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HOJE ALGUMAS FRASES ME DEFINEM: "Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento." Clarice Lispector "Os contos de fadas são assim. Uma manhã, a gente acorda. E diz: "Era só um conto de fadas"... Mas no fundo, não estamos sorrindo. Sabemos muito bem que os contos de fadas são a única verdade da vida." Antoine de Saint-Exupéry. Contando Histórias e restaurando Almas."Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." Fernando Pessoa

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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O Arbusto dos Narizes


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Conta-se que em tempos muito remotos havia um convento de monjas agostinianas, perto da cartuxa de Monte Alegre. Havia entre elas — e era, por certo, a mais humilde — uma monja de família nobre, de alta linhagem e muito bela.

Numa tarde, um cavaleiro que habitava nos arredores do castelo desse lugar, por acaso viu-a no jardim, e de tal maneira impressionou-se por sua beleza, que não teve mais repouso.

Desde então o cavaleiro rondava todas as noites o jardim do convento, chegando ao extremo de escalar os muros e cantar em frente à cela da enclausurada.

Esta teve notícia dos padecimentos do jovem cavaleiro, e chorou amargamente por ser causa deles. Sua humildade e sua religião não podiam suportar a situação que o cavaleiro lhe criava, rondando-a como se fosse do mundo.

Uma tarde, depois de rezar devotamente na capela do convento, pedindo conselho à Santíssima Virgem, tomou uma decisão heróica. Ao chegar a noite, a monja esperou atrás da cela em que o cavaleiro escalava o muro do convento, como era seu costume.

Não teve que esperar muito tempo. Apenas a lua despontou no céu, viu o cavaleiro que, colocando uma escada no muro, desceu em silêncio por ela, levando sua espada.

Saiu então a monja e se aproximou do cavaleiro, que estava trêmulo de emoção. Ela então lhe disse que havia sabido do muito que por seu amor sofria tentações, e que não poderia consentir nisso.

E tampouco podia tolerar que todas as noites ele rondasse sua cela e lhe cantasse trovas, quebrando o espírito de clausura.

O cavaleiro referiu-se à sua extrema beleza. Ao ouvir estas palavras, a religiosa respondeu que, como era sua beleza que causava suas tentações, estava decidida a destruí-la, para devolver à sua alma a tranqüilidade que tinha perdido.

Dizendo isto, tirou uma adaga que trazia escondida embaixo do escapulário, e com um só golpe cortou o nariz.

A lenda não conta o que aconteceu com o cavaleiro, mas nos consta que naquele lugar nasceu um raro arbusto, de uma espécie desconhecida até então, que dava flores de cor vermelha e em forma de nariz.

Os cientistas do país asseguram que não há outro igual em toda a Catalunha. Em várias ocasiões, procuraram extirpá-lo, mas renascia com maior louçania. Puseram-lhe o nome de "arbusto de fogo", mas o povo, sempre amante do maravilhoso, o chama de "arbusto dos narizes".

Lenda medieval católica. Espanha. Fonte: V. Garcia de Diego, "Antología de Leyendas de la Literatura universal" - Labor, Madrid, 1953, p. 147.

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A Princesa Parizade


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Enquanto isso, o terceiro bebê, uma princesa, da mesma forma que seus irmãos teve também a sorte de ser encontrado pelo intendente, no canal ao lado dos jardins, adotando-a. Os três foram criados com todo cuidado e toda ternura.Enquanto as crianças cresciam, a beleza delas e ar de distinção mais e mais seevidenciavam, revelando que se tratavam de pessoas de berço nobre. O primeirodeles foi chamado pelo pai adotivo de Bahman. O segundo, de Perviz, nomes dedois reis antigos da Pérsia, enquanto a princesa foi chamada de Parizade.O intendente teve cuidado de apresentá-los sempre como seus próprios filhos,cuidando pessoalmente de sua educação. Mais tarde, designou um tutor paraensinar para à jovem princesa ler e escrever. A jovenzinha, determinada a não ficar para trás, mostrou que ela estava tão ansiosa para aprender com os irmãos dela queo intendente consentiu que ela os acompanhasse. Logo ela sabia tanto quanto eles.

Desde aquele tempo, todos seus estudos foram feitos em comum. Eles tiveramos melhores mestres em belas artes, geografia, poesia, história e ciência. Mesmo essa matéria, em que poucos eram instruídos, parecia a eles tão fácil que seus professores ficaram surpresos com o progresso feito. A princesa demonstrou paixão pela música e aprendeu a tocar todos os tipos de instrumentos. Também aprendeu a montar tão bem como seus irmãos dela. Sabia usar o arco e a seta eatirar um dardo ou lança com a mesma habilidade como eles e, às vezes, até melhor.

Para incentivar essas habilidades, o intendente resolveu que seus filhos adotivos não mais deveriam ser limitados pelas estreitas fronteiras do jardim do palácio, onde sempre tinham vivido. Assim, comprou para uma esplêndida casa nazona rural, não muito distante da capital, cercada por um imenso parque. Esse parque ele encheu de animais selvagem de vários tipos, de forma que os príncipes ea princesa podiam caçar como gostavam de fazer.

Quando tudo estava pronto, o intendente se lançou aos pés do sultão e, depoisde se referir à idade dele e aos longos serviços prestados, implorou permissão deSua Alteza dele renunciar ao seu posto. O sultão agradeceu com palavras corteses,indagando que tipo de recompensa o criado desejava por ter servido tão fielmente por tanto tempo. Agradecendo, o intendente declarou que nada mais desejava quecontinuar merecendo a consideração do sultão. Prostrando-se mais uma vez, ele seretirou da presença do Sultão.

Cinco ou seis meses se passaram nos prazeres do campo, quando a morteatacou o intendente tão de repente que ele não teve nenhum tempo de revelar osegredo do nascimento às crianças adotadas por ele. Como sua esposa já haviamorrido havia muito tempo, parecia que os príncipes e a princesa jamais saberiamque eles uma origem muito mais alta do que imaginavam. O pesar pela morte do pai foi tão grande que eles preferiram continuar morando na nova casa, semnenhum desejo de trocá-la pela corte e suas intrigas.

Conto árabe

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Nasrudin e os vizinhos





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Dois vizinhos viviam discutindo sobre uma cerca:
- Tenho de aumentar a cerca, pois toda vez que você conduz suas mulas por perto, elas conseguem esticar o pescoço e comer minhas frutas que estão daquele lado.
- De jeito nenhum, se aumentar o muro, você vai tampar todo o sol que bate no meu tanque de peixes e eles vão morrer.
Assim, decidiram pedir Nasrudin para resolver o impasse. Ele respondeu:
- Já sei como resolver o problema da cerca. Posso fazer o que quiser?
- Claro, Nasrudin.
E Nasrudin foi e voltou no dia seguinte dizendo:
- Problema resolvido.
Os dois vizinhos correram para ver o resultado, mas logo voltaram irritados:
- Nasrudin seu louco. Você colocou os burros dele do meu lado da cerca. Agora eles realmente não precisam passar pela cerca, mas comeram todas as minhas frutas.
- Nasrudin seu palerma. Meus burros estão agora espalhados por todos os cantos e eu levarei dias para recolhê-los.
- Se fosse para fazer isso, eu poderia bem colocar arames no topo da cerca para impedir os burros de passar!
- E eu poderia conduzir os burros pela outra trilha, mais longa, que é afastada da cerca!
Nasrudin respondeu:
- Podiam, podiam. Nasrudin não pode, Nasrudin resolve.

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Seu Lunga e o Veneno de Rato


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"Seu" Lunga entrando em uma agropecuaria.

-Tem veneno pra rato ?

-Tem ! Vai levar ? - pergunta o balconista.

-Não, vou trazer os ratos pra comer aqui ! - responde seu Lunga.

Anedota popular do Brasil.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

As Ilhas Afortunadas


Mensagem

(Quarto)


Que voz vem no som das ondas
que não é a voz do mar?
E a voz de alguém que nos fala,
mas que, se escutarmos, cala,
por ter havido escutar.

E só se, meio dormindo,
sem saber de ouvir ouvimos
que ela nos diz a esperança
a que, como uma criança
dormente, a dormir sorrimos.

São ilhas afortunadas
são terras sem ter lugar,
onde o Rei mora esperando.
Mas, se vamos despertando
cala a voz, e há só o mar.
Fernando Pessoa

"Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo,e esquecer os nossos caminhos,que nos levam sempre aos mesmos lugares.É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." Fernando Pessoa


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Lancelot






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Lancelot era o mais valente cavaleiro da Távola Redonda e despertou muitas paixões. O rei Pelles tinha uma filha muito bela, Elaine de Corbenic, que se apaixonou pelo cavaleiro. Mas ao contrário de outras mulheres da corte, Elaine não se deteve perante o amor de Lancelot pela rainha Guinevere. Com a ajuda da sua aia Brisen, recorreu às artes mágicas para seduzir o seu amado.
Brisen era uma feiticeira que previu que, da união de Lancelot e Elaine, nasceria Galahad, o cavaleiro puro. E assim conduziu Lancelot aos aposentos de Elaine, fazendo-o crer que estava com Guinevere. Infelizmente, foram surpreendidos por uma enfurecida Guinevere que, num acesso de raiva e ciúme, os bane da corte. Apercebendo-se então do engano e desesperado com as palavras da rainha, Lancelot, ensandecido,foge pela janela, buscando protecção na floresta.
Durante dois anos, permaneceu nos bosques, vivendo com os animais e alimentando-se de frutos silvestres. Os cavaleiros da Távola Redonda procuraram-no em vão. Até que um dia, Elaine encontra-o adormecido junto a um poço. Imediatamente alertou o seu pai - o guardião do Graal. E foi graças ao Santo Cálice que Lancelot recuperou a sanidade.

As três Maçãzinhas de Ouro



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Havia três irmãos; o mais novo tinha três ma çãzinhas de ouro, e os outros para vêr se lhas tiravam mataram-no e enterraram-no num monte Depois nasceu na sepultura uma cana. Certo dia passou por lá um pastor, que cortou um pedaço da cana para fazer uma frauta. O pastor começou a tocar, mas a gaita em vez de tocar, dizia:
Toca, toca, oh pastor,
Os meus irmãos me mataram,
Por três maçãzinhas de ouro,
E ao cabo não as levaram.
O pastor quando ouviu isto, chamou um carvoeiro, e deu-lhe a frauta. O carvoeiro começou também a tocar, mas a frauta dizia:
Toca, toca, oh carvoeiro,
Os meus irmãos me mataram…
Assim foi a frauta andando, de indivíduo para indivíduo, até que chegou às mãos do pai e mãe do morto. A frauta dizia ainda:
Toca, toca, oh meu pai…
Toca, toca, oh minha mãe,
Os meus irmãos me mataram
Por três maçãzinhas de ouro
E ao cabo não as levaram.
Chamaram o pastor, que disse onde tinha cortado a cana. Foram lá e encontraram o cadáver com as três maçãzinhas de ouro.
Conto tradicional de Portugal. Fonte:Os Melhores Contos Populares de Portugal, coletânea com org. e notas de Câmara Cascudo. Dois Mundos Editora (1944). Registrado por José Leite de Vasconcelos em Rebordaínhos, Bragança.

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Os Sapatos da Princesa


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Era uma vez uma princesa que gastava sete pares de sapatos por noite. Ninguém sabia explicar o estranho fato. Por isso, o rei vivia acabrunhado e prometera dar a mão da filha a quem descobrisse o mistério. Mas aquele que tentasse fazer isso e não fosse bem sucedido teria a cabeça degolada. Muitos já tinham experimentado e recebido o castigo.
Um bom rapaz, chamado Joãozinho, passando pela cidade em que morava a princesa, foi informado do misterioso acontecimento. Resolveu então decifrar o enigma, embora soubesse do triste destino que teria se fracassasse na empresa. Joãozinho era inteligente e corajoso. Além disso, muito confiava no auxílio de Nossa Senhora, sua madrinha.
Após várias tentativas, conseguiu entrar no palácio e falar ao rei. Declarou que estava pronto para desvendar o mistério. O rei avisou-o do que lhe aconteceria se nada conseguisse. O rapaz disse que estava decidido a enfrentar as conseqüências. Pedia somente que o deixassem dormir num canto do palácio de onde pudesse vigiar o quarto da princesa. O rei concordou com a exigência e permitiu que ele dormisse perto dos aposentos da filha.
O pedido de Joãozinho chegou, porém, aos ouvidos da princesa que deu ordem à sua criada para pôr dormideira no café do rapaz. Mas este, que não era tolo, fêz que bebeu e lançou fora o café. Fingiu que dormia profundamente, embora não tirasse os olhos do quarto da princesa. Quando bateu meia-noite, percebeu um ruído que saía de um baú de folha, fechado, que se encontrava sob a cama da princesa. Nisto ouviu a moça dizer baixinho: — Calicote! Calicote! De repente, o baú abriu-se, e dele pulou um diabinho que exclamou:
— Está na hora! Está na hora, princesa!
A princesa vestiu-se num instante. Calçou um par de lindos sapatos e colocou no baú mais meia dúzia de pares de sapatos. O diabinho pegou no baú e saiu pela janela com a princesa. Joãozinho correu para fora do palácio e viu uma carruagem belíssima puxada por dois cavalos pretos, arreados de ouro e prata. O Calicote e a princesa tomaram assento no carro. Joãozinho saltou para a traseira da carruagem que partiu veloz como o vento.
Após alguns minutos de vertiginosa corrida, apareceu um campo onde cresciam flores de prata. Joãozinho apanhou uma e guardou no bolso. Mais adiante, atravessaram outro campo, onde brilhavam flores de ouro. Em seguida, surgiu outro campo onde refulgiam flores de diamante. De cada um desses campos, Joãozinho conseguiu retirar uma flor que guardou cuidadosamente. Finalmente, chegaram a um palácio coberto de ouro e de pedras preciosas. Num salão enorme, cheio de convidados, ricamente vestidos, uma orquestra invisível tocava músicas maravilhosas.
Quando a princesa chegou ao palácio, todos os convidados se dirigiram para a sala de jantar onde se realizou um grande banquete. Joãozinho conseguiu saltar por uma janela e esconder-se debaixo da mesa. De vez em quando, um convidado deixava cair um osso de peru ou de galinha, que o rapaz apanhava e guardava no bolso. Depois do banquete, começou o baile. Cada vez que dançava, a princesa estragava um par de sapatos que Calicote jogava fora, substituindo por outros que trouxera no baú. Joãozinho, com grande agilidade, conseguiu apanhar todos os sapatos usados pela princesa.
Quando faltavam alguns minutos para as duas horas, a princesa exclamou:
— Calicote, está na hora!
— Sim, princesa, vamos! respondeu o diabinho.
Acompanhados de todos os convidados, a princesa e Calicote se dirigiram para a porta do palácio. Tomaram a carruagem, em cuja traseira Joãozinho já se achava escondido. Os cavalos pretos partiram velozes como relâmpagos e, quando bateram as duas horas, já a carruagem estava à porta do palácio do rei. Logo que Calicote e a princesa entraram no palácio, a carruagem e os cavalos desapareceram como por encanto. A princesa recolheu-se ao seu quarto e Calicote entrou no baú que foi colocado debaixo da cama.
Quando amanheceu, o rei, que estava aflito para saber da solução do enigma, mandou logo vir Joãozinho à sua presença. O rapaz então lhe disse:
- Saiba Vossa Majestade que a resposta lhe será dada hoje, à hora do jantar. Dê um grande banquete e convide para o mesmo a princesa e um padre.
O rei não pôde deixar de rir diante do estranho pedido do rapaz. Mas satisfez o seu desejo. Realizou-se então o jantar com grande pompa e, no momento da sobremesa, Joãozinho levantou-se e brindou à princesa, dizendo que lhe ia oferecer ricos presentes.
— No jardim deste palácio haverá flores de prata? perguntou êle. E tirou do bolso uma flor de prata que entregou à princesa. Esta ficou pálida e colocou a flor sobre a mesa.
— Haverá também flores de ouro e diamente? tornou a perguntar Joãozinho. E tirou do bolso novas flores que entregou à princesa.
— E osso de galinha, de prata? E pés de peru, de ouro? Haverá, por acaso?
Todos os que estavam no banquete ficaram maravilhados com os belos e misteriosos objetos que o rapaz oferecia à princesa. Esta ficava cada vez mais pálida. Afinal, Joãozinho perguntou à princesa:
— Conhece Vossa Alteza este sapato? E mais este? E foi mostrando os pares de sapatos até completar sete.
— Pois tudo isso pertence a Vossa Alteza!
A princesa soltou um grito e caiu desmaiada. Joãozinho correu então ao quarto da moça e trouxe de lá o baú para que o padre o benzesse. Quando o sacerdote fêz o sinal da cruz, o baú deu um estrondo e desapareceu no meio da fumaça com cheiro de enxofre.
Nesse momento, a princesa abriu os olhos, voltando a si, e exclamou cheia de alegria:
— Graças a Deus, estou salva!
Tinha ficado livre do terrível encantamento que uma bruxa lhe impusera com inveja da sua grande beleza.
Todo o mundo ficou satisfeito com a vitória do rapaz. Houve festas em todo o reino que duraram uma semana. Joãozinho casou-se com a linda princesa e nunca se esqueceu do auxílio de sua madrinha, Nossa Senhora.


Conto de f adas. Fonte : Contos Maravilhosos – Theobaldo Miranda Santos, Cia Ed. Nacional
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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Os Dois Cântaros


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Um moço religioso, que vivia entre os monges do deserto, sentindo-se pouco inteligente e incapaz de guardar os ensinamentos que recebia, procurou o mais velho sábio dos anacoretas e disse-lhe:
- Tenho um grande desgosto, meu pai. Apesar dos esforços constantes que faço, não chego a conservar na memória, durante muito tempo, as instruções que, para boa conduta na vida, recebo dos mestres. Vão também para o esquecimento os trechos mais belos que leio, diariamente, nos Santos Evangelhos!
O santo, que tinha em sua cela dois cântaros vazios, disse-lhe:
- Meu filho, toma um daqueles cântaros; põe um pouco d´água; lava-o depois, cuidadosamente; enxuga-o com o teu próprio hábito e deixa-o ficar no lugar em que está.
Maravilhado com tais palavras fez o moço exatamente o que o velho monge lhe determinara.
Concluída a tarefa, o ancião perguntou-lhe qual dos cântaros estava mais limpo, mais claro e puro. O solitário tomou nas mãos o cântaro que acabara de enxugar, e respondeu:
- Este, por certo, está mais limpo. Lavei-o com cuidado.
Disse-lhe, então, o sábio:
- E, no entanto, repara bem, meu filho, que esse cântaro não mais retém vestígio algum da água que o purificou. Também aquele que ouve, confiantemente, a palavra de Deus, embora não grave na memória o teor dos santos ensinamentos, traz o coração tão puro como um cântaro lavado.

Parábola. Fonte: Lendas do Céu e da terra de Malba Tahan.
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O Livro em Branco




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Andando um dia o grande Al Manzor, califa de Córdova, disfarçado em mercador, a correr as ruas dessa cidade com o intuito de observar, completamente despercebido, alguns de seus aspectos, deparou-se-lhe um indivíduo que, pelo trajar exótico e maneiras extravagantes, despertava a atenção dos transeuntes, reunidos alvoroçados em torno dele.
- Conheces aquele homem? - perguntou o sultão ao vizir que o acompanhara, oculto, também, em cuidadoso disfarce.
- Senhor - respondeu o interpelado – Aquele muçulmano que ali está no meio daquele grupo, a contar histórias maravilhosas e a relatar velhos sucessos, chama-se Banassafar e, embora chegado há pouco tempo, já se tornou figura popular nestes arredores.
Gaba-se de possuir invejável saber - e afirma que conhece todos os livros existentes no mundo. Querem alguns, porém, que ele não passe de um embusteiro muito hábil que merecia ser publicamente desmascarado!
- Por Maomé! - exclamou o califa. - Vou encarregar-me disto e hei de castigar esse aventureiro audacioso!
Determinou assim o sultão que o pseudo-sábio fosse levado a palácio e em presença dos nobres, ulemás e poetas da corte perguntou-lhe:
- É verdade que conheces todos os livros até hoje escritos não só no Islã, como no resto do mundo?
O arguto forasteiro, cuja audácia e sagacidade jamais o deixaram em situação embaraçosa, declarou peremptoriamente que não só conhecia como também já havia comentado todos os livros até então vindos a lume.
Tomou, então, o califa de um livro em branco, que ardilosamente mandara compor para ilaquear o aventureiro e perguntou-lhe:
- Dize-me, então, ó ilustre muçulmano, qual é a tua opinião sobre esta obra que tantas gerações têm visto?
O livro que Almanzor apresentou ao vaidoso Benassafar trazia luxuosa encadernação e em sua folha de rosto se lia gravado em caracteres dourados o seguinte título: "Últimos pensamentos engenhosos de Abul-Sanari".
Apenas lida a curiosa epígrafe, respondeu Benassafar:
- Sobejas vezes reli já esta obra admirável, glorioso califa!
Com grande espanto de todos os presentes - sabiam tratar-se de um livro em branco - o miraculoso homem prosseguiu:
- Posso assegurar-vos que este livro é magnífico. A ninguém faz mal; a todos é benéfico. Julgo-o superior às demais obras desse autor e - segundo os grandes críticos - é preferível às produções de Abenderrach. Em poder de um ignorante não têm as suas páginas valor algum; postas, porém, nas mãos de um letrado podem tornar-se mais preciosas do que o anel do grande Salomão!
Ao ouvir semelhante afirmativa, não se conteve o califa e exclamou irado:
Não passas de um vil mentiroso! O livro sobre o qual tanta coisa disseste tem todas as folhas em branco.
Benassafar, com enorme pasmo dos presentes, não deixou transparecer o mais leve indício de perturbação! O rancor do soberano, capaz de gelar o sangue nas veias do mais atrevido; a sua declaração, perigosa trama para o mais hábil - não tolheram sequer pequena parcela de sua muçulmânica serenidade. E disse:
- Senhor! Que Allah, o Exaltado, vos conserve até à consumação do século! Peço-vos, humildemente perdão. A resposta por mim formulada é exata e perfeita. Refere-se precisamente a um livro em branco. Que disse eu? Que esse livro não faz mal a ninguém e que a todos só pode fazer bem. É exatamente o caso de um livro em branco que, longe de ser nocivo, só pode ter utilidade para quem o vender e apurar no negócio boa quantia. Julguei-o superior às outras obras de Abul-Sanari. Esse homem não passa de um humilde obreiro, e este livro é, assim, a melhor das "obras" que ele tem produzido. Disse também que era preferível aos trabalhos de Abenderrach, o mísero idólatra que teve a audácia de criticar alguns versículos do Alcorão! Parece-me que um livro em branco é preferível sempre àquele que contenha conceitos aleivosos ao Livro de Allah! Afirmei, por fim, que o livro, posto nas mãos de um ignorante, não teria valor, mas que entregue a um sábio poderia tornar-se uma preciosidade. Para isto seria bastante que este imprimisse nas páginas em branco pensamento morais, versos delicados e ensinamentos úteis!
Almanzor viu-se obrigado a reconhecer que o inteligente Benassafar, vencendo-o naquela prova, fora mais hábil e mais esperto do que ele. Além disto, tendo concluído que o homem não passava de um sofista tão ardiloso quanto inofensivo, que andava a distrair o povo com suas declarações aparentemente fantásticas, mandou dar-lhe um traje de honra e deixou-o em paz, com boa recompensa, pelos caminhos de Allah.

Parábola. Fonte: Lendas do Deserto de Malba Tahan.

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