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HOJE ALGUMAS FRASES ME DEFINEM: "Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento." Clarice Lispector "Os contos de fadas são assim. Uma manhã, a gente acorda. E diz: "Era só um conto de fadas"... Mas no fundo, não estamos sorrindo. Sabemos muito bem que os contos de fadas são a única verdade da vida." Antoine de Saint-Exupéry. Contando Histórias e restaurando Almas."Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." Fernando Pessoa

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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

A mulher curiosa



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Estava um religioso a cozinhar numa pousada suas magras viandas.
Uma mulher, que morava na vizinhança, meteu os olhos pela janelinha que lhe ficava fronteira e pouco distante, e perguntou-lhe, em tom de gracejo, se lhe faltava alguma coisa.
- Sim, falta - respondeu o santo. Alguns ladrilhos e um pouco de barro para entaipar essa janela.
As palavras do santo envolviam claramente uma censura à curiosidade importuna de sua vizinha.
Ensinam os teólogos que não devemos criticar o procedimento dos outros nas coisas que não nos dizem respeito. Temos muito que fazer em nós mesmos e em o nosso interior, sem que nos seja preciso importar-nos com o que respeita aos outros. É isto excelente remédio contra a maledicência.
Quando São Pedro teve a curiosidade de perguntar a Jesus o que acontecia a João, ouviu do Mestre esta resposta célebre: Que te importa a ti? Segue-me! Por que perguntas coisas que não te dizem respeito?
Desfrutaríamos de muita paz se não nos ocupássemos de ações e palavras que não pertencem ao nosso cuidado.
Como pode, por muito tempo, viver em paz quem se intromete nos negócios alheios, quem sai em busca de relações exteriores, e pouco ou raramente se recolhe em si mesmo?
Bem-aventurados os simples, porque gozarão de muita paz.

Fonte: Lendas do Céu de da Terra de Malba Tahan

Branca Flor




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O rei D. Carlos tinha o vício de jogar. Estava acostumado a ganhar sempre, pois os seus súditos não se atreviam a vencê-lo no jogo.
Um dia, recebeu a visita de um príncipe de outro reino e o convidou para jogar. O rapaz não sabia que o rei ficava furioso quando perdia, de modo que jogou sem se importar com o resultado. Ganhou todos os jogos.
Vendo-se derrotado, o rei ficou louco de raiva. Declarou ao príncipe que êle não sairia vivo do seu reino. E não lhe daria a mão de uma filha, pedida pelo príncipe.
O rapaz ficou muito triste e procurou um velhinho, que morava perto da floresta, do qual diziam ser um bom feiticeiro. O velho aconselhou o príncipe a ficar escondido junto de um lago, onde costumavam banhar-se as três filhas do rei. As moças eram encantadas e, por isso, se transformavam em patas, nessa ocasião.
O velho disse ao rapaz que escondesse a roupa da princesa mais jovem, quando ela se despisse. Depois do banho, a moça havia de procurar a roupa e, não a encontrando, ficaria muito aflita e prometeria toda a proteção a quem a restituísse.
O príncipe seguiu o conselho do velho, foi para junto do lago e escondeu-se. Daí a pouco, chegaram as moças. Tiraram a roupa, transformaram-se em patas e correram para o lago onde ficaram nadando.
Terminado o banho, as que encontraram a roupa, vestiram-na, voltaram à forma humana e seguiram para o palácio. A princesa mais jovem, não tendo achado a sua roupa, ficou desesperada e começou a gritar, prometendo uma recompensa a quem restituísse o seu vestido.
Nesse momento surgiu o príncipe, que lhe entregou a roupa e disse:
— Protege-me, princesa, contra teu pai, que me quer matar.
— Cumprirei minha promessa, respondeu a princesa. Quando estiveres em perigo, grita por meu nome, que é Branca Flor.
A rainha, mãe de Branca Flor, era feiticeira, por isso as princesas tinham nascido com poderes mágicos.
O príncipe voltou então à presença do rei e declarou que faria tudo para conseguir a mão da princesa, que lhe fora prometida. O rei fechou a cara e disse o seguinte:
— Se quiseres casar com minha filha, hás de fazer primeiro o que te vou ordenar. Vês aquele campo em frente do palácio? Pois bem: ordeno-te que, de hoje até amanhã, vás semeá-lo de trigo; que do trigo faças farinha; que da farinha faças cem pães para serem postos na minha mesa.
Retirou-se o príncipe muito preocupado. Como poderia cumprir a ordem do rei? No caminho, encontrou Branca Flor que lhe disse para ficar tranqüilo, pois, no dia seguinte, tudo estaria pronto.
Realmente, na manhã seguinte, quando o rei foi ver o trabalho do príncipe, ficou maravilhado. Mas não ficou satisfeito e disse para o rapaz:
— Já que tens tanto poder, quero que tragas para junto do palácio aquelas grandes pedreiras, que se avistam lá ao longe.
O príncipe afastou-se muito triste, mas logo encontrou Branca Flor que o acalmou, dizendo que faria tudo aquilo durante a noite.
No dia seguinte, o rei ficou admirado quando viu o palácio rodeado de pedreiras. Mas mesmo assim, não ficou satisfeito e ordenou ao píncipe:
— Desejo agora que tragas o mar para perto do meu palácio.
Como das outras vezes, Branca Flor apareceu e ajudou o rapaz a cumprir a ordem do rei. E no dia seguinte, lá estava o mar, com as suas ondas, pertinho do palácio.
O rei percebeu então que tudo tinha sido feito por Branca Flor. Por isso, resolveu matá-la juntamente com o príncipe. Mas a moça adivinhou a intenção de seu pai e resolveu fugir com o rapaz.
À noite, dirigiu-se para o quarto do príncipe, avisouo do que ia acontecer e ordenou-lhe que fosse à estrebaria real e selasse os cavalos que corriam tanto quanto o vento. Quando batesse meia-noite, eles fugiriam do palácio. Assim fez o príncipe. Na hora combinada, os dois partiram a toda disparada.
Quando amanheceu o dia, o rei deu por falta do rapaz e da filha e ficou fu.ioso. Mandou selar o cavalo que voava como o pensamento e saiu, à toda, para pegar os fugitivos.
Pouco depois, os avistou. Mas Branca Flor, graças ao seu poder mágico, transformou os cavalos num mar, os arreios num barco, o príncipe num barqueiro e ela própria numa tainha.
Chegou o rei e, vendo que nada podia fazer, voltou para o palácio e contou tudo à rainha. Esta ficou louca de raiva, montou a cavalo e partiu, a toda pressa, em perseguição dos fugitivos. Mas encontrou ainda tudo no mesmo lugar. Branca Flor tinha adivinhado a vinda da rainha, de modo que não voltou à forma humana.
A rainha ficou furiosa ao ver que não podia continuar sua viagem por causa do mar. Regressou ao palácio, mas antes, apelou para seus pod res de feiticeira e rogou uma praga a fim de que o príncipe fosse ingrato para sua filha e a desprezasse.
Assim aconteceu, tempos depois. O príncipe ficou noivo de Branca Flor e foi residir, em sua companhia, num belo palácio, /las, antes do casamento, separou-se dela e esqueceu-a completamente.
Um ano depois, o príncipe contratou casamento com outra princesa. Chegou, finalmente, o dia da cerimônia da boda, seguida de muitas festas e de um grande banquete.
Na ocasião do banquete, estavam todos jantando, quando, ao partirem o bolo do casamento, saíram do seu interior um pombo e uma pomba, que foram banhar-se num vaso cheio dágua, colocado no centro da mesa. Depois, pousaram nos ombros do príncipe, arrulhando docemente, até que a pomba perguntou ao pombo:
— Não te lembras de quando meu pai te quis matar, e tu escondeste a minha roupa no lago e eu te prometi livrar de todo o perigo que te ameaçava?
E o pombo respondeu:
— Não me lembro, não me lembro! Voltou a pomba a perguntar:
- Não te lembras de quando meu pai mandou que semeasses um campo de trigo e o colhesses, e com o trigo fizesses farinha e com a farinha fizesses pão; e eu te salvei, fazendo tudo aquilo?
— Não me lembro, não me lembro! respondeu o pombo.
— Não te lembras de que meu pai te ordenou que trouxesses, primeiro umas grandes pedreiras e depois o mar, para junto do palácio, e eu fiz tudo isso, para te salvar?
Nisto, respondeu o pombo:
— Parece que me estou lembrando… Sim, sim, tenho uma vaga idéia…
E a pomba perguntou com mais firmeza: • — Não te lembras de que meu pai nos queria matar e fugimos à meia-noite, nos cavalos que corriam como o vento ?
— Estou-me lembrando… respondeu o pombo.
— Não te lembras, continuou a pomba, de que meu pai correu atrás de nós e os cavalos viraram num mar, os arreios num barco, tu num barqueiro e eu, numa tainha?
— Agora, sim, já me lembro, já me lembro! exclamou o pombo.
Enquanto os pombos conversavam, o príncipe ia também se lembrando de tudo quanto se havia passado entre ele e Branca Flor. Num certo momento, ergueu-se da cadeira e exclamou:
— Agora, eu também me lembro! Se ainda existe aquela que tantas vezes salvou a minha vida, apareça, pois é só a ela que amo!
Nesse instante, os pombos fugiram e apareceu Branca Flor, lindíssima, com um vestido de seda azul, coberto de diamantes. Tendo na mão uma coroa real, disse ao príncipe:
— Põe esta coroa de rei, porque meu pai, minha mãe e minhas irmãs já morreram e tu serás, daqui por diante, meu esposo e meu senhor.


O contrato de casamento com a outra princesa foi desfeito. E o novo rei, alegre e feliz, casou com a sua protetora.


Conto de Fada Português. Fonte : Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Cia Ed. Nacional

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segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A lenda do Negro d`água




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O negro d’água faz parte da vida de todos os pescadores do Centro Oeste. Crendo ou não crendo, todos eles já experimentaram um sustozinho,. certa vez que um boto apareceu com a sua cabeça de porco a soprar bem pertinho de onde estava a sua vara de anzol.H Em certa pescaria no curso baixo do rio Vermelho, uma vez, acompanhou-nos um "chauffer" chamado João, de sobressalência, para ajudar-nos a remendar câmara de ar no caminho, ou consertar as avarias dos pontilhões. Sempre ia por conta de serviços prováveis, sem pagar a contribuição para a cobertura das despesas. Era, pois, um companheiro para tudo.
Uma noite, quando já estávamos em boas redes, contando anedotas uns para os outros, e esperando chegar os últimos companheiros que subiram e desceram o rio, para dormirmos sossegados, escutamos um ruído do lado do rio, como se animal espantado tivesse corrido para nosso lado, derrubando mato. Era o João. Chegou sem poder falar, e horrorizado com o que vira naquele poço escuro que fica na curva do rio. Todos nos levantamos para socorrê-lo.
Que foi isso rapaz, perguntamos a um só tempo. Foi o negro d’água que brotou mesmo em baixo do meu pesqueiro, fazendo um rebojo e um barulhão, antes de erguer a metade do corpo fora d’água. E dizendo isto olhava para todos os lados, assombrado.
Você viu negro d’água coisa nenhuma, o que você viu foi um boto, que nós também vimos hoje à tarde, na curva do poço da piratinga. Os bolos do Araguaia sobem até aqui e gostam de se mostrar para os pescadores. E para provar que era isso mesmo, o nosso comparsa se meteu pelo caminho do poço indicado. Meia hora depois voltou confirmando que era boto mesmo, e se quiséssemos ver iríamos todos apreciar as evoluções que eles fazem quando vêem o homem.
Alguém "pediu a palavra" para contar um caso que havia acontecido há tempos, e dava o seu testemunho de homem de fé, qualidade que ninguém lhe negava. Todos aproximaram-se para ouvir a narrativa. Tratava-se do Tenente Pacheco, um excelente companheiro de pescaria e de caçada, profundo conhecedor daquela região e também do Estado todo.
— Uma noite, começou o oficial, estávamos pescando no rio Tapirapés, tributário do Araguaia, muito piscoso e com excelente caça; por essa razão preferido para as excursões dos que vão à Ilha, quando se formou, em baixo do nosso pesqueiro, um enorme rebôjo. Logo a seguir algo emergiu espadanando água, e fazendo um estranho barulho. Julguei que se tratasse de enorme sucuri, e pus de jeito minha espingarda de caça. Há, naquela região, muitas lagoas que são viveiros de sucuris. São elas que formam a cabeceira do rio. Não atirei no rumo; nunca fiz isso. Meti a lanterna elétrica em cima do rebôjo e avistei uma cara horrorosa, meio macaco, meio homem, cabelos lisos e bem pretos, cobrindo todo o rosto.
Os dentes eram alvos e pontiagudos, rindo para mim com ar de mofa. Os olhos, refulgindo pelo efeito da luz do farolete, eram duas tochas acesas. Nunca mais vi coisa igual. O índio Carajá que estava comigo já havia corrido espavorido. Gritou em português que não atirasse nele que ganharia maldição para o resto da minha vida.
Quando o bicho mergulhou, aproveitamos para dar o fora, e o índio pediu que fossemos embora, a seguir, porque não haveria mais um único peixe para nós. Este, é o sapo grande, que governa o rio e aparece para quem fala mal do Araguaia. Não fizemos objeção e até hoje nos recordamos daqueles olhos que pareciam farol de automóvel aumentados pela luz da lanterna.
Cada um, então, contou um caso de negro d’água e João nunca mais quis saber de participar de nossas pescarias, apesar de convidado com insistência, porque no pior servia para ajudar a empurrar o fordinho e remendar câmaras de ar.

Iamuricumás - As Mulheres sem o Seio Direito




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Em meio a uma grande festa, os índios haviam concluído a cerimônia de furar as orelhas de seus meninos, após a qual as crianças permanecem de resguardo. Segundo o costume, os homens da tribo foram à pesca para bem alimentá-las, enquanto as mulheres prosseguiram com o corte dos cabelos. Percebendo que os pais demoravam a chegar, o filho pajé decidiu ir ao rio, onde pôde observa-los batendo o timbó e pegando muitos peixes. Repentinamente, como por encanto, os índios transformaram-se em animais selvagens. Assustado o menino correu à tribo, relatando à sua mãe o que sucedera. Esta avisou as outras mulheres e, reunidas, preparavam-se para fugir dentro de poucos dias, pois os homens da pescaria agora representavam perigo! Pintaram-se e ornamentaram o corpo como se fossem homens.
Em seguida a esposa do pajé, à frente do grupo, entoou um canto, conduzindo-o até a floresta. Lá, untaram-se de veneno transformando-se no espírito Mamaé. Após cantarem e dançarem dois dias sem cessar, pediram a um velho que, pousando sobre as costas a casca de um tatu, seguisse à sua frente, abrindo-lhes passagem. O homem passou a agir como se fosse o próprio animal. As
mulheres, indiferentes aos homens da pescaria, seguiram o seu caminho, a cantar e a dançar, levando consigo mulheres de mais duas aldeias. Suas crianças foram lançadas ao rio, tornando-se peixes. Ainda hoje, as Iamuricumás viajam dia e noite, armadas de arco e flecha. Não possuem o seio direito, para melhor manejá-los. E assim, cantando e dançando, continuam a abrir caminhos pela floresta, seguindo eternamente o homem tatu.
Lenda indígena. Brasil.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A fonte do saqué


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Há muitos e muitos anos, no tempo em que a imperatriz Gensho reinava no Japão, morava em Mino, actual Gifu, um lavrador de poucos recursos. Apesar de ser um rapaz muito trabalhador, o que produzia em sua horta não era o suficiente para o sustento dele e de seu velho pai.
O pai também sempre foi pobre e, na idade avançada, pouco podia fazer para ajudar o filho na roça. O filho tratava o pai com carinho, sabia quanto ele tinha se sacrificado pela família. Sempre sonhava com uma maneira de dar algum conforto ao seu pai nos últimos anos de sua vida. O velho gostava muito de saquê (vinho de arroz), porém quase nunca sobrava dinheiro para o moço comprar-lhe uma garrafa.
Certa ocasião, após terminar seus trabalhos na horta de verduras, o rapaz subiu a montanha para cortar lenha. Como fazia de tempos em tempos, levaria a lenha para vender na cidade e conseguir algum dinheiro para comprar saquê para seu velho pai. Seu prazer era ver a cara de felicidade quando seu pai sorvia apetitosamente os goles de saquê.
O moço encheu o carregador de lenhas, colocou-o nas costas e começou a descer a montanha em direcção à cidade. Mas, como havia colocado muita lenha nas costas, veio cambaleando, devido ao grande peso, e acabou escorregando. Rolou morro abaixo até o fundo de um vale, onde ficou desmaiado durante horas.
Mais tarde, despertou todo dolorido e com muita sede. Nisso prestou atenção, pois ouvia o barulho de uma queda d’água. Saiu em direcção ao som e encontrou uma pequena fonte entre rochas e folhagens. Fazendo das mãos uma concha, bebeu a água da fonte e teve uma grande surpresa. Não era água e sim saquê!
Não acreditando no que estava acontecendo, tornou a beber. Realmente era saquê!
Imediatamente, o moço lembrou de seu pai e de quanta alegria ele teria saboreando aquele saquê. Então, encheu de saquê a cabaça, que sempre carregava na cintura para levar água ao seu trabalho.
Quando chegou em casa, seu velho pai estava preocupado com a demora.
– Aconteceu alguma coisa para você demorar tanto a voltar?
– É difícil de acreditar no que houve. Beba um pouco desse líquido enquanto eu conto o que aconteceu.
O pai experimentou o líquido da cabaça e comentou, feliz:
– Esse não é o saquê que você costuma comprar para mim. É muito mais gostoso!
Então, o filho revelou o acontecido no vale em seus mínimos detalhes. O pai, surpreso pela narrativa, comentou:
– Isso é uma graça divina. O deus do saquê agraciou você por ser um bom e dedicado filho. Vamos fazer a oferenda de uma taça de saquê no santuário e rezar a ele em agradecimento.
A partir desse dia, todas as tardes, quando o moço terminava seu trabalho na lavoura, ia buscar saquê na fonte. Voltava com a cabaça cheia para casa e fazia a alegria de seu pai, que o esperava ansiosamente. Assim, pai e filho viveram por muitos anos em perfeita harmonia.
A notícia daquele insólito acontecimento espalhou-se por todo o Japão e chegou aos ouvidos da imperatriz Gensho, que reinou de 715 a 724. Ela resolveu ir pessoalmente conhecer a fonte milagrosa de saquê. Ao experimentar a água da fonte, percebeu que se tratava simplesmente de água e nada mais. Conhecedora da história, ela entendeu que o milagre ocorria somente com aqueles pai e filho. Como o filho era dedicadíssimo ao pai, o deus do saquê fazia com que o pai sentisse o gosto de um delicioso saquê, sempre que bebia aquela água. Então, a imperatriz determinou que fosse construído um jardim em torno da fonte e a baptizou com o nome de Yorô, que significa “tratar bem de idosos”.
Assim, a imperatriz deu vários presentes ao moço, por tratar o pai com muito carinho. Desde então, nasceu o costume ainda vigente de a Casa Imperial Japonesa premiar as pessoas que tratam os idosos com respeito e carinho. E a Cachoeira Yorô é, ainda hoje, um ponto turístico muito visitado no Japão.

Lenda do Japão
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A árvore de Natal na casa de Cristo




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HAVIA num porão uma criança, um garotinho de seis anos de idade, ou menos ainda. Esse garotinho despertou certa manhã no porão úmido e frio. Tiritava, envolto nos seus pobres andrajos. Seu hálito formava, ao se exalar, uma espécie de vapor branco, e ele, sentado nnum canto em cima de um baú, por desfastio, ocupava-se em soprar esse vapor da boca, pelo prazer de o ver se evolar. Mas gostaria bem de comer alguma coisa. Diversas vezes, durante a manhã, tinha se aproximado do catre, onde num colchão de palha, chato como um pastelão, um saco sob a cabeça a guisa de almofada, jazia a mãe enferma. Como se encontrava ela nesse lugar? Provavelmente tinha vindo de outra cidade e subitamente caíra doente. A patroa que alugava o porão tinha sido presa na antevéspera pela polícia; os locatários tinham se dispersado para se aproveitarem também da festa, e o único tapeceiro que tinha ficado, cozinhava a bebedeira há dois dias: esse nem mesmo tinha esperado pela festa, No outro canto do quarto gemia uma velha octogenária, reumática, que tinha sido outrora babá, e que morria agora sozinha, soltando suspiros, queixas e imprecações contra o garoto, de maneira que ele tinha medo de se aproximar da velha. No corredor, ele tinha encontrado alguma coisa para beber, mas nem a menor migalha, e mais de dez vezes já tinha ido para junto da mãe para despertá-la. Por fim, a obscuridade lhe causou uma espécie de angústia: há muito tempo tinha caído a noite e ninguém acendia o fogo. Tendo apalapado o rosto de sua mãe, admirou-se muito: ela não se mexia mais e estava tão fria como as paredes. "Faz muito frio aqui", refletia ele, com a mão pousada inconscientemente no ombro da morta; depois, ao cabo de um instante, soprou os dedos para os esquentar, pegou o seu gorrinho abandonado no leito, e, sem fazer ruído, saiu do cômodo, tateando. Por vontade dele, teria saído mais cedo, se não tivesse medo de encontrar, no alto da escada, um canzarrão que latira o dia todo, na soleira das casas vizinhas. Mas o cão não se encontrava ali e já o menino ganhava a rua.
Senhor! que grande cidade! Nunca tinha visto nada parecido. De lá, de onde vinha, era tão negra a noite! Uma única lanterna para iluminar toda a rua. As casinhas de madeira são baixas e fechadas por detrás dos postigos; desde o cair da noite , não se encontrava mais ninguém fora, toda a gente permanece bem enfurnada em casa, e só os cães, as centenas e aos milhares, uivam, latem, durante a noite. Mas, em compensação, lá era tão quente; davam-lhe de comer... ao passo que aqui... Meu Deus! se ele ao menos tivesse alguma coisa para comer! E que desordem, que grande algazarra aqui, que claridade, quanta gente, cavalos, carruagens... e o frio! O nevoeiro gela em filamentos nas ventas dos cavalos que galopam; através da neve friável o ferro dos cascos tine contra a calçada: toda a gente se apressa e se acotovela e, meu Deus! como gostaria de comer qualquer coisa, e como de repente seus dedinhos lhe doem! Um agente de polícia passa ao lado da criança e se volta, para fingir que não a vê.
Eis uma rua ainda: como é larga! Esmagá-lo-ão ali, seguramente, como todo o mundo grita, vai, vem e corre, e como está claro, como é claro! Que é aquilo ali? Oh! a grande vidraça e atrás dessa vidraça um quarto, com uma árvore dentro que sobe até o teto; é um pinheiro, uma árvore de Natal onde há muitas luzes, muitos objetos pequenos, frutas douradas, e em torno bonecas e cavalinhos. No quarto há crianças que correm; estão bem vestidas e muito limpas, riem e brincam, comem e bebem algumas coisa. Eis ali uma menina que se pôs a dançar com um rapazinho. Que bonita menina! Ouve-se música através da vidraça. A criança olha surpreendida; logo sorrí, enquanto os dedos de seus pobres pezinhos doem e os das mãos se tornaram tão roxos, que não podem mais se dobrar nem mesmo se mover. D e repente o menino se lembrou que seus dedos doem muito; põe-se a chorar, corre para mais longe e eis que através de uma vidraça a vista ainda um quarto, neste, outra árvore ainda, mas sobre as mesas há bolos de todas as qualidade, bolos de amêndoa, vermelhos, amarelos, e eis que sentadas quatro formosas damas que distribuem bolos a todos que se apresentem. A cada instante, a porta se abre para um senhor que entra. N a ponta dos pés, o menino se aproximou, abriu a porta e bruscamente entrou. Hu! com que gritos e gestos o repeliram! Uma senhora se aproximou logo, meteu-lhe furtivamente um tostão na mão, abrindo-lhe ela mesma a porta da rua. Como ele teve medo! Mas o tostão rolou pelos degraus com um tilintar sonoro: ele não tinha podido fechar os dedinhos para segurá-lo. O menino apertou o passo para ir mais longe - nem ele mesmo sabe aonde. Tem vontade de chorar; mas desta vez tem emdo e corre. Corre soprando os dedos. Uma angústia o domina, por se sentir tão só e abandonado, quando de repente: Senhor! Que poderá ser ainda? Uma multidão que se detém, que olha com curiosidade. Em uma janela, atrás da vidraça, há três grandes bonecas com vestidos vermelhos e verdes e que parecem vivas! Um velho sentado parece tocar violino, dois outros estão empé junto dele, e tocam violinos menores, e todos meneiam em cadência as delicadas cabeças, olham uns para os outros, enquanto seus lábios se mexem; flama, devem falar - de verdade - e se não se ouve nada é por causa da vidraç. O meninojulgou, a princípio que eram pessoas vivas, e, quando finalmente compreendeu que eram bonecas, pôs-se de súbito a rir. N unca tinha visto bocecas assim, nem mesmo suspeitava que existissem assim! Certamente, desejaria chorar, mas é tão cômico, tão engraçado ver essas bonecas! De repente pareceu-lhe que alguém o puxava por trás. Um moleque grande, malvado, que estava ao lado del,deu-lhe de repernte um tpa na cabeça, derrubou o seu gorrinho e passou-lhe uma rasteira. O menino rolou pelo chão, algumas pessoas se puseram a gritar: aterrorizado, ele se levantou para fugir depressa e correu com quantas pernas tinha, sem saber para onde. Atravessou o portão de uma cocheira, penetrou num pátio e sentou-se atrás de um monte de lenha: "Aqui, pelo menos, reflete ele, não me acharão: está muito escurro".

Sentou-se e se ncolheu, sem poder etomar fôlego, de tanto medo, e bruscramente, pois foi muito rápido, sentiu um grande bem-estar, as mãos e pés tinham-lhe deixado de doer, e sntia calor, muito calor, como ao pé de um fogão. Subitamente se mexeu: um pouco mais e ia dormir! Como seria bom dormir nesse lugar! "Mais um instante e irei ver outra vez as bonecas", pensou o menino, que sorriu a sua lembrança: "podia jurar que eram vivas!"... E de repente pareceu-lhe que sua mãe lhe cantava uma canção. "mamãe, vou dormir; ah! como é bom dormir aqui!"

- Vem comigo, vamos ver a árvore de Natal, meu menino - murmurou repentinamente uma voz cheia de doçura.

Ele pensava que era ainda a mamãe, mas não, não era ela. Quem, então, acabava de o chamar? Não vê quem, mas alguém está inclinado sobre ele e o abraça no escuro; estendeu-lhe os braços e... e logo...: - Que claridade! A maravilhosa árvore de Natal! E agora não é um pinheiro, nunca tinha visto árvores semelhantes! Onde se encontra então nesse momento? Tudo brilha, tudo resplandece, e em torno, por toda a parte, bonecas - mas não, são meninos e meninas, só que muito luminosos! Todos o cercam, como nas brincadeiras de roda, abraçam-no em seu vôo, tomam-no, levam-no com eles, e ele mesmo voa e vê: distingue sua mã e lhe sorri com ar feliz.

- Mamãe! Mamãe! Como é bom aqui, mamãe! - exclama a criança. De novo abraça seus companheirinhos, e gostaria de lhes contar bem epressa a histórias das bonecas atrás da vidraça... - Quem são vocês então, meninos? E vocês meninas, quem são? - pergunta ele sorrindo-lhes e mandando-lhes beijos.

- Isto... é a árvore de Natal do Cristo - respondem-lhe.

- Todos os anos, neste dia, há, na casa de Cristo, uma árvore de Natal, para os meninos que não tiveram sua árvore na terra...

E soube assim que todos esses meninos e meninas tinham sido outrora crianças como ele, mas alguns tinham morrido, gelado nos cestos, onde tinham sido abandonados nos degraus das escadas dos palácios de Petersburgo; outros tinham morrido, junto as amas de algum dispensário finlandês; uns dobre o seio exaurido de suas mães, no tempo em que grassava, cruel, a fome na Samara; outros ainda, sufocados pelo ar mefítico de um vagão de terceira classe. Mas todos estão aqui neste momento, todos são agora como anjos, todos junto ao Cristo, e Ele, no meio das crianças, estende as mãos para os abençoar e as pobres mães... E as mãe dessas crianças estão ali, todas, num lugar separado, e choram; cada uma reconhece seu filhinho ou filhinha que acorrem voando para elas, abraçam-nas, e com suas mãozinhas enxugam-lhes as lágrimas, recomendando-lhes que não chorem amsi, que eles estão muito bem aqui...

E nesse lugar, pela manhã, os porteiros descobriaram o cadaverzinho de uma criança gelada junto de um monte de lenha. Procurou-se a mãe... Estava morta um pouco adiante; os dois se encontraram no céu, junto ao bom Deus.

Dostoievski, Fedror Mikhailovitch, 1821-1881. Contos de Dostoievski / introdução, seleção e tradução de Ruth Guimarães. - - 2. ed. -- São Paulo : Cultrix, 1985. pp 127 - 130.

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A pequena vendedora de fósforos




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Fazia um frio terrível; caía a neve e estava quase escuro; a noite descia: a última noite do ano.
Em meio ao frio e à escuridão uma pobre menininha, de pés no chão e cabeça descoberta, caminhava pelas ruas.
Quando saiu de casa trazia chinelos; mas de nada adiantavam, eram chinelos tão grandes para seus pequenos pézinhos, eram os antigos chinelos de sua mãe.
A menininha os perdera quando escorregara na estrada, onde duas carruagens passaram terrivelmente depressa, sacolejando.
Um dos chinelos não mais foi encontrado, e um menino se apoderara do outro e fugira correndo.
Depois disso a menininha caminhou de pés nus - já vermelhos e roxos de frio.
Dentro de um velho avental carregava alguns fósforos, e um feixinho deles na mão.
Ninguém lhe comprara nenhum naquele dia, e ela não ganhara sequer um níquel.
Tremendo de frio e fome, lá ia quase de rastos a pobre menina, verdadeira imagem da miséria!
Os flocos de neve lhe cobriam os longos cabelos, que lhe caíam sobre o pescoço em lindos cachos; mas agora ela não pensava nisso.
Luzes brilhavam em todas as janelas, e enchia o ar um delicioso cheiro de ganso assado, pois era véspera de Ano-Novo.
Sim: nisso ela pensava!
Numa esquina formada por duas casas, uma das quais avançava mais que a outra, a menininha ficou sentada; levantara os pés, mas sentia um frio ainda maior.
Não ousava voltar para casa sem vender sequer um fósforo e, portanto sem levar um único tostão.
O pai naturalmente a espancaria e, além disso, em casa fazia frio, pois nada tinham como abrigo, exceto um telhado onde o vento assobiava através das frinchas maiores, tapadas com palha e trapos.
Suas mãozinhas estavam duras de frio.
Ah! bem que um fósforo lhe faria bem, se ela pudesse tirar só um do embrulho, riscá-lo na parede e aquecer as mãos à sua luz!
Tirou um: trec! O fósforo lançou faíscas, acendeu-se.
Era uma cálida chama luminosa; parecia uma vela pequenina quando ela o abrigou na mão em concha...
Que luz maravilhosa!
Com aquela chama acesa a menininha imaginava que estava sentada diante de um grande fogão polido, com lustrosa base de cobre, assim como a coifa.
Como o fogo ardia! Como era confortável!
Mas a pequenina chama se apagou, o fogão desapareceu, e ficaram-lhe na mão apenas os restos do fósforo queimado.
Riscou um segundo fósforo.
Ele ardeu, e quando a sua luz caiu em cheio na parede ela se tornou transparente como um véu de gaze, e a menininha pôde enxergar a sala do outro lado. Na mesa se estendia uma toalha branca como a neve e sobre ela havia um brilhante serviço de jantar. O ganso assado fumegava maravilhosamente, recheado de maçãs e ameixas pretas. Ainda mais maravilhoso era ver o ganso saltar da travessa e sair bamboleando em sua direção, com a faca e o garfo espetados no peito!
Então o fósforo se apagou, deixando à sua frente apenas a parede áspera, úmida e fria.
Acendeu outro fósforo, e se viu sentada debaixo de uma linda árvore de Natal. Era maior e mais enfeitada do que a árvore que tinha visto pela porta de vidro do rico negociante. Milhares de velas ardiam nos verdes ramos, e cartões coloridos, iguais aos que se vêem nas papelarias, estavam voltados para ela. A menininha espichou a mão para os cartões, mas nisso o fósforo apagou-se. As luzes do Natal subiam mais altas. Ela as via como se fossem estrelas no céu: uma delas caiu, formando um longo rastilho de fogo.
"Alguém está morrendo", pensou a menininha, pois sua vovozinha, a única pessoa que amara e que agora estava morta, lhe dissera que quando uma estrela cala, uma alma subia para Deus.
Ela riscou outro fósforo na parede; ele se acendeu e, à sua luz, a avozinha da menina apareceu clara e luminosa, muito linda e terna.
- Vovó! - exclamou a criança.
- Oh! leva-me contigo!
Sei que desaparecerás quando o fósforo se apagar!
Dissipar-te-ás, como as cálidas chamas do fogo, a comida fumegante e a grande e maravilhosa árvore de Natal!
E rapidamente acendeu todo o feixe de fósforos, pois queria reter diante da vista sua querida vovó. E os fósforos brilhavam com tanto fulgor que iluminavam mais que a luz do dia. Sua avó nunca lhe parecera grande e tão bela. Tornou a menininha nos braços, e ambas voaram em luminosidade e alegria acima da terra, subindo cada vez mais alto para onde não havia frio nem fome nem preocupações - subindo para Deus.
Mas na esquina das duas casas, encostada na parede, ficou sentada a pobre menininha de rosadas faces e boca sorridente, que a morte enregelara na derradeira noite do ano velho.
O sol do novo ano se levantou sobre um pequeno cadáver.
A criança lá ficou, paralisada, um feixe inteiro de fósforos queimados. - Queria aquecer-se - diziam os passantes.
Porém, ninguém imaginava como era belo o que estavam vendo, nem a glória para onde ela se fora com a avó e a felicidade que sentia no dia do Ano¬Novo.

Conto de Hans Christian Andersen.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Duas Cabras Numa Ponte



Uma ponte estreita ligava duas montanhas. Em cada uma das montanhas vivia uma cabra. Dias havia em que a cabra da montanha ocidental atravessava a ponte para ir pastar na montanha oriental. Dias havia em que a cabra da montanha oriental atravessava a ponte para ir pastar na montanha ocidental. Mas, um dia, as cabras começaram a atravessar a ponte ao mesmo tempo.
Encontraram-se no meio da ponte. Nenhuma queria ceder passagem à outra.
— Sai da frente! — gritou a Cabra Ocidental. — Estou a atravessar a ponte
— Sai tu da frente! — berrou a Cabra Oriental. — Quem está a atravessar sou eu!
Como nenhuma delas queria recuar e nenhuma delas podia avançar, ali ficaram, enfurecidas, durante algum tempo. Finalmente, entrelaçaram os chifres e começaram a empurrar. Eram tão semelhantes em força que apenas conseguiram empurrar-se uma à outra da ponte abaixo. Molhadas e furiosas, saíram do rio e subiram a encosta, a caminho de casa, cada uma murmurando para si: “Vejam só o que a teimosia dela provocou.”

Fábula Russa - registrada por Margaret Read MacDonald: Peace Tales

Pauzinhos de Marfim


Imagem do Gloogle
Na China antiga, um jovem príncipe resolveu mandar fazer, de um pedaço de marfim muito valioso, um par de pauzinhos. Quando isto chegou ao conhecimento do rei seu pai, que era um homem muito sensato, este foi ter com ele e explicou-lhe:
— Não deves fazer isso, porque esse luxuoso par de pauzinhos pode levar-te à perdição!
O jovem príncipe ficou confuso. Não sabia se o pai falava a sério ou se estava a brincar. Mas o pai continuou:
— Quando tiveres os teus paus de marfim, verás que não ligam com a loiça de barro que usamos à mesa. Vais precisar de copos e tigelas de jade. Ora, as tigelas de jade e os paus de marfim não admitem iguarias grosseiras. Precisarás de cauda de elefante e fígado de leopardo. E quem tiver comido cauda de elefante e fígado de leopardo não vai contentar-se com vestes de cânhamo e uma casa simples e austera.
Irás precisar de fatos de seda e palácios sumptuosos. Ora, para teres tudo isto, vais arruinar as finanças do reino e os teus desejos nunca terão fim. Depressa cairás numa vida de luxo e de despesas sem limite. A desgraça irá atingir os nossos camponeses, e o reino afundar-se-á na ruína e desolação… Porque os teus paus de marfim fazem lembrar a estreita fissura no muro de uma fortaleza, que acaba por destruir toda a construção.
O jovem príncipe esqueceu o seu capricho e mais tarde veio a ser um monarca reputado pela sua grande sensatez.
Parábola Chinesa por Han Fei.

Clarisse Lispector


"Antes de julgar a minha vida ou o meu caráter, calce os meus sapatos e percorra o caminho que eu percorrí, viva as minhas tristezas, as minhas dúvidas e minhas alegrias. Percorra os anos que eu percorrí, tropece onde eu tropecei e levante-se assim como eu fiz. E então, só aí poderás julgar. Cada um tem a sua própria história. Não compare a sua vida com a dos outros. Você não sabe como foi o caminho que eles tiveram que trilhar na vida".

Imagem do Google

As Lágrimas de Potira


Muito antes de os brancos atingirem os sertões de Goiás, em busca de pedras preciosas, existiam por aquelas partes do Brasil muitas tribos indígenas, vivendo em paz ou em guerra e segundo suas crenças e hábitos.
Numa dessas tribos, que por muito tempo manteve a harmonia com seus vizinhos, viviam Potira, menina contemplada por Tupã com a formosura das flores, e Itagibá, jovem forte e valente.
Era costume na tribo as mulheres se casarem cedo e os homens assim que se tornassem guerreiros.
Quando Potira chegou à idade do casamento, Itagibá adquiriu sua condição de guerreiro. Não havia como negar que se amavam e que tinham escolhido um ao outro. Embora outros jovens quisessem o amor da indiazinha, nenhum ainda possuía a condição exigida para as bodas, de modo que não houve disputa, e Potira e Itagibá se uniram com muita festa.
Corria o tempo tranqüilamente, sem que nada perturbasse a vida do apaixonado casal. Os curtos períodos de separação, quando Itagibá saía com os demais para caçar, tornavam os dois ainda mais unidos. Era admirável a alegria do reencontro!
Um dia, no entanto, o território da tribo foi invadido por vizinhos cobiçosos, devido à abundante caça que ali havia, e Itagibá teve que partir com os outros homens para a guerra.
Potira ficou contemplando as canoas que desciam rio abaixo, levando sua gente em armas, sem saber exatamente o que sentia, além da tristeza de se separar de seu amado por um tempo não previsto. Não chorou como as mulheres mais velhas, talvez porque nunca houvesse visto ou vivido o que sucede numa guerra.
Mas todas as tardes ia sentar-se à beira do rio, numa espera paciente e calma. Alheia aos afazeres de suas irmãs e à algazarra constante das crianças, ficava atenta, querendo ouvir o som de um remo batendo na água e ver uma canoa despontar na curva do rio, trazendo de volta seu amado. Somente retornava à taba quando o sol se punha e depois de olhar uma última vez, tentando distinguir no entardecer o perfil de Itagibá.
Foram muitas tardes iguais, com a dor da saudade aumentando pouco a pouco. Até que o canto da araponga ressoou na floresta, desta vez não para anunciar a chuva mas para prenunciar que Itagibá não voltaria, pois tinha morrido na batalha.
E pela primeira vez Potira chorou. Sem dizer palavra, como não haveria de fazer nunca mais, ficou à beira do rio para o resto de sua vida, soluçando tristemente. E as lágrimas que desciam pelo seu rosto sem cessar foram-se tornando sólidas e brilhantes no ar, antes de submergir na água e bater no cascalho do fundo.
Dizem que Tupã, condoído com tanto sofrimento, transformou suas lágrimas em diamantes, para perpetuar a lembrança daquele amor.


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Lenda indígena do Brasil.


As Perguntas de Dom Lobo


Um moço trabalhador e direito morava com sua mãe, labutando pela vida com muita dificuldade. Uma feita disse:
- Minha mãe! Não podemos pssar o resto da vida nesta miséria, quase sem ter o que comer. Fique minha mãe com o roçado, as cabeças de ovelhas, e bote sua benção que vou pelo mundo ver o que posso fazer.
A mãe abençoou-o e o rapaz foi-se embora pelo mundo. Onde chegava, trabalhava uma semana e ia para diante. Tempos depois chegou a um reinado bonito mas sem gente. As ruas limpas de povo, as casas fechadas, tudo calado, sem um choro de menino ou voz de homem, parecia um descampado. O rapaz procurou a casinha de um velho e pediu agasalho. O velho recebeu-o muito bem e deu de cear. Quando estavam comendo o rapaz perguntou por que o reinado era assim triste. O velho explicou que, por mal dos pecados do povo, aparecera ali um homem encantado, de nome Dom Lobo, dono de um palácio, que botara para obrigação comer o coração de uma pessoa todo dia. Pega a criatura e faz três perguntas. Se a criatura responder, pode fazer outras três a Dom Lobo, mas não nasceu ainda esse cristão para adivinhar as perguntas de Dom Lobo. Não responde e Dom Lobo mata e come o coração dos pobres. Por isso é que toda a gente vivia escondida e tremendo de medo.
O rapaz dormiu e na manhã do outro dia saiu para a rua perguntando onde era o palácio de Dom Lobo. O povo ficava espantado com o atrevimento dele mas ensinava. O moço chegou perto de umas pedras grandes e lá em cima estava o palácio que era um monarca de grande, por um portão de ferro. O rapaz tocou-se para o palácio com coragem. Chegou, bateu, e as portas se abriram por si mesmo. O moço enfiou-se por dentro, sobe aqui, desce ali, até que chegou num salão que era uma beleza. Aí apareceu Dom Lobo, um homem alto, forte como um touro, todo cabeludo, com olhos de gato e uns dentes de onça-tigre. Quando viu o rapaz deu uma gargalhada de estrondar o mundo. Falou, com voz grossa de bicho encantado, mandando o rapaz sentar. Depois perguntou:
- Que é que tanto mais velho mais forte fica?
- É o vinho, - respondeu o moço.
- Que é que tanto se tira mais fica?
- Água do mar!
- Qual é o lugar onde todos vão e ninguém quer ir?
- O cemitério!
- Acertou, cabra danado! Faça as três perguntas que quiser!
- Quem é que nasceu de uma virgem, batizou-se num rio e morreu numa cruz?
O homão rangeu os dentes como um desesperado porque não podia dizer o santo nome de Jesus Cristo. Deu um estouro que estremeceu tudo e subiu aquela bola de fumaça cobrindo o mundo. Quando clareou, o rapaz estava em cima das pedras. O palácio e Dom Lobo tinham se sumido. O povo estava todo reunido batendo palmas e levou o moço em charola para o rei. Deram uma casa com todos os preparos, fazenda de gado, muito dinheiro. O rapaz mandou uma carrugem buscar sua mãe e viveu muito bem e satisfeito.
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Fonte: Luís da Câmara Cascudo: Contos tradicionais do Brasil

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

A Hiena e o Gala-gala

-
A Hiena estabeleceu relações de amizade com o Gala-Gala.
Um dia, a Hiena preparou cerveja e foi chamar o seu amigo lagarto:
__ Vamos beber cerveja.
Foram. O Gala-Gala embriagou-se. Perguntou à sua amiga Hiena:
__ Amiga, tu que gostas tanto de carne, se me encontrares morto no caminho, és capaz de me comer?
__Não, isso nunca. Eu quero ser tua amiga.
O lagarto embriagou-se muito e despediu-se:
__ Amiga, vou para minha casa.
_Está bem.
O Gala-Gala partiu. A meio do caminho, deitou-se a dormir. A Hiena pensou: "O meu amigo bebeu muito. É melhor ir ver se ele chega bem a casa".
Encontrou-o no caminho, deitado. Levantou-o:
__É sono, amigo? É embriaguez?
Segurou-o, virando-o. O lagarto calou-se, sem respirar. A Hiena agarrou nele e atirou-o para o mato. Depois saiu do caminho, foi ver onde é que o Gala-Gala tinha caído e encontrou-o.
__O meu amigo morreu.
Cortou lenha, fez fogo, e agarrou no lagarto para o assar na fogueira. O Gala-Gala, sentindo o calor do fogo, bateu com a cauda nos olhos da Hiena e subiu, depressa, para uma árvore.
A amizade entre eles acabou ali. O Gala-Gala passou a viver nas árvores e a Hiena continuou a andar no chão, para nunca mais se encontrarem.
Fábula Africana.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Uma Lenda Árabe Sobre o Destino




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"Dêem graças em todas as circunstâncias, pois esta é a vontade de Deus

para vocês em Cristo Jesus"



I Tessalonicenses 5.18

Conta a lenda, que um jovem chegou à beira de um oásis, junto a um povoado e, aproximando-se de um ancião, perguntou-lhe:

"Que tipo de pessoas vivem neste lugar?"

O ancião, por sua vez, perguntou:

"Que tipo de pessoa vive no lugar de onde você vem?"

Respondeu-lhe o rapaz:

"Oh! Um grupo de egoístas e malvados. Estou satisfeito de haver saído de lá.”

A isso o ancião replicou "A mesma coisa você haverá de encontrar por aqui."

No mesmo dia, um outro jovem se acercou do oásis para beber água e vendo o ancião perguntou-lhe:

"Que tipo de pessoas vive por aqui?"

O ancião respondeu com a mesma pergunta:

"Que tipo de pessoas vive no lugar de onde você vem?"

E o rapaz respondeu:

"Um magnífico grupo de pessoas, amigas, honestas, hospitaleiras. Fiquei muito triste por ter que deixá-las".

O ancião respondeu com a mesma pergunta:

Respondeu o ancião:

"O mesmo encontrará por aqui".

Um homem que havia escutado as duas conversas, perguntou ao velho:

"Como é possível dar respostas tão diferentes à mesma pergunta?"

E o ancião respondeu:

"Cada um carrega no seu coração o meio em que vive. Aquele que nada encontrou de bom nos lugares por onde passou, não poderá encontrar outra coisa por aqui. Aquele que encontrou amigos ali, também os encontrará aqui."

Somos todos peregrinos!

Cada um encontra na vida exatamente o que traz dentro de si.

"Nada na vida tem sentido se eu não tiver amor!"

Desconheço o Autor

Por que os cães se cheiram uns aos outros?


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Quando os cães governavam-se a si mesmos, havia dois grandes reinos chefiados por poderosos cães. Cada um deles gabava-se de ter mais súditos e riquezas do que o outro. Embora fossem adversários, viviam em paz, e essa trégua só foi quebrada no dia em que um deles se apaixonou pela irmã do outro chefe. Perdido de amores, ele se dirigiu pessoalmente aos domínios do rival:

– Meu nobre amigo – disse o cão apaixonado -, fiz essa longa e cansativa viagem até o teu reino para pedir a mão da tua irmã em casamento.

– Com a minha irmã! – respondeu aos gritos o outro cão –, não quero que você case com ela de jeito nenhum.

Humilhado com a resposta, o cão desdenhado voltou furioso para sua corte. Assim que chegou, reuniu o Conselho de Guerra e mandou chamar um fiel servidor para que levasse a seguinte mensagem ao seu inimigo:

– Diga-lhe que como me recusou a mão da irmã, que se prepare para lutar, pois dentro de poucos dias irei marchar com meu exército para destruí-lo.

O mensageiro ouviu tudo bem direitinho e já ia partindo quando um dos conselheiros reais o chamou:

– Você não pode sair assim todo sujo – disse o conselheiro real. – A sua cara e a cauda estão imundas.

Os criados deram um longo banho no mensageiro e perfumaram a cauda dele com os melhores perfumes do reino, pois de acordo com os costumes daquele tempo, um mensageiro tinha que se preparar adequadamente para executar uma tarefa.

No caminho, o mensageiro achou-se tão cheiroso e galante que começou a procurar esposas para ele mesmo, deixando de lado a missão que o chefe havia lhe confiado.

É por isso que os cães andam sempre atrás uns dos outros, cheirando as suas caudas, para verem se acham o mensageiro perdido.

Lenda africana. Recolhido Por Rogério Andrade Barbosa
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terça-feira, 1 de novembro de 2011

Pele de Foca, Pele da Alma


Mulheres Que Correm Com Os Lobos
Mitos e Histórias dos Arquétipos da Mulher Selvagem


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Houve um tempo, que passou para sempre e que irá logo estar de volta, em que um dia corre atrás do outro, de céus brancos, neve branca e todos os minúsculos pontinhos escuros ao longe são pessoas, cães, ou ursos.
Nesse lugar, nada viceja gratuitamente. Os ventos são fortes, e as pessoas se acostumaram a trazer consigo seus parkas, mamleks e botas, já de propósito. Nesse lugar, as palavras se congelam ao ar livre, e frases inteiras precisam ser arrancadas dos lábios de quem fala e descongeladas junto ao fogo para que as pessoas possam ver o que foi dito. Nesse lugar, as pessoas vivem na basta cabeleira da velha Annuluk, a avó, a velha feiticeira que é a própria Terra. E foi nessa terra que vivia um homem, um homem tão solitário que, com o passar dos anos, as lágrimas haviam aberto fundos abismos no seu rosto.
Ele tentava sorrir e ser feliz. Ele caçava. Colocava armadilhas e dormia bem. No entanto, sentia falta de companhia. Às vezes, lá nos bancos de areia, no seu caiaque, quando uma foca se aproximava, ele se lembrava de antigas histórias sobre como as focas haviam um dia sido seres humanos e como o único remanescente daqueles tempos estava nos seus olhos, que eram capazes de retratar expressões, aquelas expressões sábias, selvagens e amorosas. Às vezes ele sentia nessas ocasiões uma solidão tão profunda que as lágrimas escorriam pelas fendas já tão gastas no seu rosto.
Uma noite ele caçou até depois de escurecer, mas sem conseguir nada. Quando a lua subiu no céu e as banquisas de gelo começaram a reluzir, ele chegou a uma enorme rocha malhada no mar e seu olhar aguçado pareceu distinguir movimentos extremamente graciosos sobre a velha rocha.
Ele remou lentamente e com os remos bem fundos para se aproximar, e lá no alto da rocha imponente dançava um pequeno grupo de mulheres, nuas como no primeiro dia em que se deitaram sobre o ventre da mãe. Ora, ele era um homem solitário, sem nenhum amigo humano a não ser na lembrança — e ele ficou ali olhando. As mulheres pareciam seres feitos de leite da lua, e sua pele cintilava com gotículas prateadas como as do salmão na primavera. Seus pés e mãos eram longos e graciosos.
Elas eram tão lindas que o homem ficou sentado, atordoado, no barco, e a água nele batia, levando-o cada vez mais para junto da rocha. Ele ouvia o riso magnífico das mulheres... pelo menos elas pareciam rir, ou seria a água que ria às margens da rocha? O homem estava confuso, por se sentir tão deslumbrado. Entretanto, dispersou-se a solidão que lhe pesava no peito como couro molhado e, quase sem pensar, como se fosse seu destino, ele saltou para a rocha e roubou uma das peles de foca ali jogadas. Ele se escondeu por trás de uma saliência rochosa e ocultou a pele de foca dentro do seu qutnquq, parka.
Logo, uma das mulheres gritou numa voz que era a mais linda que ele já ouvira... como as baleias chamando na madrugada... ou não, talvez fosse mais parecida com os lobinhos recém-nascidos caindo aos tombos na primavera... ou então, não, era algo melhor do que isso, mas não fazia diferença porque... o que as mulheres estavam fazendo agora?
Ora, elas estavam vestindo suas peles de foca, e uma a uma as mulheres-focas deslizavam para o mar, gritando e ganindo de felicidade. Com exceção de uma. A mais alta delas procurava por toda a parte a sua pele de foca, mas não a encontrava em lugar nenhum. O homem sentiu-se estimulado — pelo quê, ele não sabia. Ele saiu de trás da rocha, dirigindo um apelo a ela.
— Mulher... case-se... comigo. Sou um... homem... sozinho.
— Ah — respondeu ela. — Eu não posso me casar, porque sou de outra natureza, pertenço aos que vivem temeqvanek, lá embaixo.
— Case-se... comigo — insistiu o homem. — Em sete verões, prometo lhe devolver sua pele de foca, e você poderá ficar ou ir embora, como preferir.
A jovem mulher-foca ficou olhando muito tempo o rosto do homem com olhos que, se não fossem suas origens verdadeiras, pareciam humanos.
— Irei com você — disse ela, relutante. — Dentro de sete verões, tomaremos a decisão.
E assim, com o tempo, tiveram um filho a quem deram o nome de Ooruk. A criança era ágil e gorda. No inverno, a mãe contava a Ooruk histórias de seres que viviam no fundo do mar enquanto o pai esculpia um urso em pedra branca com uma longa faca. Quando a mãe levava o pequeno Ooruk para a cama, ela lhe mostrava pelo buraco da ventilação as nuvens e todas as suas formas. Só que, em vez de falar das formas do corvo, do urso e do lobo, ela contava histórias da vaca-marinha, da baleia, da foca e do salmão... pois eram essas as criaturas que ela conhecia.
No entanto, à medida que o tempo foi passando, sua pele começou a ressecar. A princípio, ela escamou e depois passou a rachar. A pele das suas pálpebras começou a descascar. O cabelo da sua cabeça, a cair no chão. Ela se tornou naluaq, do branco mais pálido. Suas formas arredondadas começaram a definhar. Ela procurava esconder seu caminhar claudicante. A cada dia seus olhos, sem que ela quisesse, iam ficando mais opacos. Ela passou a estender a mão para tatear porque sua vista estava escurecida.
E as coisas iam dessa forma até uma noite em que o menino Ooruk despertou ouvindo gritos e se sentou ereto nas cobertas de pele. Ele ouviu um rugido de urso, que era seu pai repreendendo a mãe. Ouviu, também, um grito como o da prata que ressoa com uma pedra, que era sua mãe.
— Você escondeu minha pele de foca há sete longos anos, e agora está chegando o oitavo inverno. Quero que me seja devolvido aquilo de que sou feita — gritou a mulher-foca.
— E você, mulher — vociferou o marido. — Você me deixará se eu lhe der a pele.
— Não sei o que eu faria. Só sei que preciso daquilo a que pertenço.
— E você me deixaria sem mulher, e a seu filho, sem mãe. Você é má.
Com essas palavras, o marido afastou com violência a pele da porta e desapareceu noite adentro. O menino adorava a mãe. Ele tinha medo de perdê-la e, por isso, chorou até dormir... só para ser acordado pelo vento. Um vento estranho... que parecia chamá-lo.
— Oooruk, Ooorukkkk.
Ele pulou da cama, tão apressado que vestiu o parka de cabeça para baixo e só puxou os mukluks até a metade. Ao ouvir seu nome chamado insistentemente, ele saiu correndo na noite estrelada.
— Ooooooorukkk.
O menino correu até o penhasco de onde se via a água e lá, bem longe no mar encapelado, estava uma foca prateada, imensa e peluda... Sua cabeça era enorme. Seus bigodes lhe caíam até o peito. Seus olhos eram de um amarelo forte.
— Ooooooorukkk.
O menino foi descendo o penhasco de qualquer jeito e bem junto à base tropeçou numa pedra, não, numa trouxa, que rolou de uma fenda na rocha. O cabelo do menino fustigava seu rosto como milhares de açoites de gelo.
— Ooooooorukkk.
O menino abriu a trouxa e a sacudiu: era a pele de foca da sua mãe. Ah, ele sentia seu perfume na pele inteira. E, enquanto mergulhava o rosto na pele de foca e respirava seu cheiro, a alma da mãe penetrava nele como um súbito vento de verão.
— Ah — exclamou ele com alegria e dor, e levou novamente a pele ao rosto.
Mais uma vez, a alma da mãe passou pela dele. — Ah!!! — gritou ele de novo, porque estava sendo impregnado pelo amor infindo da mãe.
E a velha foca prateada ao longe mergulhou lentamente para debaixo d'água.
O menino escalou o penhasco, voltou correndo para casa com a pele de foca voando atrás dele e se jogou para dentro de casa. Sua mãe contemplou o menino e a pele e fechou os olhos, cheia de gratidão pelo fato de os dois estarem em segurança. Ela começou a vestir sua pele de foca.
— Ah, mãe, não! — gritou o menino. Ela apanhou o menino, ajeitou-o debaixo do braço e saiu correndo aos trambolhões na direção do mar revolto.
— Ai, mamãe, não me abandone! — implorava Ooruk. E logo dava para se ver que ela queria ficar com o filho, queria mesmo, mas alguma coisa a chamava, algo que era mais velho do que ele, mais velho do que ela, mais antigo que o próprio tempo.
— Ah, mamãe, não, não, não — choramingou a criança. Ela se voltou para ele com uma expressão de profundo amor nos olhos. Segurou o rosto do menino nas mãos e soprou para dentro dos pulmões do menino seu doce alento, uma vez, duas, três vezes. Depois, com o menino debaixo do braço como uma carga preciosa, ela mergulhou bem fundo no mar e cada vez mais fundo. A mulher-foca e seu filho não tinham dificuldade para respirar debaixo d'água.
Eles nadaram muito para o fundo até que entraram no abrigo subaquático das focas, onde todos os tipos de criaturas estavam jantando e cantando, dançando e conversando, e a enorme foca prateada que havia chamado Ooruk de dentro do mar da noite abraçou o menino e o chamou de neto.
— Como você está se saindo lá em cima, minha filha?

— perguntou a grande foca prateada.
A mulher-foca afastou o olhar e respondeu.
— Magoei um ser humano... um homem que deu tudo para que eu ficasse com ele. Mas não posso voltar para ele, porque, se o fizer, estarei me transformando em prisioneira.
— E o menino? — perguntou a velha foca. — Meu neto?

— Ele estava tão orgulhoso que sua voz tremia.
— Ele tem de voltar, meu pai. Ele não pode ficar aqui

Ainda não chegou o seu tempo de ficar conosco. — Ela chorou. E juntos eles choraram.
E assim passaram-se alguns dias e noites, exatamente sete, período durante o qual voltou o brilho aos cabelos e aos olhos da mulher-foca. Ela adquiriu uma bela cor escura, sua visão se recuperou, seu corpo voltou às formas arredondadas, e ela nadava com agilidade. Chegou, porém, a hora de devolver o menino à terra. Nessa noite, o avô-foca e a bela mãe do menino nadaram com a criança entre eles. Vieram subindo, subindo de volta ao mundo da superfície. Ali eles depositaram Ooruk delicadamente no litoral pedregoso ao luar.
— Estou sempre com você — afiançou-lhe sua mãe. — Basta que você toque algum objeto que eu toquei, minhas varinhas de fogo, minha ulu, faca, minhas esculturas de pedra de focas e lontras, e eu soprarei nos seus pulmões um fôlego especial para que você cante suas canções.
A velha foca prateada e sua filha beijaram o menino muitas vezes. Afinal, elas se afastaram, saíram nadando mar adentro e, com um último olhar para o menino, desapareceram debaixo d'água. E Ooruk, como ainda não era a sua hora, ficou.
Com o passar do tempo, ele cresceu e se tornou um famoso tocador de tambor, cantor e inventor de histórias. Dizia-se que tudo isso decorria do fato de ele, quando menino, ter sobrevivido a ser carregado para o mar pelos enormes espíritos das focas. Agora, nas névoas cinzentas das manhãs, ele às vezes ainda pode ser visto, com seu caiaque atracado, ajoelhado numa certa rocha no mar, parecendo falar com uma certa foca fêmea que freqüentemente se aproxima da orla. Embora muitos tenham tentado caçá-la, sempre fracassaram. Ela é conhecida como Tanqigcaq, a brilhante, a sagrada, e dizem que, apesar de ser foca, seus olhos são capazes de retratar expressões, aquelas expressões sábias, selvagens e amorosas.
Mulheres Que Correm Com Os Lobos
Mitos e Histórias dos Arquétipos da Mulher Selvagem
Clarissa Pinkola Estés
Editora Rocco

A Pele da Mulher Lobo

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Imagem do Google

Havia um moinho encantado, de modo que ninguém poderia ficar lá perto, porque uma mulher lobo o assombrava. Um dia, um soldado foi para o moinho para dormir. Ele fez uma fogueira na entrada do moinho, subiu ao sótão, e viu um buraco no piso do chão, que dava para a entrada.
A pele está pendurada lá.
A loba entrou e olhou em volta, para ver se podia encontrar algo para comer. Ela não encontrou nada, e depois foi em direção ao fogo, e disse: “Sai pele! Sai pele! Sai pele! Sai pele!”. Ela levantou-se em cima de suas patas traseiras, e sua pele caiu. Ela pegou a pele, e pendurou em um cabide, e fora da pele do lobo surgiu uma moça. A moça foi para perto do fogo, e adormeceu ali.
Ele desceu do sótão, pegou a pele, pregou ela rapidamente na roda do moinho, e em seguida, entrou, gritando por ela, e disse: “Bom dia moça! Como você está?”
Ela começou a gritar, “Venha pele! Venha pele! Venha pele!” Mas a pele não poderia vir, pois estava pregada.
O par se casou e tiveram dois filhos.
Assim que filho mais velho soube que sua mãe era um lobo, disse a ela: “Mamãe! Mamãe! Ouvi dizer que você é um lobo.”
Sua mãe respondeu: “Que absurdo você está falando! Como você pode dizer que sou um lobo?”
O pai das crianças foi um dia lavrar no campo, e seu filho disse: “Papai, deixe-me ir com você.”
Seu pai disse: “Venha”.
Quando eles foram para o campo, o filho perguntou ao pai: “Papai, é verdade que a nossa mãe é um lobo?”
O pai disse: “É.”
O filho perguntou: “E onde está a sua pele?”
Seu pai disse: “Aí está, pregada na roda do moinho.”
Mal o filho chegou em casa, que ele disse uma vez à sua mãe: “Mamãe! Mamãe! Você é um lobo! Eu sei onde é sua pele.”
Sua mãe lhe perguntou: “Onde está a minha pele?”
Ele disse: “Há, na roda do moinho”.
Sua mãe lhe disse: “Obrigado, meu filho, por me salvar.” Então ela foi embora, e nunca foi se ouviu dela”.

Conto eslavo – Fonte: A. H. Wratislaw, Sixty Folk-Tales from Exclusively Slavonic Sources
http://www.aletria.com.br/

Um conto: Zadig

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Zadig era um buscador. Nada para ele importava mais do que encontrar a Verdade e alcançar a liberação dos sentidos. Ainda bastante jovem, amealhava um profundo conhecimento dos textos sagrados da Torá e dedicava todo o seu tempo livre ao estudo do Corão. Quase nunca empenhava energia em passatempos, e a vida social não tinha para ele tanta importância quanto para os outros rapazes da sua idade. Tinha consciência plena de que a vida terrena era breve, e que os dias dos homens passam com a velocidade de uma tempestade no deserto, por isso lhe importava mais juntar tesouros no Céu eterno do que nesta Terra temporária. Num belo dia, Zadig voltava da escola para casa, quando encontrou no caminho um alarde e um princípio de confusão, causados pela presença em sua vila de um famoso homem santo. Dizia-se dele que tinha o poder de curar doentes e confortar os desesperançados com palavras de pura sabedoria. O que alguém tão elevado teria vindo fazer na sua humilde vila? Zadig imediatamente entrou no meio da pequena multidão que se formava em torno de um ancião de vestes claras.
Quando finalmente conseguiu chegar próximo ao centro do tumulto, foi visto pelo velho sábio, que fez um gesto para que as pessoas que se agitavam ao seu redor se afastassem. Então voltou seus olhos na direção de Zadig e o chamou para perto dele. As pessoas da vila, espantadas, abriram espaço para a passagem do rapaz. Zadig se aproximou e o velho lhe passou os braços ao redor do pescoço, dando-lhe um beijo fraternal em cada uma das faces. Então o fitou fixamente no fundo dos olhos e disse: “Acabo de encontrar a razão pela qual sabia que deveria vir até esta vila”. Disse a Zadig que ele tinha um grande futuro pela frente, e que se realmente quisesse e demonstrasse empenho, iria conhecer grandes verdades da vida espiritual antes do que imaginava. Disse ainda que Zadig tinha vindo a este mundo capacitado de certos talentos especiais. Mas lhe fez uma imprescindível advertência: para que essas coisas se cumprissem, Zadig teria que abandonar tudo, naquele exato momento, e segui-lo aonde quer que fosse.
Zadig pensou em sua família, por algum tempo. Pensou nos seus pais, em sua casa, no conforto e em todas coisas materiais que teria que deixar para trás, se resolvesse seguir aquele homem estranho. Mas, olhando nos seus olhos, viu um fogo que o atraía tão fortemente que não pôde resistir. Respondeu que sim, abandonaria tudo e o seguiria a partir daquele momento, pra onde quer que ele fosse. O ancião ainda o advertiu: “Se você quiser realmente me seguir, tem que me dar a sua palavra de que vai confiar em mim, plenamente. Esta é a minha condição. Você confia e vai confiar para sempre em mim?” – Zadig nunca tinha visto aquele homem na sua frente, mas quando fitou novamente sua face, uma certa luz parecia emanar dela, e aquele fogo nos olhos novamente o atraiu tão fortemente que só pôde responder que sim. E o seguiu. Tomaram a estrada sem que Zadig soubesse exatamente para onde estavam indo.
E foi assim que Zadig, a partir daquele dia, tornou-se um viajante que não conhecia o próprio destino, ao lado de um ancião que nunca lhe revelava seu nome. Caminhavam juntos por dias inteiros, sem que Zadig jamais soubesse para onde estavam indo. O ancião só lhe dizia que a razão de estarem caminhando juntos por aquela estrada era que Zadig estava indo ao encontro de uma importante lição que lhe seria necessária para que pudesse depois concluir a sua missão e o seu caminho sozinho. E que fazia parte da sua própria missão conduzir Zadig.
Assim se passaram semanas. Caminhavam sempre os dias inteiros, e ao final do dia descansavam. Às vezes à beira da estrada, sob uma ponte ou uma árvore. Às vezes pediam abrigo em alguma casa ou hospedaria. Nem sempre eram bem recebidos pelos moradores das vilas por onde passavam, mas nunca deixavam de encontrar abrigo para passar a noite, um lugar para se banharem e o alimento necessário para cada dia. Nunca passaram fome, nem nenhuma necessidade realmente básica. Às vezes alguém aparecia do nada com dois pratos de comida quentinha, outras vezes alguém oferecia dinheiro para que pudessem comer em alguma estalagem. Nas noites de chuva sempre havia um teto acolhedor sobre suas cabeças. Conversavam por horas a fio, quase sempre sobre assuntos transcendentais. Zadig fazia perguntas e o ancião respondia, mas as respostas para alguns questionamentos era sempre o silêncio, como quando ele queria saber sobre o destino daquela viagem e a identidade do ancião. O máximo que obtinha como resposta era um suave “tudo tem o seu tempo certo...”.
Mas Zadig sempre aprendia coisas belas, todos os dias. Às vezes, o ancião permanecia mudo por longas horas ou mesmo um dia inteiro, como que num voto de silêncio não declarado. Zadig imaginava que aquilo devia ter uma razão de ser, e como fizera um voto, dizendo que sempre confiaria no seu tutor, quando percebia que o dia não seria de conversa, tentava aproveitar para meditar em silêncio, durante a caminhada, fortalecendo dentro de si os aprendizados recentes. Zadig realmente confiava no ancião, plenamente, e procurava cumprir todas as suas orientações com humildade, muito embora às vezes fosse difícil ou mesmo impossível compreender alguns dos seus atos.
Meses se passaram. Chegou um belo dia em que andaram pela estrada, como sempre, desde o nascer do sol até o entardecer. Mas dessa vez ainda continuaram caminhando, mesmo depois disso, até chegar noite alta. Finalmente, os dois parceiros de viagem chegaram numa vila muito pequena e humilde. Pela primeira vez, nada tinha acontecido, durante todo o dia, para que a fome de ambos fosse saciada. Ninguém lhes trouxera comida ou oferecido dinheiro para que pudessem matar a fome. Estavam em jejum desde o raiar do dia, caminhando sem parar até a noite escura, sem nenhuma refeição. Zadig estava realmente exausto e faminto, e para piorar, este havia sido um daqueles dias em que o ancião não lhe dirigira a palavra nem por uma vez sequer. Algumas vezes até tinha tentado iniciar uma conversa, principalmente com a intenção de perguntar a que horas comeriam, mas em todas fora interrompido por gestos do companheiro pedindo silêncio. Já dentro da pequena vila, o ancião, se comportando como se soubesse exatamente para onde estavam indo, tomou uma pequena ruela de barro, que os levou a um pobre, pequeno e muito velho casebre, que se encontrava quase oculto atrás de um extenso mato alto. O ancião, sem dizer uma palavra, abriu o pequeno portão de madeira que dava acesso ao singelo quintal, entrou e foi bater à porta tosca. Voltando-se para o exausto Zadig, falou pela primeira vez naquele dia inteiro: “Venha cá!” ..
Uma jovem senhora, de aspecto muito sofrido, veio atender. Já era tarde, e o semblante da mulher demonstrava que ela acabara de ser acordada pelas batidas na porta. Mesmo faminto e extenuado, Zadig sentiu-se desconfortável por acordar aquela pobre mulher àquela hora da noite. Mas ela prontamente convidou-os a entrar, e insistiu para que se sentassem à mesa muito simples. Enquanto mexia nos seus utensílios de cozinhar, explicou que ultimamente andava muito triste, pois além de ter ficado viúva um ano antes, recentemente perdera também o filho mais velho. “Meu outro filho, o mais jovem, está já dormindo. Perdoem-no, ele está muito cansado, trabalhou o dia inteiro na lavoura, e amanhã terá que acordar muito cedo”, ela disse. Nem perguntou se estavam com fome, porque isso era óbvio. Enquanto abria as portas do armário da cozinha, Zadig via que estavam praticamente vazios. Ela não tinha quase nada com que servi-los. Mas do pouco que tinha, pegou a última porção de arroz e o último pedaço de carne seca. Juntou tudo numa panela e em pouco tempo preparou uma deliciosa sopa para os viajantes esfalfados. Serviu Zadig e seu companheiro à mesa, com toda gentileza, e tirou do fundo de um pote o último pedaço de pão para acompanhar a sopa. Zadig estava esfomeado e devorou tudo rapidamente, mas sentia uma ponta de remorso por pensar que estavam comendo todo o alimento que aquela pobre mulher provavelmente tinha guardado para o dia seguinte. Depois da refeição, ela contou como havia perdido seu filho mais velho há pouco tempo, assassinado por salteadores no campo, e que desde então se encontrava muito deprimida. Zadig se apiedou profundamente daquela dona tão simples e bondosa. Ele sabia que o sábio ancião poderia reconfortá-la com algumas palavras de luz e de verdade (ele era muito bom nisso), mas ele nada dizia. Num dado momento, Zadig chegou inquiri-lo, para ver se respondia com alguma pérola de sabedoria, algo que a tranqüilizasse ou trouxesse alguma paz para aquela alma sofredora. Mas o outro permanecia em silêncio e assim ficou por todo o tempo que durou o jantar. Lágrimas corriam pelas faces da mulher, enquanto ela contava a história da morte do filho mais jovem. Zadig sempre querendo confortá-la, dizer alguma coisa que suavizasse o seu sofrimento... ele tinha aprendido tantas coisas importantes a respeito da vida, nestes dias de jornada ao lado do velho sábio, coisas sobre vida e morte, sobre o valor do sofrimento nesta vida... Mas ele não conseguia dizer uma palavra. Percebia naquele momento o quanto entender alguma coisa intelectualmente é diferente de compreender algo na prática, numa situação de vida real. Agora que precisava fazer uso de tudo que supostamente aprendera, simplesmente não era capaz de levar qualquer consolo para alguém que tanto precisava. Mas, acima de tudo, estava decepcionado com a atitude do seu tutor, que poderia ter feito algo de bom e nada fez.
Depois do jantar, a senhora pediu licença, dizendo que precisaria se ausentar por alguns instantes. Saiu por uma porta e Zadig pôde ouvir a sua voz abafada, vinda de trás da porta, acordando seu filho. Mesmo com certa dificuldade, era possível ouvir o que dizia: “Levante-se e vamos dormir no chão! Temos visitas!”..
Zadig não podia acreditar. Ele e seu companheiro estavam acostumados a dormir no chão. Qualquer lugar debaixo de um teto seria mais do que suficiente para que passassem uma noite confortável. Olhou para o ancião, esperando que ele impedisse aquele absurdo. Nada. Insistiu com ele para que não deixasse a mulher desalojar o filho da própria cama, mas ele o encarou com um olhar frio e respondeu: “Eu quero dormir numa cama macia, hoje. Você não?” – Logo a mulher voltou e disse: “Agora vou preparar um banho quente para vocês e vou me retirar, se não precisarem mais de mim. Neste quarto há uma cama pronta para cada um de vocês. Eu e meu filho dormiremos no chão esta noite. Não há nenhum problema com isso, estamos acostumados a fazer isso sempre que algum peregrino passa por aqui. Sabemos que são homens de Deus, por isso temos prazer em servi-los”. Zadig ainda esperava que seu companheiro impedisse aquela pobre e sofrida mulher de se sacrificar pelo conforto deles. Esperava que dissesse alguma coisa, mas ele nada disse. Apenas assentiu com a cabeça, aceitando todas as gentilezas. Zadig começava a se sentir muito confuso com tudo aquilo. Quando já estavam deitados, ainda perguntou o porquê do comportando estranho, mas só obteve uma resposta: “Apenas observe e procure aprender”.
No meio da noite, Zadig acordou com um ruído estranho vindo de um outro cômodo da casa. Pela luz da lua que passava por uma fresta da janela, pôde observar que o ancião não estava no leito ao seu lado. Achou estranho, levantou-se e, sem fazer nenhum ruído, foi até a porta. Ela não estava fechada, havia uma vão por onde ele podia ver o que acontecia do outro lado. A janela deste outro aposento estava aberta e a luz do luar iluminava bem o ambiente. Assim, Zadig pôde ver claramente a viúva e seu jovem filho dormindo no chão, abraçados, em cima de um velho cobertor. Vendo aquela cena se sentiu envergonhado, uma vez mais, por estar confortavelmente acomodado numa cama. Seu tutor o obrigara a aceitar a hospitalidade da mulher e ele o fez, esperando que houvesse um bom motivo para aquilo. Então, desviando o olhar, viu o seu tutor no outro canto do quarto, remexendo dentro de um velho armário. O que estaria fazendo, vasculhando sem autorização os pertences alheios? Ele se comportava como um ladrão, furtivamente, sem fazer barulho. Depois de algum tempo, encontrou um pequeno e velho baú de madeira escondido cuidadosamente atrás de outros objetos. Afastou-os e retirou cuidadosamente o baú, com as duas mãos. Colocou-o devagar sobre uma mesa e o abriu. Logo em seguida, retirou todo o seu conteúdo e espalhou sobre a mesa. Eram algumas pedras preciosas, que a viúva guardava. Provavelmente as economias de uma vida inteira ou a herança deixada por seu falecido marido. E então, Zadig quase não pôde acreditar no que seus olhos viram: O ancião recolheu todas as pedras que estavam dentro do baú e as guardou dentro de uma pequena trouxa que fez com um pano. Logo a seguir, guardou o baú no mesmo lugar onde o encontrara, escondeu a trouxa de pano entre suas vestes e se voltou na direção do quarto, sempre furtivamente. Zadig correu de volta para a cama, se deitou e se cobriu, fingindo que estava dormindo. Mas viu claramente o seu mestre entrar, abrir sua bolsa e guardar lá dentro a o produto do furto que acabara de cometer!
Zadig não podia acreditar naquilo! Estivera enganado o tempo todo a respeito de seu velho guru? Seria ele um enganador, apenas um ladrão muito hábil, que se fazia valer dos seus conhecimentos místicos para lesar o próximo? Um verdadeiro lobo em pele de cordeiro? Seria possível que em todo o tempo que permaneceram juntos ele não tivesse feito outra coisa senão deslumbrá-lo com belas palavras e falsos ensinamentos espirituais?
Amanheceu o dia. Zadig despertou. Ele não tinha conseguido dormir direito, mas o ancião continuava tranqüilamente deitado em sua cama, dormindo profundamente. Sua consciência parecia tranqüila como a de um bebê! Zadig sentia um misto de indignação e perturbação. Mas não queria aceitar que tinha abandonado sua família, a escola, o convívio dos amigos, tudo enfim, para seguir um patife travestido de sábio. Levantou-se, foi ao lavatório fazer sua higiene matinal. A dona da casa não estava, tinha saído cedo, ela também trabalhava no campo. Ao passar pela cozinha, viu que ela tinha guardado o último toco de pão que sobrara da noite anterior para que ele e o (falso?) “homem santo” pudessem fazer o desjejum. Zadig sentia-se profundamente confuso, sem saber o que fazer. Mas resolveu consigo mesmo que não diria nada ao ancião, porque não conseguia conceber que ele realmente levaria a idéia de roubar a pobre mulher adiante. Iria esperar até o fim, para ver onde tudo daria. Sentia o seu estômago se revirar, mas mesmo assim ainda se lembrava da promessa que tinha feito: confiaria no seu tutor até o fim.
O ancião acordou, lavou-se e voltou a cozinha. Comeu o último pedaço de pão sem oferecer a Zadig e sem se importar se a pobre viúva ou seu filho teriam o que comer naquele dia. Depois chamou Zadig para retomarem a estrada, dizendo que o seu aprendizado estava prestes a se completar. Zadig perguntou se ele tinha certeza de que não tinha nada a fazer antes de partirem, querendo dar uma chance ao ancião de se arrepender do seu ato execrável. Mas este o olhou tranqüilamente e respondeu com apenas um sonoro e tranqüilo “Óbvio que não”. Zadig quase não podia mais se conter, mas permaneceu em silêncio e voltou a seguir seu tutor. Quando saíram do velho casebre, o velho se dirigiu até uma pequena despensa que havia do lado de fora e pegou um recipiente que estava cheio da querosene usada para acender os lampiões. Sem dizer palavra, começou a espalhar o combustível ao redor de toda a casinha e nas paredes ressecadas. Os olhos de Zadig se arregalaram quando viram o ancião riscar um fósforo e atear fogo à humilde residência da viúva!
Zadig gritou, protestou, ele não podia acreditar no que estava acontecendo. As chamas já altas envolviam toda a casa, quando ele correu atrás do ancião, que já andava longe, se adiantando no caminho de volta à estrada. “O que acabou de fazer? O que está acontecendo, o senhor poderia me explicar?” – O velho o segurou forte pelos ombros, com um vigor incomum para um homem daquela idade, e olhando fundo nos seus olhos, perguntou: “Lembra-se do que você me prometeu, quando resolveu me seguir?” – e virando as costas retomou seu caminho para a estrada, sem dizer mais nada. Zadig estava transtornado, completamente confuso. E não saberia nem explicar o porquê, mas seguiu mais uma vez o ancião. Sem saber que o mais surpreendente ainda estava por vir.
O caminho para a estrada passava por uma velha e estreita ponte, sobre um rio de águas impetuosas. Zadig e o ancião estavam atravessando, e a cabeça do primeiro parecia girar, tão confuso ele estava com os acontecimentos recentes. Neste momento, quando estavam bem no meio da ponte, o ancião parou e pediu a Zadig que também parasse por um momento. Será que ele finalmente iria explicar o que estava acontecendo? Mas não haveria tempo pra isso. Logo a seguir, ouviu-se um grito, e do outro lado da ponte vinha correndo, desesperado, o filho mais jovem da pobre viúva. Quando os viu, perguntou o que estava acontecendo, disse que alguém o informara que sua casa estava pegando fogo. Zadig não soube o que responder, e o ancião não disse nada. O rapaz então retomou sua corrida, mas quando ia passando ao lado do velho, este o empurrou com um gesto vigoroso, para fora da ponte! O pobre rapaz despencou da ponte, gritando - em poucos segundos foi tragado pelas águas violentas, sendo arrastado até sucumbir às profundezas e dele não restar mais nenhum sinal. Tudo aconteceu tão rápido que Zadig não pôde fazer nada a não ser gritar, além disso ele não sabia nadar, e se tivesse se atirado naquelas águas terríveis para tentar salvar o garoto, não poderia ter feito absolutamente nada.
Esta havia sido a última gota d’água! Zadig entregou-se a uma fúria incontrolável, e não tentou mais conter uma reação violenta. Avançou para cima do seu ex-tutor, desferiu-lhe dois violentos socos na face, e quando este caiu aos seus pés, desabafou toda sua angústia em altos brados: “Você é o mais falso dos mestres! Amaldiçôo o dia em que o conheci, e maldito o dia em que resolvi segui-lo! Você não passa de um ladrão desprezível! Tudo que têm são palavras vazias! Aquela pobre mulher nos recebeu com amor e atenção, nos alimentou com as suas últimas provisões. Desalojou da cama o próprio filho, que era a última coisa que ela tinha nesta vida, e ela mesma abriu mão do próprio leito para nos dar conforto, e o que você fez? Como retribuiu a esta pobre viúva? Roubou-a vergonhosamente na calada da noite, tomou dela a única coisa de valor que ainda possuía, queimou a sua casa, e agora acabou de assassinar o seu único filho?? Eu o desprezo! Eu o odeio! Exijo que suma da minha frente, antes que eu acabe com a sua vida! - Zadig falava atropelando umas palavras com outras, sem respirar, o rosto distorcido pelo ódio e revolta - Mas não pense que não vou denunciá-lo às autoridades! Em pouco tempo você estará preso, e eu espero que seja executado ou que passe os seus últimos dias apodrecendo sua carcaça velha numa cela imunda!!”..
O ancião limpou o sangue que começava a escorrer do seu lábio inferior e se levantou tranqüilamente. Em seu rosto vermelho aparecia um sorriso, quando ele começou a falar: “ Nunca confie em ninguém, e às vezes nem mesmo em si mesmo. Está escrito: ‘Maldito é o homem que confia no homem’. Peça orientação aos Céus para saber o que é bom e o que é mau, e viva somente segundo a sua consciência e fazendo uso do seu discernimento em qualquer situação. De repente, a promessa que você me fez já não tinha a menor importância, diante do que você viu bem diante dos seus olhos, não é? Nossa jornada, juntos, está completa. Você acaba de aprender hoje a sua primeira real lição, porque a viveu na prática e a sentiu na pele”. Sim, aquilo fazia sentido, mas Zadig não podia acreditar que aquele velho insano tinha roubado e incendiado a casa de uma pobre viúva, e, além disso, assassinado uma pessoa apenas para lhe ensinar uma lição! Isso não fazia nenhum sentido! Mas o ancião continuou falando: “Eis a sua lição: Não julgar nunca as intenções de Deus! Não pretender jamais trocar a confiança na Sua Sabedoria pelo grosseiro intelecto humano! Frágil mortal! Pare de questionar O que você deveria reverenciar!”...
Zadig ainda não entendia nada, e ainda sentia vontade de socar seu antigo professor. Mas subitamente, percebeu, estarrecido, que as formas do ancião estavam mudando. Sua aparência e as formas do seu corpo se alteravam. Sua pele começava a se deformar e expandir em todos os lados, e todo seu corpo se tornava uma massa desfigurada, que inflou até que o que antes fora pele se rompesse e se rasgasse em muitas partes, que caíram por terra, se tornando em cinzas. Zadig olhou e viu o que havia por baixo da aparência do ancião: um ser maravilhoso, de pele reluzente como metal polido e asas flamejantes! Sua estatura era grande e seu semblante era terrível como o de um ser para o qual tempo e espaço significam nada. Zadig caiu prostrado, aterrorizado. Então aquele que um dia se parecera com um velho voltou a falar, agora com uma voz que ressoava como um estrondo:
“Você não me reconhece? Eu sou o anjo da morte! Eu cumpro os desígnios do Altíssimo. Fui enviado para cumprir uma missão especial, porque com ela alguém importante deveria aprender algo fundamental. Este alguém é você. Uma grande missão também o aguarda neste mundo, mas você não será capaz de cumprí-la se não tiver aprendido a lição que eu lhe trouxe. Vou lhe explicar tudo o que você pensa que viu, para que finalmente entenda:
A mulher que nos recebeu tem um futuro luminoso, que nunca poderia se cumprir sem a minha intervenção, que é o cumprimento da Vontade de Deus. Antes da nossa chegada, ela precisou sofrer, porque só assim saberia estar apta a valorizar devidamente e saber desfrutar das grandes bênçãos que irá receber. Ela perdeu seu marido, violento e infiel, que só lhe deu desgostos. Quanto ao filho mais velho, saiba que o seu assassino não foi um salteador, mas seu próprio irmão mais novo, por inveja - o mesmo que eu acabei de precipitar desta ponte, cumprindo a minha tarefa de ceifar sua vida. Você me viu empurrá-lo, mas todos entenderão o ocorrido como um acidente. E na verdade, foi isto que realmente aconteceu, porque eu não existo no seu mundo, e assim todas as minhas ações são como acidentes ou reveses naturais da vida. Esse rapaz cruel já tinha decidido assassinar, nesta manhã, também a sua própria mãe, para ficar com a propriedade e com as pequenas pedras preciosas que ela guardava e eu escondi esta noite. Quando chegamos, ele pensou em aproveitar a nossa presença para culpar-nos pelo crime. Só por não ter encontrado as pedras no lugar de sempre foi que resolveu adiar seus planos. Tencionava antes descobrir onde sua mãe tinha guardado as pedras, para depois concretizar seu plano. As pedras encontram-se neste exato momento no meio das cinzas da casa incendiada, e serão ainda hoje encontradas pela dona. Mas já não serão mais tão importantes, porque com o incêndio da velha casa a viúva vai descobrir algo que se encontrava escondido, enterrado sob a sua fundação há muitos anos: um tesouro que foi ali colocado pelo antigo proprietário, antes de falecer. Somente com o incêndio total do velho casebre é que ela poderia encontrar o tesouro. Mas não é só. Também por causa deste incêndio, virão algumas pessoas do vilarejo vizinho, por curiosidade, e entre elas um homem solteiro, gentil e atencioso, que vai conhecer a viúva e em breve se tornará seu marido. Eles viverão felizes e terão dois filhos bons e atenciosos. Por fim, o rapaz que você viu cair da ponte não morreu. Ele está inconsciente agora, mas será transportado por seu próprio anjo de guarda para um lugar distante, onde vai cumprir o seu destino. Um dia ele voltará para confessar o seu crime e se desculpar com sua mãe”.
Zadig estava ainda atordoado, mas agora a serenidade finalmente começava a surgir em seu espírito. O anjo perguntou: ”O que você aprendeu?” E Zadig respondeu: “Esta foi a minha lição: Nem tudo é o que parece. Nunca mais duvidarei da perfeição dos desígnios divinos. Nunca vou querer julgar com medidas humanas as Razões e a Perfeição de Deus. Cada pequeno acontecimento tem um excelente motivo, mesmo que eu não compreenda, em princípio”.
O anjo sorriu, mostrando-se satisfeito, e concluiu: “Lembre-se sempre, esta é a maldição do tempo, fazer com que os homens não percebam o espaço entre causa e conseqüência, ação e reação. Agora volte para a sua casa e se esforce para aprender sempre mais, porque o seu tempo ainda não é chegado. Meu nome é Yesod, e no dia da sua libertação, voltaremos a nos encontrar” . Dizendo isto, o anjo da morte elevou-se ao céu, até acima das nuvens, desaparecendo num clarão fulgurante.





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