidra. Desta vez apareceu-lhe outra menina ainda mais
linda do que a primeira, e também disse:
– Dá-me água, senão morro.
Não tinha ali água, e a menina morreu; o príncipe foi andando muito triste, e prometeu não abrir
a outra cidra senão ao pé de uma fonte. Assim fez; partiu a última cidra, e desta vez tinha água
e a menina viveu. Tinha-se-lhe que brado o encanto, e como era muito finda, o príncipe
prometeu casar com ela, e partiu dali para o palácio para ir buscar roupas e levá-la para a
corte, como sua desposada. Enquanto o príncipe se demorou, a menina olhou dentre os ramos
onde estava escondida, e viu vir uma preta para encher uma cantarinha na água; mas a preta,
vendo figurada na água uma cara muito linda, julgou que era a sua própria pessoa, e quebrou a
cantarinha dizendo:
– Cara tão linda a acarretar água! Não deve ser.
A menina não pôde conter o riso; a preta olhou, deu com ela, e enraivecida fingiu palavras
meigas e chamou a menina para ao pé de si, e começou a catar-lhe na cabeça. Quando a
apanhou descuidada, meteu-lhe um alfinete num ouvido, e a menina tornou-se logo em pomba.
Quando o príncipe chegou, em vez da menina achou uma preta feia e suja, e perguntou muito
admirado:
– Que é da menina que eu aqui deixei?
– Sou eu, disse a preta. O sol crestou-me enquanto o príncipe me deixou aqui.
O príncipe deu-lhe os vestidos e levou-a para o palácio, onde todos ficaram pasmados da sua
escolha. Ele não queria faltar à sua palavra, mas roía calado a sua vergonha. O hortelão,
quando andava a regar as flores, viu passar pelo jardim uma pomba branca, que lhe perguntou:
– Hortelão da hortelaria,
Como passou o rei
E a sua preta Maria?
Ele, admirado, respondeu:
– Comem e bebem,
E levam boa vida.
– E a pobre pombinha
Por aqui perdida!
O hortelão foi dar parte ao príncipe, que ficou muito maravilhado, e disse-lhe:
– Arma-lhe um laço de fita.
Ao outro dia passou a pomba pelo jardim e fez a mesma pergunta: o hortelão respondeu-lhe, e
a pombinha voou sempre, dizendo:
– Pombinha real não cai em laço de fita.
O hortelão foi dar conta de tudo ao príncipe; disse-lhe ele:
– Pois arma-lhe um laço de prata.
Assim fez, mas a pombinha foi-se embora repetindo:
– Pombinha real não cai em laço de prata.
Quando o hortelão lhe foi contar o sucedido, disse o príncipe:
– Arma-lhe agora um laço de ouro.
A pombinha deixou-se cair no laço; e quando o príncipe veio passear muito triste para o jardim,
encontrou-a e começou a afagá-la; ao passar-lhe a mão pela cabeça, achou-lhe cravado num
ouvido um alfinete. Começou a puxá-lo, e assim que lho tirou, no mesmo instante reapareceu a
menina, que ele tinha deixado ao pé da fonte. Perguntou-lhe porque lhe tinha acontecido
aquela desgraça e a menina contou-lhe como a preta Maria se vira na fonte, como quebrou a
cantarinha, e lhe catou na cabeça, até que lhe enterrou o alfinete no ouvido. O príncipe levou-a
para o palácio, como sua mulher e diante de toda a corte perguntou-lhe o que queria que se
fizesse à preta Maria.
– Quero que se faça da sua pele um tambor, para tocar quando eu for à rua, e dos seus ossos
uma escada para quando eu descer ao jardim.
Se ela assim o disse, o rei melhor o fez, e foram muito felizes toda a sua vida.

* * *

Teófilo Braga,
Contos Tradicionais do Povo Português,
1883

O Caldo de Pedra



Um frade andava ao peditório; chegou à porta de um lavrador, mas não lhe quiseram aí darnada. O frade estava a cair com fome, e disse:– Vou ver se faço um caldinho de pedra. E pegou numa pedra do chão, sacudiu-lhe a terra epôs-se a olhar para ela para ver se era boa para fazer um caldo. A gente da casa pôs-se a rirdo frade e daquela lembrança. Diz o frade:– Então nunca comeram caldo de pedra? Só lhes digo que é uma coisa muito boa.Responderam-lhe:– Sempre queremos ver isso.Foi o que o frade quis ouvir. Depois de ter lavado a pedra, disse:– Se me emprestassem aí um pucarinho.Deram-lhe uma panela de barro. Ele encheu-a de água e deitou-lhe a pedra dentro.– Agora se me deixassem estar a panelinha aí ao pé das brasas.Deixaram. Assim que a panela começou a chiar, disse ele:– Com um bocadinho de unto é que o caldo ficava de primor.Foram-lhe buscar um pedaço de unto. Ferveu, ferveu, e a gente da casa pasmada para o quevia. Diz o frade, provando o caldo:– Está um bocadinho insosso; bem precisa de uma pedrinha de sal.Também lhe deram o sal. Temperou, provou, e disse:-Agora é que com uns olhinhos de couve ficava que os anjos o comeriam.A dona da casa foi à horta e trouxe-lhe duas couves tenras. O frade limpou-as, e ripou-as comos dedos deitando as folhas na panela.Quando os olhos já estavam aferventados disse o frade:– Ai, um naquinho de chouriço é que lhe dava uma graça...Trouxeram-lhe um pedaço de chouriço; ele botou-o à panela, e enquanto se cozia, tirou doalforge pão, e arranjou-se para comer com vagar. O caldo cheirava que era um regalo. Comeue lambeu o beiço; depois de despejada a panela ficou a pedra no fundo; a gente da casa, queestava com os olhos nele, perguntou-lhe:– Ó senhor frade, então a pedra?Respondeu o frade:– A pedra lavo-a e levo-a comigo para outra vez.E assim comeu onde não lhe queriam dar nada.

Conto Tradicional Português,

Teófilo Braga,

1883

* * *

O Boi Cardil

Um rei tinha um criado, em quem depositava a maior confiança, porque era o homem que
nunca em sua vida tinha dito uma mentira. Recebeu o rei um presente de boi muito formoso, a
que chamavam o boi Cardil; o rei tinha-o em tanta estimação que o mandou para uma das suas
tapadas acompanhado do criado fiei para tratar dele. Teve uma ocasião uma conversa com um
fidalgo, e falou da grande confiança que tinha na fidelidade do seu criado. O fidalgo riu-se:
– Porque te ris? – perguntou o rei.
– É porque ele é como os outros todos, que enganam os amos.
– Este não!
– Pois eu aposto a minha cabeça como ele é capaz de mentir até ao rei.
Ficou apostado. Foi o fidalgo para casa, mas não sabia como fazer cair o criado na esparrela e
andava muito triste. Uma filha nova e muito formosa, quando soube a causa da aflição do pai,
disse:
– Descanse, meu pai, que eu hei-de fazer com que ele há-de mentir por força ao rei.
O pai deu licença. Ela vestiu-se de veludo carmesim, mangas e saia curta, toda decotada, e
cabelos pelos ombros e foi passear para a tapada; até que se encontrou com o rapaz que
guardava o boi Cardil. Ela começou logo:
– Há muito tempo que trago uma paixão, e nunca te pude dizer nada.
O rapaz ficou atrapalhado e não queria acreditar naquilo, mas ela tais coisas disse e jeitinhos
deu que ele ficou pelo beiço. Quando o rapaz já estava rendido, ela exigiu-lhe que, em paga do
seu amor, matasse o boi Cardil. Ele assim fez e deu-se por bem pago todo o santíssimo dia.
A filha do fidalgo foi-se embora, e contou ao pai como o rapaz tinha matado o boi Cardil; o
fidalgo foi contá-lo ao rei, fiado em que o rapaz havia de explicar a morte do boi com alguma
mentira. O rei ficou furioso quando soube que o criado lhe tinha matado o boi Cardil, em que
punha tanta estimação. Mandou chamar o criado.
Veio o criado, e o rei fingiu que nada sabia; perguntou-lhe
– Então como vai o boi?
O criado julgou ver ali o fim da sua vida e disse:
Senhor! pernas alvas
E corpo gentil,
Matar me fizeram
Nosso boi Cardil.
O rei mandou que se explicasse melhor; o moço contou tudo. O rei ficou satisfeito por ganhar a
aposta, e disse para o fidalgo:
– Não te mando cortar a cabeça como tinhas apostado, porque te basta a desonra de tua filha.
E a ele não o castigo porque a sua fidelidade é maior do que o meu desgosto.




Conto Tradicional Português,
Teófilo Braga,
1883



"Histórias alimentam a alma, alegram o coração"

* * *

O Aprendiz de Mago

Um homem de grandes artes tinha na sua companhia um sobrinho, que lhe guardava a casa
quando precisava sair. De uma vez deu-lhe duas chaves, e disse:
– Estas chaves são daquelas duas portas; não mas abras por cousa nenhuma do mundo,
senão morres.
O rapaz, assim que se viu só, não se lembrou mais da ameaça e abriu uma das portas. Apenas
viu um campo escuro e um lobo que vinha correndo para arremeter contra ele. Fechou a porta
a toda a pressa passado de medo. Daí a pouco chegou o Mago:
– Desgraçado! para que me abriste aquela porta, tendo-te avisado que perderias a vida?
O rapaz tais choros fez que o Mago lhe perdoou. De outra vez saiu o tio e fez-lhe a mesma
recomendação. Não ia muito longe, quando o sobrinho deu volta à chave da outra porta, e
apenas viu uma campina com um cavalo branco a pastar. Nisto lembrou-se da ameaça do tio e
já o sentindo subir pela escada, começou a gritar:
– Ai que agora é que estou perdido!
O cavalo branco falou-lhe:
– Apanha desse chão um ramo, uma pedra e um punhado de areia, e monta já quanto antes
em mim.
Palavras não eram ditas, o Mago abriu a porta da casa: o rapaz salta para cima do cavalo
branco e grita:
– Foge! que aí chega o meu tio para me matar.
O cavalo branco correu pelos ares fora; mas indo lá muito longe, o rapaz torna a gritar:
– Corre! que meu tio já me apanha para me matar.
O cavalo branco correu mais, e quando o Mago estava quase a apanhá-los, disse para o rapaz:
– Deita fora o ramo.
Fez-se logo ali uma floresta muito fechada, e, enquanto o Mago abria caminho por ela,
puseram-se muito longe. Ainda o rapaz tornou outra vez a gritar:
– Corre! que já aí está meu tio, que me vai matar.
Disse o cavalo branco:
– Bota fora a pedra.
Logo ali se levantou uma grande serra cheia de penedias, que o Mago teve de subir, enquanto
eles avançavam caminho. Mais adiante, grita o rapaz:
– Corre, que meu tio agarra-nos.
– Pois atira ao vento o punhado de areia, disse-lhe o cavalo branco.
Apareceu logo ali um mar sem fim, que o Mago não pôde atravessar. Foram dar a uma terra
onde se estavam fazendo muitos prantos. O cavalo branco ali largou o rapaz e disse-lhe que
quando se visse em grandes trabalhos por ele chamasse mas que nunca dissesse como viera
ter ali. O rapaz foi andando e perguntou por quem eram aqueles grandes prantos.
– É porque a filha do rei foi roubada por um gigante que vive em uma ilha aonde ninguém pode
chegar.
– Pois eu sou capaz de ir lá.
Foram dizê-lo ao rei; o rei obrigou-o com pena de morte a cumprir o que dissera. O rapaz
valeu-se do cavalo branco, e conseguiu ir à ilha trazendo de lá a princesa, porque apanhara o
gigante dormindo.
A princesa assim que chegou ao palácio não parava de chorar. Perguntou-lhe o rei:
– Porque choras tanto, minha filha?
– Choro porque perdi o meu anel que me tinha dado a fada minha madrinha e, enquanto o não
tornar a achar, estou sujeita a ser roubada outra vez ou ficar para sempre encantada.
O rei mandou lançar o pregão em como dava a mão da princesa a quem achasse o anel que
ela tinha perdido. O rapaz chamou o cavalo branco, que lhe trouxe do fundo do mar o anel,
mas o rei não lhe queria já dar a mão da princesa; porém ela é que declarou que casaria com o
jovem para que dissessem sempre: Palavra de rei não torna atrás.

Conto Tradicional Português,
Teófilo Braga,
1883

* * *

Sempre Não

Um cavaleiro, casado com uma dama nobre e formosa, teve de ir fazer uma longa jornada:
receando acontecesse algum caso desagradável enquanto estivesse ausente, fez com que a
mulher lhe prometesse que enquanto ele estivesse fora de casa diria a tudo: – Não. Assim
pensava o cavaleiro que resguardaria o seu castelo do atrevimento dos pajens ou de qualquer
aventureiro que por ali passasse. O cavaleiro já havia muito que se demorava na corte, e a
mulher aborrecida na solidão do castelo não tinha outra distracção senão passar as tardes a
olhar para longe, da torre do miradouro. Um dia passou um cavaleiro, todo galante, e
cumprimentou a dama: ela fez-lhe a sua mesura. O cavaleiro viu-a tão formosa, que sentiu logo
ali uma grande paixão, e disse:
– Senhora de toda a formosura! Consentis que descanse esta noite no vosso solar?
Ela respondeu:
– Não!
O cavaleiro ficou um pouco admirado da secura daquele não, e continuou:
– Pois quereis que seja comido dos lobos ao atravessar a serra?
Ela respondeu:
– Não.
Mais pasmado ficou o cavaleiro com aquela mudança, e insistiu:
– E quereis que vá cair nas mãos dos salteadores ao passar pela floresta?
Ela respondeu:
– Não.
Começou o cavaleiro a compreender que aquele Não seria talvez sermão encomendado, e
virou as suas perguntas:
– Então fechais-me o vosso castelo?
Ela respondeu:
– Não.
– Recusais que pernoite aqui?
– Não.
Diante destas respostas o cavaleiro entrou no castelo e foi conversar com a dama e a tudo o
que lhe dizia ela foi sempre respondendo
– Não.
Quando no fim do serão se despediam para se recolherem a suas câmaras, disse o cavaleiro:
– Consentis que eu fique longe de vós?
Ela respondeu:
– Não.
– E que me retire do vosso quarto?
– Não.
O cavaleiro partiu, e chegou à corte, onde estavam muitos fidalgos conversando ao braseiro, e
contando as suas aventuras. Coube a vez ao que tinha chegado, e contou a história do Não;
mas quando ia já a contar a modo como se metera na cama da castelã, o marido já sem ter
mão em si, perguntou agoniado:
– Mas onde foi isso cavaleiro?
O outro percebeu a aflição do marido e continuou sereno:
– Ora quando ia eu a entrar para o quarto da dama, tropeço no tapete,sinto um grande
solavanco, e acordo! Fiquei desesperado em interromper-se um sonho tão lindo.
O marido respirou aliviado, mas de todas as histórias foi aquela a mais estimada.

Teófilo Braga
Contos Tradicionais do Povo Português
(1883)
* * *

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O Sargento Que Foi ao Inferno

Havia numa terra um sargento, que era muito bom rapaz; um rico mercador tomou-lhe
amizade, arranjou-lhe a baixa e tomou-o para seu empregado. Como o mercador tinha filhas, o
sargento apaixonou-se por uma delas: ora o mercador era muito desconfiado e nunca deixava
sair as filhas de casa, mas pela grande conta em que tinha o rapaz ele mesmo lhe falou para
se fazer o casamento. Tudo corria muito bem; vai, acontece ir uma peça muito linda no teatro,
e como as filhas desejassem ver, pediram ao sargento, que só ele é que era capaz de apanhar
licença do pai para as deixar ir ver. O mercador ficou carrancudo, mas deu licença, dizendo:
– Deixo ir as minhas filhas com o senhor, e é com a condição, que quando der a última
badalada da meia-noite hão-de estar aqui à porta.
Disseram todos que sim, e partiram.
Quase perto da meia-noite, o rapaz disse para a sua noiva, que era bom retirarem-se para
casa. Mais um bocadinho, mais um bocadinho; pede daqui, pede dali, o certo é que já tinha
dado a meia-noite, eles ainda longe de casa.
Assim que o rapaz bateu à porta, abriu-se logo de repente, e o mercador começou a bradar:
– Foi assim que o senhor cumpriu as ordens que eu lhe dei? Pois trate já de arranjar as suas
coisas que nem já esta noite me fica em casa.
– Oh senhor, então só por isto! E quando estava já para casar com sua filha!
O velho respondeu-lhe:
– Só tem um meio de poder casar com minha filha, e voltar para casa.
– Qual?
– Vá ao Inferno, e traga-me três anéis que o Diabo tem no corpo, dois debaixo dos braços, e
outro num olho.
O rapaz achou aquilo impossível; mas que remédio teve senão pôr-se a caminho. Na primeira
terra a que chegou, pregou um edital em que dizia: "Quem quiser alguma coisa para o Inferno,
amanhã parte um mensageiro." Isto causou grande curiosidade, até que chegou aos ouvidos
do rei, que mandou chamar o rapaz. Perguntou-lhe o rei:
– Como é que você vai ao Inferno?
– Real senhor, por ora ainda não sei; ando em procura dele, e irei lá, dê por onde der.
– Pois bem, disse o rei, quando encontrares o Diabo, pergunta-lhe se ele sabe de um anel de
muito valor que eu perdi, do que ainda tenho grande desgosto.
Chegou o rapaz a outra terra e botou o mesmo anúncio. O rei também o mandou chamar:
– Tenho uma filha que padece uma doença muito grande, e ninguém lhe acerta com o mal. Já
que vais ao Inferno quero que saibas por lá onde é que estará a cura.
O rapaz partiu sempre à procura do Inferno, e foi dar a uma encruzilhada em que estavam dois
caminhos, um com pegadas de gente, e o outro com pegadas de ovelhas. Pensou, e por fim
seguiu pelo caminho das pegadas de gente; ao meio dele encontrou um ermitão, de barbas
brancas, que rezava em umas camândulas muito grandes, e lhe disse:
– Ainda bem que tomaste por este caminho, porque esse outro é o que vai para o Inferno.
– Oh, senhor! E eu há tanto tempo que ando à procura dele!
O rapaz contou-lhe todo o acontecido; o ermitão teve compaixão dele, e disse:
– Já que tens de ir ao Inferno, vai, mas sempre leva contigo estas contas, porque antes de lá
chegar tens de passar um rio escuro, e há-de ser um pássaro que te há-de levar para o outro
lado; e quando ele te quiser afundar no rio, joga-lhe as contas ao pescoço. Daqui em diante
não sei mais o que te sucederá.
Assim aconteceu. Chegado ao Inferno o rapaz teve um grande medo, e viu para ali um forno
vazio e escondeu-se dentro dele. Quando estava todo agachado, passou uma velha muito
velha e viu-o.
– O menino aqui! Ora coitadinho, que é tão lindo; se o meu filho o visse matava-o, com certeza.
O que veio cá fazer?
O rapaz contou tudo à mãe do Diabo; a velha teve pena dele, e disse-lhe:
– Olhe; pois deixe-se ficar aqui escondido, porque eu não sei quando o meu filho virá; ele está
assistindo à morte do Padre Santo, que está nas agonias, e quer-lhe apanhar a alma. O rapaz
pediu à velha se sabia do Diabo as perguntas de que trazia encomenda. Quando estavam
nestas conversas chegou o Diabo bufando; a velha escondeu-o logo, e disse:
– Anda cá, filho, para descansares; deita-te aqui no meu colo.
O Diabo deitou-se e ficou logo a dormir. A velha foi muito devagarinho com as unhas e
arrancou-lhe um anel que tinha debaixo do braço. O Diabo mexeu-se desesperado, gritando:
– Isto o que é?
– Ai, filho, fui eu que me deixei dormir, e dei uma pendedela em cima de ti. Estava a sonhar
com aquele rei que perdeu o anel, e que nunca mais o tornou a achar.
– Pois é verdade esse sonho, respondeu o Diabo; está debaixo de uma laje ao pé do repuxo do
jardim.
O Diabo tornou a ficar a dormir; a velha sorrateira arrancou-lhe o segundo anel. O Diabo tornou
a acordar desesperado:
_ Tem paciência, filho; tornei-me a deixar dormir e a sonhar com a filha daquele rei que
nenhum médico sabe curar.
– Também é verdade; a doença dela é o sapo-sapão, que está metido no enxergão.
Tornou o Diabo a dormir. Para arrancar o anel do olho é que foram os trabalhos.
A velha tirou-o com um espéculo, e o diabo com a dor e zangado com as pendedelas, saiu pela
porta fora. O rapaz recebeu tudo da velha; voltou para o mundo, quando ela chamou o
pássaro: "Menino, menino, menino." Foi dali entregar as contas ao ermitão. Depois passou pela
terra do rei que tinha perdido o anel, que lhe deu muito dinheiro quando o tornou a achar
debaixo da laje. Depois passou pela corte do rei que tinha a filha doente, disse onde estava o
sapo-sapão. A princesa melhorou logo, e o rei pediu-lhe para que dissesse a paga que queria.
– Quero que Vossa Majestade me dê o seu poder por oito dias.
O rei mandou deitar um pregão para ele governar oito dias; o rapaz partiu logo para a terra do
sogro, e deu ordem logo que lá chegou para o mercador dentro em meia hora lhe vir falar à sua
presença. O mercador foi, mas quando chegou era já mais de uma hora. O rapaz disse:
– Podia-o mandar matar, por me ter desobedecido, em vir depois da meia hora.
– Oh senhor, não me demorei por minha vontade.
– Pois sim. Mas porque não soube em tempo desculpar aquele pobre sargento que pôs fora de
sua casa?
O mercador conheceu então o antigo noivo de sua filha, que tinha sempre chorado, confessou
o seu erro, e pediu-lhe de joelhos muitos perdões. O rapaz entregou-lhe os anéis do Diabo, e
nesse mesmo dia casou com a sua namorada, por quem tinha metido um pé no Inferno.

Teófilo Braga
Contos Tradicionais do Povo Português
(1883)

O Sal e a Água


Um rei tinha três filhas;
perguntou a cada uma delas por sua vez, qual era a mais sua amiga.
A mais velha respondeu:
– Quero mais a meu pai, do que à luz do Sol.
Respondeu a do meio:
– Gosto mais de meu pai do que de mim mesma.
A mais moça respondeu:
– Quero-lhe tanto, como a comida quer o sal.
O rei entendeu por isto que a filha mais nova o não amava tanto como as outras, e pô-la fora
do palácio. Ela foi muito triste por esse mundo, e chegou ao palácio de um rei, e aí se ofereceu
para ser cozinheira. Um dia veio à mesa um pastel muito bem feito, e o rei ao parti-lo achou
dentro um anel muito pequeno, e de grande preço. Perguntou a todas as damas da corte de
quem seria aquele anel. Todas quiseram ver se o anel lhes servia: foi passando, até que foi
chamada a cozinheira, e só a ela é que o anel servia. O príncipe viu isto e ficou logo
apaixonado por ela, pensando que era de família de nobreza.
Começou então a espreitá-la, porque ela só cozinhava às escondidas, e viu-a vestida com
trajos de princesa. Foi chamar o rei seu pai e ambos viram o caso. O rei deu licença ao filho
para casar com ela, mas a menina tirou por condição que queria cozinhar pela sua mão o
jantar do dia da boda. Para as festas de noivado convidou-se o rei que tinha três filhas, e que
pusera fora de casa a mais nova. A princesa cozinhou o jantar, mas nos manjares que haviam
de ser postos ao rei seu pai não botou sal de propósito. Todos comiam com vontade, mas só o
rei convidado é que não comia. Por fim perguntou-lhe o dono da casa, porque é que o rei não
comia? Respondeu ele, não sabendo que assistia ao casamento da filha:
– É porque a comida não tem sal.
O pai do noivo fingiu-se raivoso, e mandou que a cozinheira viesse ali dizer porque é que não
tinha botado sal na comida. Veio então a menina vestida de princesa, mas assim que o pai a
viu, conheceu-a logo, e confessou ali a sua culpa, por não ter percebido quanto era amado por
sua filha, que lhe tinha dito, que lhe queria tanto como a comida quer o sal, e que depois de
sofrer tanto nunca se queixara da injustiça de seu pai.


* * *
Teófilo Braga
Contos Tradicionais do Povo Português
(1883)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...