Quem sou eu
- Histórias de uma Contadora
- HOJE ALGUMAS FRASES ME DEFINEM: Clarice Lispector "Os contos de fadas são assim. Uma manhã, a gente acorda. E diz: "Era só um conto de fadas"... Mas no fundo, não estamos sorrindo. Sabemos muito bem que os contos de fadas são a única verdade da vida." Antoine de Saint-Exupéry. Contando Histórias e restaurando Almas."Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." Fernando Pessoa
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quinta-feira, 12 de novembro de 2009
terça-feira, 10 de novembro de 2009
O Cego e o Moço
Um cego andava pedindo esmola pela mão de um moço; a uma porta deram-lhe um naco de
pão e um bocado de linguiça. O moço pegou no pão e deu-o ao cego para metê-lo na sacola, e
ia comendo a linguiça muito à sorrelfa. O cego, desconfiado, pelo caminho começa a bradar
com o moço:
– Ó grande tratante, cheira-me a linguiça! Acolá deram-me linguiça e tu só me entregaste o
pão.
– Pela minha salvação, que não deram senão pão.
– Mas cheira-me a linguiça, refinado larápio!
E começou a bater com o bordão no moço pancadas de criar bicho. O moço era ladino e disse
lá para si que o cego lhas havia de pagar. Quando iam por uns campos onde estavam uns
sobreiros, o moço embicou o cego para um tronco, e grita-lhe:
– Salta, que é rego. O cego vai para saltar e bate com os focinhos no sobreiro. Grita ele:
– Ó rapaz do diabo! Que te racho.
Diz-lhe ele:
Pois cheira-lhe o pão a linguiça, E não lhe cheira o sobreiro à cortiça?
* * *
Teófilo Braga,
Contos Tradicionais do Povo Português,
1883
* * *
Os Três Conselhos
servir uns patrões muito longe. Ele era assim bom homem, e pediu ao amo que lhe fosse
guardando na mão o dinheiro das soldadas. Ao fim de uns quatro anos já tinha um par de
moedas, que lhe chegava para comprar um eidico, e quis voltar para casa. O patrão disse-lhe:
– Qual queres, três bons conselhos que te hão-de servir para toda a vida, ou o teu dinheiro?
– Ele, o dinheiro é sangue, como diz o outro.
– Mas podem roubar-to pelo caminho e matarem-te.
– Pois então venham de lá os conselhos.
Disse-lhe o patrão:
– O primeiro conselho que te dou é que nunca te metas por atalho, podendo andar pela estrada
real.
– Cá me fica para meu governo.
– O segundo, é que nunca pernoites em casa de homem velho casado com mulher nova.
Agora o terceiro vem a ser: nunca te decidas pelas primeiras aparências.
O rapaz guardou na memória os três conselhos, que representavam todas as suas soldadas; e
quando se ia embora, a dona da casa deu-lhe um bolo para o caminho, se tivesse fome; mas
que era melhor comê-lo em casa com a mulher, quando lá chegasse. Partiu o homenzinho do
Senhor, e encontrou-se na estrada com uns almocreves que levavam uns machos com
fazendas; foram-se acompanhando e contando a sua vida, e chegando lá a um ponto da
estrada, disse um almocreve que cortava ali por uns atalhos, porque poupava meia hora de
caminho. O rapaz foi batendo pela estrada real, e quando ia chegando a um povoado, viu vir o
almocreve todo esbaforido sem os machos; tinham-no roubado e espancado na quelha. Disse
o moço:
– Já me valeu o primeiro conselho.
Seguiu o seu caminho, e chegou já de noite a uma venda, onde foi beber uma pinga, e onde
tencionava pernoitar; mas quando viu o taverneiro já homem entrado, e a mulher ainda
frescalhuda, pagou e foi andando sempre, Quando chegou à vila, ia lá um reboliço; era que a
Justiça andava em busca de um assassino que tinha fugido com a mulher do taverneiro que
fora morto naquela noite. Disse o rapaz lá consigo:
– Bem empregado dinheiro o que me levou o patrão por este conselho.
E picou o passo, para ainda naquele dia chegar a casa. E lá chegou; quando se ia
aproximando da porta, viu dentro de casa um homem, sentado ao lume com a sua mulher! A
sua primeira ideia foi ir matar logo ali a ambos. Lembrou-se do conselho, e curtiu consigo a sua
dor, e entrou muito fresco pela poria dentro. A mulher veio abraçá-lo, e disse:
– Aqui está meu irmão, que chegou hoje mesmo do Brasil. Que dia! E tu também ao fim de
quatro anos!
Abraçaram-se todos muito contentes, e quando foi a ceia para a mesa, o marido vai a partir o
bolo, e aparece-lhe dentro todo o dinheiro das suas soldadas. E por isso diz o outro, ainda há
quem faça bem.
Teófilo Braga,
As Três Cidras do Amor
Era uma vez um príncipe, que andava à caça: tinha muita sede, e encontrou três cidras; abriu
uma, e logo ali lhe apareceu uma formosa menina, que disse:
– Dá-me água, senão morro.
O príncipe não tinha água, e a menina expirou. O príncipe foi andando mais para diante, e
como a sede o apertava partiu outra cidra. Desta vez apareceu-lhe outra menina ainda mais
linda do que a primeira, e também disse:
– Dá-me água, senão morro.
Não tinha ali água, e a menina morreu; o príncipe foi andando muito triste, e prometeu não abrir
a outra cidra senão ao pé de uma fonte. Assim fez; partiu a última cidra, e desta vez tinha água
e a menina viveu. Tinha-se-lhe que brado o encanto, e como era muito finda, o príncipe
prometeu casar com ela, e partiu dali para o palácio para ir buscar roupas e levá-la para a
corte, como sua desposada. Enquanto o príncipe se demorou, a menina olhou dentre os ramos
onde estava escondida, e viu vir uma preta para encher uma cantarinha na água; mas a preta,
vendo figurada na água uma cara muito linda, julgou que era a sua própria pessoa, e quebrou a
cantarinha dizendo:
– Cara tão linda a acarretar água! Não deve ser.
A menina não pôde conter o riso; a preta olhou, deu com ela, e enraivecida fingiu palavras
meigas e chamou a menina para ao pé de si, e começou a catar-lhe na cabeça. Quando a
apanhou descuidada, meteu-lhe um alfinete num ouvido, e a menina tornou-se logo em pomba.
Quando o príncipe chegou, em vez da menina achou uma preta feia e suja, e perguntou muito
admirado:
– Que é da menina que eu aqui deixei?
– Sou eu, disse a preta. O sol crestou-me enquanto o príncipe me deixou aqui.
O príncipe deu-lhe os vestidos e levou-a para o palácio, onde todos ficaram pasmados da sua
escolha. Ele não queria faltar à sua palavra, mas roía calado a sua vergonha. O hortelão,
quando andava a regar as flores, viu passar pelo jardim uma pomba branca, que lhe perguntou:
– Hortelão da hortelaria,
Como passou o rei
E a sua preta Maria?
Ele, admirado, respondeu:
– Comem e bebem,
E levam boa vida.
– E a pobre pombinha
Por aqui perdida!
O hortelão foi dar parte ao príncipe, que ficou muito maravilhado, e disse-lhe:
– Arma-lhe um laço de fita.
Ao outro dia passou a pomba pelo jardim e fez a mesma pergunta: o hortelão respondeu-lhe, e
a pombinha voou sempre, dizendo:
– Pombinha real não cai em laço de fita.
O hortelão foi dar conta de tudo ao príncipe; disse-lhe ele:
– Pois arma-lhe um laço de prata.
Assim fez, mas a pombinha foi-se embora repetindo:
– Pombinha real não cai em laço de prata.
Quando o hortelão lhe foi contar o sucedido, disse o príncipe:
– Arma-lhe agora um laço de ouro.
A pombinha deixou-se cair no laço; e quando o príncipe veio passear muito triste para o jardim,
encontrou-a e começou a afagá-la; ao passar-lhe a mão pela cabeça, achou-lhe cravado num
ouvido um alfinete. Começou a puxá-lo, e assim que lho tirou, no mesmo instante reapareceu a
menina, que ele tinha deixado ao pé da fonte. Perguntou-lhe porque lhe tinha acontecido
aquela desgraça e a menina contou-lhe como a preta Maria se vira na fonte, como quebrou a
cantarinha, e lhe catou na cabeça, até que lhe enterrou o alfinete no ouvido. O príncipe levou-a
para o palácio, como sua mulher e diante de toda a corte perguntou-lhe o que queria que se
fizesse à preta Maria.
– Quero que se faça da sua pele um tambor, para tocar quando eu for à rua, e dos seus ossos
uma escada para quando eu descer ao jardim.
Se ela assim o disse, o rei melhor o fez, e foram muito felizes toda a sua vida.
Teófilo Braga,
O Caldo de Pedra
Um frade andava ao peditório; chegou à porta de um lavrador, mas não lhe quiseram aí darnada. O frade estava a cair com fome, e disse:– Vou ver se faço um caldinho de pedra. E pegou numa pedra do chão, sacudiu-lhe a terra epôs-se a olhar para ela para ver se era boa para fazer um caldo. A gente da casa pôs-se a rirdo frade e daquela lembrança. Diz o frade:– Então nunca comeram caldo de pedra? Só lhes digo que é uma coisa muito boa.Responderam-lhe:– Sempre queremos ver isso.Foi o que o frade quis ouvir. Depois de ter lavado a pedra, disse:– Se me emprestassem aí um pucarinho.Deram-lhe uma panela de barro. Ele encheu-a de água e deitou-lhe a pedra dentro.– Agora se me deixassem estar a panelinha aí ao pé das brasas.Deixaram. Assim que a panela começou a chiar, disse ele:– Com um bocadinho de unto é que o caldo ficava de primor.Foram-lhe buscar um pedaço de unto. Ferveu, ferveu, e a gente da casa pasmada para o quevia. Diz o frade, provando o caldo:– Está um bocadinho insosso; bem precisa de uma pedrinha de sal.Também lhe deram o sal. Temperou, provou, e disse:-Agora é que com uns olhinhos de couve ficava que os anjos o comeriam.A dona da casa foi à horta e trouxe-lhe duas couves tenras. O frade limpou-as, e ripou-as comos dedos deitando as folhas na panela.Quando os olhos já estavam aferventados disse o frade:– Ai, um naquinho de chouriço é que lhe dava uma graça...Trouxeram-lhe um pedaço de chouriço; ele botou-o à panela, e enquanto se cozia, tirou doalforge pão, e arranjou-se para comer com vagar. O caldo cheirava que era um regalo. Comeue lambeu o beiço; depois de despejada a panela ficou a pedra no fundo; a gente da casa, queestava com os olhos nele, perguntou-lhe:– Ó senhor frade, então a pedra?Respondeu o frade:– A pedra lavo-a e levo-a comigo para outra vez.E assim comeu onde não lhe queriam dar nada.
Conto Tradicional Português,
Teófilo Braga,
1883
* * *
O Boi Cardil
nunca em sua vida tinha dito uma mentira. Recebeu o rei um presente de boi muito formoso, a
que chamavam o boi Cardil; o rei tinha-o em tanta estimação que o mandou para uma das suas
tapadas acompanhado do criado fiei para tratar dele. Teve uma ocasião uma conversa com um
fidalgo, e falou da grande confiança que tinha na fidelidade do seu criado. O fidalgo riu-se:
– Porque te ris? – perguntou o rei.
– É porque ele é como os outros todos, que enganam os amos.
– Este não!
– Pois eu aposto a minha cabeça como ele é capaz de mentir até ao rei.
Ficou apostado. Foi o fidalgo para casa, mas não sabia como fazer cair o criado na esparrela e
andava muito triste. Uma filha nova e muito formosa, quando soube a causa da aflição do pai,
disse:
– Descanse, meu pai, que eu hei-de fazer com que ele há-de mentir por força ao rei.
O pai deu licença. Ela vestiu-se de veludo carmesim, mangas e saia curta, toda decotada, e
cabelos pelos ombros e foi passear para a tapada; até que se encontrou com o rapaz que
guardava o boi Cardil. Ela começou logo:
– Há muito tempo que trago uma paixão, e nunca te pude dizer nada.
O rapaz ficou atrapalhado e não queria acreditar naquilo, mas ela tais coisas disse e jeitinhos
deu que ele ficou pelo beiço. Quando o rapaz já estava rendido, ela exigiu-lhe que, em paga do
seu amor, matasse o boi Cardil. Ele assim fez e deu-se por bem pago todo o santíssimo dia.
A filha do fidalgo foi-se embora, e contou ao pai como o rapaz tinha matado o boi Cardil; o
fidalgo foi contá-lo ao rei, fiado em que o rapaz havia de explicar a morte do boi com alguma
mentira. O rei ficou furioso quando soube que o criado lhe tinha matado o boi Cardil, em que
punha tanta estimação. Mandou chamar o criado.
Veio o criado, e o rei fingiu que nada sabia; perguntou-lhe
– Então como vai o boi?
O criado julgou ver ali o fim da sua vida e disse:
Senhor! pernas alvas
E corpo gentil,
Matar me fizeram
Nosso boi Cardil.
O rei mandou que se explicasse melhor; o moço contou tudo. O rei ficou satisfeito por ganhar a
aposta, e disse para o fidalgo:
– Não te mando cortar a cabeça como tinhas apostado, porque te basta a desonra de tua filha.
E a ele não o castigo porque a sua fidelidade é maior do que o meu desgosto.
Teófilo Braga,
1883
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