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HOJE ALGUMAS FRASES ME DEFINEM: "Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento." Clarice Lispector "Os contos de fadas são assim. Uma manhã, a gente acorda. E diz: "Era só um conto de fadas"... Mas no fundo, não estamos sorrindo. Sabemos muito bem que os contos de fadas são a única verdade da vida." Antoine de Saint-Exupéry. Contando Histórias e restaurando Almas."Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." Fernando Pessoa

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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A voz e a Imagem do Contador de Histórias - Os Narradores


Para construir uma casa, um pedreiro precisa de pedra, água, areia tijolos e cimento, seus principais instrumentos de trabalho. Para narrar um conto, um narrador precisa de uma história, um ouvinte e dele mesmo. Seu principal instrumento de trabalho é a sua voz e o seu corpo. O conto, pode até ser inventado ali mesmo, naquela hora, mas o domínio de suas ferramentas é que fará a diferença em sua performance.
A voz do contador de histórias tem o poder de conduzir o ouvinte para o que ele conta, transformando a voz em imagens e somando gestos e sons.
Na boca do contador de histórias as palavras ganham vida. Nascem do fundo de sua alma, sempre gestante e, brotam como ramas do centro da flor de suas emoções. Por isso que, contar histórias exige um conhecimento de si mesmo, uma espécie de autodomínio, pois é o narrador um condutor de sonhos capaz de despertar em quem o ouve fortes emoções. É como se você fosse um maquinista de um trem conduzindo muitos vagões repletos de gente, onde cada vagão mostra um ângulo distinto de uma mesma paisagem. A paisagem é o conto. O maquinista é o narrador que nos conduz para passear dentro dela, mas o que cada ouvinte vê depende da posição de sua janela e de seu vagão. E mesmo que ele escute o mesmo conto várias vezes, terá sempre a liberdade de escolher seu vagão e sua janela. Ainda que o ouvinte escolha o mesmo lugar, descobrirá sempre algo novo na paisagem. Por este motivo, contar e ouvir histórias é uma experiência única que nunca, nunca se repete igual.
A arte de contar histórias é feita de muitos caminhos. E sempre que um narrador escolhe e é escolhido por uma história, um novo trilho é construído. Por isso que uma mesma história contada por narradores diferentes nos conduz a paisagens completamente distintas. Uma paisagem tão vasta de imagens que mesmo ele é incapaz de enxergá-la sempre de um mesmo ângulo, até porque ela, a história, está sempre em movimento.
Diferente da literatura escrita, as palavras quando narradas, espalham-se e misturam-se a paisagem que o narrador quiser conduzir. E quanto mais imagens ele puder compartilhar, tanto mais a história será interessante.
Todas as pessoas nascem contadoras de histórias. E seu momento mais inventivo está ainda na infância, na descoberta da linguagem articulada. Toda criança só aprende a falar pela necessidade que tem de contar histórias. Apenas sustentada pela intuição de sua oralidade, ela vai montando o seu acervo de idéias a partir de suas próprias descobertas. A criança conta o visível pelo invisível. Parte da imagem para a palavra. A palavra da criança está sempre viva, ao revés do adulto que, ao se distanciar desta intuitiva prática com o passar dos anos, necessita da palavra para criar a imagem. E eis que, imagem e palavra, independente da ordem, são duas forças que nos acompanharão pelo resto de nossas vidas!
Mas se nascemos contadores de histórias, porque algumas pessoas têm dificuldade de se expressar ou porque alguns narradores parecem ser tão melhores em relação a outros?
Costumo dizer que, não há na arte, de uma maneira geral, um melhor ou pior artista. Não se pode analisar o dom, apenas a técnica. A diferença está no autoconhecimento técnico de suas ferramentas de trabalho aliadas à intuição de cada um.
O que define um resultado mais lapidado, também passa pelas experiências de vida de cada artista, de cada narrador. Não adianta você querer contar histórias com bonecos porque viu alguém contar e era lindo se, em algum momento de sua vida você não tiver tido o contato prático com a técnica de teatro de bonecos. Um músico que se descobre narrador contará sempre histórias musicais. Um escritor, geralmente narra suas histórias de maneira mais fiel ao texto e a palavra escrita. Não há regras, mas são “tempos” diferentes. E contar histórias é ser atemporal. É enxergar outras realidades e transitar entre elas sem se perder, revivendo a infância. Por isso é que um bom narrador uma vez conectado à infância haverá de seguir sempre com sua criança interior capaz de narrar palavras vivas, intuídas de suas imagens.
Por tudo isso, creio que, o principal exercício de um do narrador é trabalhar o olhar.
O olhar que não só ver, mas, sobretudo, enxerga.
Porque ver é superfície e enxergar é profundidade.
A criança enxerga, mesmo quando não vê.
O poeta é uma criança que cresce sem mudar a sua maneira de olhar o mundo, enxergando o invisível. E todo narrador é um poeta.
Eis aqui o maior segredo dos contadores de histórias.
Afinal, não estão nos olhos as janelas da alma?
E não é de lá, do fundo da alma gestante que brota a indizível magia que dá vida a uma história?
Havemos de trabalhar o olhar do contador de histórias, a partir das pequenas coisas de seu dia-a-dia.
O bom narrador, pratica o que ensina.
Josy Correia da Cia. Catirina.

Um comentário:

  1. Que bacana ter um pouco do meu pensamento compartilhado por aqui! Beijos
    (Josy Correia)

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