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HOJE ALGUMAS FRASES ME DEFINEM: "Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento." Clarice Lispector "Os contos de fadas são assim. Uma manhã, a gente acorda. E diz: "Era só um conto de fadas"... Mas no fundo, não estamos sorrindo. Sabemos muito bem que os contos de fadas são a única verdade da vida." Antoine de Saint-Exupéry. Contando Histórias e restaurando Almas."Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." Fernando Pessoa

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domingo, 24 de abril de 2011

62H MMN - O Coelhinho de Orelhas Azuis

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Era uma vez um coelhinho que tinha as orelhas azuis da cor do céu.Quando reparou que os outros coelhos não tinham as orelhas da mesma cor, ficou muito envergonhado. Deixou de brincar com eles e preferiu estar sozinho.
O único amigo que tinha era a lua que aparecia no céu à noite. O coelhinho contou-lhe toda a sua tristeza, mas a lua nunca lhe respondia.O coelhinho decidiu sair dali e procurar um sítio onde ninguém o conhecesse.
Contudo, para onde quer que fosse, todos ficavam admirados com as suas orelhas azuis e riam-se dele.“O meu lugar não é aqui, e a culpa é das minhas orelhas azuis.”
Um dia, ao passar em frente de uma casa, encontrou no chão o chapéu de um limpa-chaminés.
“É exactamente disto de que estou a precisar!”, pensou o coelhinho. E escondeu as orelhas por baixo do chapéu.
Aprendeu a subir às chaminés, a trabalhar com a vassoura e a limpar os fogões. — Agora pertenço à corporação dos limpa-chaminés — disse o coelhinho.
Mas, certo dia, o chapéu ficou-lhe preso na chaminé e os outros limpa-chaminés viram as suas orelhas azuis. Começaram imediatamente a rir e a gritar:
— Não és um limpa-chaminés a sério!
O coelhinho, cheio de vergonha, fugiu dali a correr e só a lua o acompanhou.Depois, encontrou um chapéu de cozinheiro em frente de um restaurante.“É exactamente disto de que estou a precisar!”, pensou o coelhinho. E
escondeu as orelhas por baixo do chapéu de cozinheiro.
Aprendeu a manusear uma sertã, a cozinhar legumes e a assar carne.— Agora faço parte da corporação dos cozinheiros — disse o coelhinho.Mas, certo dia, o chapéu voou-lhe para a sopa e os outros cozinheiros viram as suas orelhas azuis. Começaram então a rir e a gritar:
— Tu não és um cozinheiro a sério!
O coelhinho, cheio de vergonha, fugiu dali a correr e só a lua o acompanhou. Em frente de uma casa, encontrou um chapéu de jardineiro.
“É exactamente disto que estou a precisar!”, pensou o coelhinho. E escondeu as orelhas por baixo do chapéu de jardineiro. Aprendeu a cavar, a plantar árvores e a cuidar de flores. — Agora pertenço à corporação dos jardineiros — disse o coelhinho.Mas, num certo dia, uma forte rajada de vento arrancou-lhe o chapéu da
cabeça e os outros jardineiros viram as suas orelhas azuis. Começaram imediatamente a rir e a gritar:
— Tu não és um jardineiro a sério!
O coelhinho, cheio de vergonha, fugiu dali a correr e só a lua o acompanhou. Ao passar diante de um circo, encontrou o chapéu de um palhaço.
“É exactamente disto de que estou a precisar!”, pensou o coelhinho. E escondeu as suas orelhas por baixo do chapéu de palhaço. No circo aprendeu a tropeçar nos próprios pés e a fazer caretas. — Agora pertenço à corporação dos palhaços — disse o coelhinho.Até que um dia, um macaco lhe roubou o chapéu da cabeça e os outros palhaços viram as suas orelhas azuis. Começaram a rir e a gritar:
— Tu não és um palhaço a sério!
O coelhinho, cheio de vergonha, fugiu dali a correr e só a lua o acompanhou. Certa vez encontrou, debaixo de uma ponte, o chapéu de um vagabundo.
“É exactamente disto de que estou a precisar!”, pensou o coelhinho. E escondeu as orelhas por baixo do chapéu de vagabundo. Aprendeu a ser preguiçoso, a deitar-se à sombra, e a sonhar durante o dia. — Agora faço parte da corporação dos vagabundos.Mas, certo dia, o rio levou-lhe o chapéu e os outros vagabundos viram as suas orelhas azuis.
— Tu não és um vagabundo a sério!
Então o coelhinho não quis fugir nem usar mais nenhum chapéu.Sentou-se à beira de um regato no meio de um bosque.
— Não sou um limpa-chaminés a sério, nem um cozinheiro, nem um jardineiro, nem um palhaço, e também não sou um vagabundo. Afinal, o que sou eu?
Nesse momento, a lua apareceu no céu e transformou o regato num espelho. Aí, o coelhinho descobriu outro coelhinho, ele mesmo. E o coelho tinha orelhas azuis. Quanto mais olhava para si à luz da lua, mais gostava daquelas orelhas, das suas orelhas.Até que, de repente, descobriu: a culpa da sua infelicidade não eram as orelhas, mas sim o facto de ter sentido vergonha delas.O coelhinho desatou a correr, e só a lua o acompanhava. Pelo caminho,encontrou os vagabundos, os palhaços, os jardineiros, os cozinheiros e
os limpa-chaminés. A todos mostrou, com orgulho, as suas orelhas azuis e ninguém pensou em rir-se delas.O coelhinho ficou contente com tudo o que tinha aprendido: a subir à
chaminé, a trabalhar com a vassoura, a limpar fogões, a segurar uma sertã, a cozinhar legumes, a assar carne, a cavar a terra, a plantar árvores, a cuidar de flores, a tocar trompete, a tropeçar nos próprios
pés, a fazer caretas, a preguiçar, a deitar-se à sombra e a sonhar.
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Imagem do Google

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Max Bolliger
S Risefäscht
Aarau, AT Verlag, 1990
Texto adaptado

domingo, 17 de abril de 2011

O Menino e a Borboleta Encantada

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Imagens do Google

Antes de virar menino, ele era um pássaro, encantado como as estórias contadas para ela, menina que não sabia voar. E depois, de tanto ouvir os casos de horizontes longínquos, ela também ganhou asas e se fez borboleta para conquistar outras terras e ver com os olhos o que o coração desvela. Mil e uma noites haviam se passado desde que o Pássaro Encantado partira. Então ele voltou. Era madrugada. A Menina o viu tão logo a luz alegre do Sol fez brilhar as suas penas. Ela o estava esperando. Os apaixonados esperam sempre… Ah! Como foi bom aquele abraço de saudade! Desta vez as suas penas estavam coloridas com as cores das florestas sobre as quais voara. O Pássaro Encantado pôs-se então a cantar os seres da Mata, árvores, orquídeas, regatos, cachoeiras, elfos, gnomos… A Menina não se cansava de ouvir. Ouvia e pedia que ele contasse as mesmas estórias, do mesmo jeito. E assim viviam os dois, se amando por dias. Mas sempre chegava o momento em que o Pássaro dizia: - Menina, o vôo me chama Preciso partir. É Preciso partir para que o nosso amor não tenha fim. O amor precisa de saudade para viver… A Menina chorava baixinho, mas compreendia. E assim o amor acontecia entre partidas e retornos. As asas do Pássaro pareciam incansáveis. Estavam sempre à procura de lugares desconhecidos. Ele já visitara montanhas encantadas, planícies geladas, Lagos, rios, abismos, castelos, uma cidade na divisa entre a realidade e a fantasia, um reino onde era proibido estar triste, lugares sagrados, vulcões o país dos dragões verdes e dos gigantes amarelos, jardins, selvas verdes, mares azuis, praias brancas… Sobre todos estes lugares ele lhe contava estórias. A Menina não tinha asas. Mas ela voava nas estórias que o pássaro lhe contava. Mas os anos foram se passando. O Pássaro envelheceu. Suas asas já não eram as mesmas da juventude. E também os seus sonhos já não eram os sonhos da mocidade. Deseja-se partir quando é manhã. Mas quando o Sol se põe o que se deseja é voltar. E assim um desejo novo surgiu no coração do Pássaro crepuscular: voltar… O Sol acabara de se pôr. Vênus brilhava no horizonte. Foi então que a Menina o viu. Suas penas pareciam incendiadas pelo Sol. Depois do abraço ele disse para a Menina algo que nunca lhe dissera antes: - Menina, conte-me as estórias da minha ausência… E foi assim que, pela primeira vez, o Pássaro se calou e a Menina lhe contou estórias. Por muitos dias o Pássaro e a Menina gozaram do seu amor. Mas o Pássaro já não era o mesmo. Algo acontecera com os seus olhos. Já não procuravam horizontes longínquos. Eles olhavam as coisas simples que havia na sua Casa, coisas que sempre estiveram lá, mas que ele nunca havia visto. Não vira porque o seu coração estava em outro lugar. É o coração que nos diz o que é para ser visto. Aconteceu então, num dia como os outros, o Pássaro abraçou a Menina e sentiu nas costas da Menina, algo que nunca sentira. - Menina, o que é isso? Ele perguntou. Ela enrubesceu e respondeu: - Asas, pequenas asas… Estão crescendo nas minhas costas… E para que ele as visse baixou a blusa. E ele viu. Sim, pequenas asas, asas de borboleta, coloridas, diáfanas, frágeis.. E ele percebeu que a Menina se preparava para voar. Sua Menina se transformou numa borboleta…O Pássaro sorriu numa mistura de alegria e de tristeza. Sentiu um leve tremor nos lábios, aquele mesmo tremor que vira nos lábios da Menina a primeira vez que lhe dissera: - Eu quero partir… Chegara a hora em que ela partiria e ele ficaria. Ele seria, então, aquele que esperaria. Como é dolorido ficar! A solidão de quem FICA é maior que a solidão de quem parte! Quem parte vai para mundos novos, cheios de maravilhas desconhecidas. Quem FICA FICA num espaço vazio, de objetos velhos, esperando, esperando, contando os dias. O momento da despedida chegou. A Menina, flutuando com suas grandes asas de borboleta, disse ao Pássaro: - Preciso partir… O Pássaro teve vontade de chorar. Queria lhe dizer: - Não vá. Eu a amo tanto. Mas não disse. Lembrou-se de que essas haviam sido as palavras que a Menina lhe dissera quando ele partira pela primeira vez. O Pássaro temia por ela. Suas asas eram tão frágeis, asas de borboleta que se quebram à toa. Queria estar com ela para consolá-la na solidão e no cansaço. Mas não fez gesto algum. Ele sabia que os abraços que não se abrem são mortais para o amor. Ele estendeu a sua mão num gesto de despedida. A Borboleta voou e nele pousou. Ele se aproximou dela, como se fosse beijá-la. Mas não beijou. Apenas soprou suas asas suavemente. - Voa, minha Linda borboleta! Ele disse, se despedindo. A Borboleta bateu suas asas, voou e desapareceu na distância. Então, ao olhar de novo para si mesmo ele não se reconheceu. Já não era o Pássaro Encantado de penas coloridas.Transformara-se num Menino… Um Menino que não sabia voar. Um Menino que esperava a volta da Borboleta Encantada. Então ele voaria nas asas da estória que ela haveria de lhe contar.

Rubem Alves

61H MMN - A Volta do Passáro Encantado

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imagens do google

Um dia ele voltou. Mas estava diferente. Triste . - Você mudou – disse a Menina! - Eu sei, ele respondeu. – Perdi a alegria. Não mais tenho vontade de voar!- Como foi que isto aconteceu? – perguntou a Menina.- Estou velho. Não sou como era...—ele respondeu. - Quem lhe contou isto? - O espelho... Com estas palavras, o Pássaro tirou de dentro de suas penas um espelho de ouro e começou a contemplar o seu rosto. - Não me lembro desse espelho – disse a Menina. - Foi presente de alguém! Deixado à minha porta –explicou o Pássaro. “Como seu Pássaro mudara!”, a Menina pensou. Ela nunca o havia visto se olhando num espelho. Seus olhos estavam sempre cheios de mundos, de montanhas e campos nevados, florestas e mares... Tão cheios de mundos, que não havia neles lugar para sua própria imagem. Mas agora era como se os mundos não mais existissem. Os olhos do Pássaro estavam cheios do seu próprio reflexo. A Menina percebeu que seu Pássaro fora enfeitiçado. Com certeza alguém com inveja, como a madrasta da Branca de Neve. E que instrumento mais terrível para o feitiço que um espelho? Mais terrível que as gaiolas. De dentro da gaiola todos querem sair, mas dentro dos espelhos todos querem ficar. A Menina entristeceu... E jurou que tudo faria para quebrar qualquer feitiço. Mas de feitiços ela nada entendia. Procurou então os conselhos de um velho mago, que lhe revelou os segredos de todos os bruxedos. -- Uma pessoa fica enfeitiçada quando se torna incapaz de amar. E, para isso, não existe nada mais forte que um espelho. O espelho faz com que as pessoas só vejam a si mesmas. E quem vê somente o próprio reflexo não consegue amar. Adoece e morre. Narciso morreu assim, enfeitiçado por sua própria beleza, refletida na água da fonte. E foi a beleza da madrasta da Branca, refletida no espelho, que a transformou de mulher linda em bruxa horrenda! Contra o feitiço do espelho existe só um remédio: é preciso redescobrir o amor, ficar de novo apaixonado. Somente o amor tem poder suficiente para arrancar as pessoas de dentro da armadilha do espelho. Mas não há receitas... Somente quem ama a pessoa enfeitiçada pode salvá-la... A Menina pensou que, talvez, as coisas que o Pássaro sempre amara, no passado, teriam o poder para fazê-lo amar agora, no presente. E se lembrou da alegria que ele tinha nas frutas do pomar. Trouxe-lhe então as mais queridas: caquis, pitangas, mangas, romãs, jabuticabas, mexericas, aquelas que guardavam as memórias de infância escondida em sua carne. Mas o Pássaro se recusou a comer. Não tinha fome de frutas. Sua boca estava adormecida, como se não existisse... Só tinha olhos, olhos que fitavam o espelho em busca da beleza perdida, ausente... A Menina não se deu por vencida. Resolveu tentar a sedução dos perfumes. Os perfumes são sutis: penetram fundo, nas profundezas da alma. Lembrou-se de que o Pássaro amava o cheiro bom das plantas. Foi então ao jardim e ali colheu flores de jasmim, magnólia, madressilva, flor-do-imperador e as folhas de hortelã, manjericão, rosmaninho e alecrim... “Ah!”, ela pensava, “não existe bruxedo que resista aos perfumes, pois eles entram na alma, aonde nem mesmo os pensamentos e os olhares enfeitiçantes conseguem chegar...” Mas o Pássaro também se tornara incapaz de sentir os perfumes. Ele era só olhos, em busca de uma imagem perdida... - Minha tristeza mora num lugar mais fundo que o lugar dos perfumes, ele explicou à Menina. - Tenho saudades de mim mesmo, daquilo que já fui. Procuro, no espelho, um rosto passado, um tempo perdido... E a tristeza é por isso, porque sei que não é possível reencontrar! A Menina pensou, então, que a ciência poderia ajudar. Procurou médicos de perto e de longe e voltou para casa carregada de pílulas e injeções cheias de alegria. Mas os milagres eram curtos e a alegria se ia tão depressa quanto chegara. - Minha doença não é do corpo – disse o Pássaro – Ela mora na alma. Se eu não vôo, não é porque minhas asas ficaram fracas. Elas ficaram fracas porque não desejo mais voar. E quando o desejo se vai, vai-se também a alegria... E então o corpo envelhece! A Menina, chorando, lhe perguntou: - Mas não existe remédio para a tristeza? - Sei que existe – disse o Pássaro. - Mas num lugar muito longe (ou será muito perto?), que não sei onde é. Mas para chegar até lá, há de se saber voar. Você já voou? – o Pássaro perguntou à Menina.-- Voar, eu? Sou uma menina, não tenho asas... - Mas você já tem asas – ele afirmou. – E nem sequer percebeu... É que as asas das meninas, diferente das asas dos pássaros e das borboletas, não são vistas com os olhos. São invisíveis... Só podem ser vistas com os olhos da imaginação! A Menina nunca havia pensado nisto, que um dia ela teria asas. Parecia tão absurdo! E, de repente, se lembrou... Um presente muitos anos atrás, que seu Pássaro lhe trouxera de uma de suas viagens: um pôster colorido, uma menina, com asas de borboleta, que leve voava sobre a superfície de um lago. E ela lhe perguntara, espantada: - Uma menina com asas? E o Pássaro respondera: - Mas você nunca percebeu as asinhas que já começam a crescer em suas costas? E os dois riram de felicidade. Pois é: chegara o momento em que teria que começar a voar. - A quem devo procurar? – ela perguntou. - Procure aqueles que sabem voar: os poetas. Eles têm asas mágicas, feitas com palavras e se chamam poemas !... E a Menina partiu em busca do remédio que faz retornar a alegria à alma, a fim de dar leveza ao corpo... Encontrou um poeta e fez seu pedido. O poeta a olhou com um olhar de bondade e lhe disse: - Não posso atender seu pedido. Também eu estou procurando. Sabe por que sou poeta? Porque sinto em tudo só uma pitada de alegria. Mas ela se vai tão depressa, misturada à tristeza. Passa depressa como o Vento... Até um poeta já disse: Leve, muito leve, Um Vento passa , E vai-se sempre muito leve!... Assim é a alegria.... Nós a cantamos, quando ela aparece. Bem que gostaríamos de sermos mágicos para chamá-la e distribuí-las pelo mundo... Mas não podemos ajudá-la! Quem sabe os monges... Eles têm asas de luz... Consta que descobriram o segredo da alegria!... A Menina amou o poeta e até quis ficar com ele mais tempo. Mas lembrou-se de seu Pássaro... E continuou. Voou alto, muito alto, para o cume de uma montanha deserta e nevada, onde monges se dedicavam à busca de Deus.- Si, Menina, Deus é a suprema alegria. Por vezes a sentimos. Mas passa rápido, muito rápido. Como o sol que se pões. E nada há que possa detê-la. Passa rápido como a beleza do crepúsculo. Sabe porque fizemos o nosso mosteiro tão alto? Para que a alegria do pôr-do-sol demore um pouco mais. Queremos a beleza da luz que se vai, onde mora Deus, onde mora a alegria. Venha comigo!... E tomando a menina pela mão levou-a até um templo, lugar sagrado... E a luz do crepúsculo filtrava-se pelos vitrais de muitas cores... - Veja como entra pelos vitrais. Como é suave esta alegria. Mas logo se vai e a noite chega. Com a noite vem a tristeza e o medo... Felizmente, com o nascer do sol, ela volta. O choro dura uma noite toda, mas a alegria vem pela manhã... Vivemos assim, entre a tristeza que vem e a alegria que foge... Não, Menina, não conseguimos prender a alegria. Só conseguimos aprender a cantar quando ela vem... Quem sabe os revolucionários, que desejam construir o paraíso sobre a terra. Eles têm asas de fogo!... A Menina amou aqueles homens e achou lindo o que estavam fazendo, celebrando a luz que vem e que vai... Quis ficar. Mas havia um Pássaro triste, lá embaixo, que esperava por ela. Abriu suas asas e se foi, em busca dos revolucionários. Encontrou-os nas montanhas. Moravam nas alturas, não porque quisessem subir para as estrelas como os monges, mas porque queriam descer para os vales. Amavam a terra e por ela dariam suas vidas. -- Como gostaria de ter a resposta para sua pergunta, Menina – disse um deles, de rosto enigmático, estranha combinação de dureza e ternura. – Sei o que tira a alegria. Os corpos famintos, perseguidos, sofridos, dos pobres e fracos – ah!, como é difícil que se alegrem! A fome, a dor, a doença, as injustiças são todas inimigas da alegria. E para ela queremos preparar o caminho: quebrar as espadas, queimar as botas, abrir as prisões, distribuir as terras, perdoar as dívidas... Isto nós sabemos fazer. Mas alegria é coisa mágica que vem de dentro, não de fora. O que fazemos é preparar a terra para que ela possa vir das funduras de onde mora. Ela mora no lugar dos sonhos, aonde os nossos não podem ir! Para ter alegria é preciso sonhar. Mas este segredo nós não sabemos. Talves os intérpretes de sonhos... Eles têm asas de luar!... A Menina amou o rosto duro e terno daquele homem, admirou sua coragem, mas sentiu uma discreta tristeza em sua fala. Também ele não havia encontrado a alegria. Abriu suas asas... Já estava ficando cansada. E partiu em busca dos intérpretes dos sonhos. Sonhos: como são estranhos... Aparecem à noite, quando dormimos. Vêm de muito fundo, lá onde moram nossos desejos adormecidos. Eles são entidades tímidas. Só aparecem com o brilho do luar... -- Ah! Menina, você nos pergunta sobre o segredo da alegria. Sabemos que é nos sonhos que ela se realiza, como quando se espera a volta da pessoa amada. Antes é a saudade, o vazio. Depois o abraço. Alegria é isso: poder abraçar o que se ama. Mas é preciso primeiro saber, primeiro, o nome do que se ama. E é este nome que aparece, disfarçado,nos sonhos. Conte-nos os sonhos do seu Pássaro! Mas o Pássaro havia parado de sonhar. -- Então não podemos ajudá-la. Mas sabemos que os que sonham são os apaixonados. Eles têm asas feitas de saudade. Quem sabe eles lhe dirão o segredo!... E a Menina partiu, triste. Já estava cansada, longe, muito longe de seu amado Pássaro... E pensou se não seria melhor estar com ele, em sua tristeza. E dentro dela a saudade foi crescendo, doendo, um desejo enorme de voltar... Muito longe dali, o Pássaro se olhava no espelho e chorava os sinais do tempo gravados no seu rosto e a única coisa que via era sua própria imagem. De repente, entretanto, algo passou bem no fundo da sua alma, Como se fosse um Vento leve, bem leve; ou um raio de sol crepuscular; uma pequena chama de fogueira no frio das montanhas; um sonho bonito, em meio à noite... E ele se lembrou da Menina. Onde estaria ela? Deixou sobre a mesa o espelho e saiu “em busca das marcas da sua Ausência”, no perfume das flores, no gosto dos frutos, no quarto vazio... Havia, por todos os lugares, a presença da sua Ausência. E naquele corpo, por tanto tempo morto dentro do espelho, o Desejo cresceu, o rosto sorriu, as asas se abriram e o que era pesado voou...Ressuscitou... E cada um deles partiu, ignorando o que o outro fazia, em busca do reencontro... O feitiço fora quebrado. Estavam apaixonados. Voavam leves, ao Vento, com as asas da saudade... E ambos traziam, no brilho dos olhos, os sinais da juventude eterna que os anos não conseguem apagar... Porque os que estão apaixonados, não envelhecem jamais...

Rubem Alves

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Modéstia Mineira


imagem do Google

Estava num passeio em Roma quando, ao visitar a Catedral de São Pedro fiquei abismado ao ver uma coluna de mármore com um telefone de ouro em cima.Vendo um jovem padre que passava pelo local perguntei a razão daquela ostentação.O padre então me disse que aquele telefone estava ligado a uma linha direta com o paraíso e que se eu quisesse fazer uma ligação eu teria de pagar 100 dólares.Fiquei tentado, porém não aceitei a oferta.Continuando a viagem pela Itália, encontrei outras igrejas com o mesmo telefone de ouro em uma coluna de mármore. Em cada uma das ocasiões perguntei a razão da existência e a resposta era sempre a mesma: “Linha direta com o paraíso; 100 dólares a ligação.” Depois da Itália, chegando ao Brasil, fui direto para Carandaí. Ao visitar a nossa gloriosa Matriz de Santana, fiquei surpreso ao ver novamente a mesma cena: uma coluna de mármore com um telefone de ouro. Sob o telefone um cartaz com os dizeres: LINHA DIRETA COM O PARAÍSO - PREÇO POR LIGAÇÃO = R$ 0,25 (vinte e cinco centavos). Não me aguentei, e perguntei: - Padre João Paulo; eu viajei por toda a Itália e em todas as catedrais que visitei, vi telefones exatamente iguais a este, mas o preço da chamada era 100 dólares. Por que aqui é somente 25 centavos? O Padre sorriu e disse: - Meu amigo, você está em Minas Gerais. Aqui a ligação é local! O PARAÍSO É AQUI...

segunda-feira, 11 de abril de 2011

60H MMN - O Velho o Menino e o Burro

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Num lugar que você sabe este fato aconteceu; as pessoas que eu descrevo, você talvez conheceu; E se você não se lembra; procure na consciência; Porque se houver semelhança; não é mera coincidência; O burrico vinha trotando pela estrada; De um lado vinha o velho, puxando o cabresto. Do outro vinha o menino, contente, que o dia estava fresquinho e o sol ; brilhava no céu; Sentados no barranco estavam dois homens; No que viram o burro mais o velho e o menino, um cutucou o outro; – Veja só, compadre! Que despropósito! Em vez do velho montar no burro, vem puxando ele! O velho e o menino se olharam. Assim que viraram na primeira curva, o velho parou o burro e montou nele. O menino segurou o cabresto e lá se foram os três, muito satisfeitos. Até que perto da ponte tinha uma casa com uma mulher na janela. – Olha só, Sinhá, venha ver o desfrute! O velho no bem-bom, montado; no burro, e o pobre do menino gramando a pé! O velho e o menino se olharam de novo. Assim que saíram da vista da mulher, o velho desceu do burro e botou o menino na sela. E foram andando um pouco ressabiados, o velho puxando o burro pelo cabresto, pensando no que o povo podia dizer. Logo logo, passaram numa porteira onde estava parada uma velha mais uma menina. – Mas que absurdo, minha gente! Um velho que nem se agüenta nas pernas andando a pé, e o guri, bem sem-vergonha, escanchado no burro! Os dois se olharam e nem esperaram. O velho mais que depressa montou na garupa do burro e lá se foram os três. Dali a pouco encontraram um padre que vinha pela estrada mais o sacristão: – Olha só, que pecado, onde é que já se viu? O pobre do burro; coitadinho, carregando dois preguiçosos! Mas isso é coisa que se faça? O velho e o menino, desanimados, desmontaram e nem discutiram: saíram carregando o burro. Mas nem assim o povo sossegou! Cada vez que passavam por alguém, era só risada! – Olha só os dois burros carregando o terceiro! Quando chegaram em casa, o velho sentou cansado, se assoprando: – Bem feito! — ele dizia. — Bem feito! – Bem feito o quê, vô? – Bem feito pra nós. Que a gente já faz muito de pensar pela própria cabeça, e ainda quer pensar pela cabeça dos outros. Agora eu sei por que é que meu pai dizia: Quem quer agradar a todos a si próprio não faz bem! Pois só faz papel de burro ; e não agrada a ninguém!

O Flautista de Hamelin ; Written on Setembro 16th, 2010 at 9:18 am by Historias Infantis.

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