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HOJE ALGUMAS FRASES ME DEFINEM: Clarice Lispector "Os contos de fadas são assim. Uma manhã, a gente acorda. E diz: "Era só um conto de fadas"... Mas no fundo, não estamos sorrindo. Sabemos muito bem que os contos de fadas são a única verdade da vida." Antoine de Saint-Exupéry. Contando Histórias e restaurando Almas."Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." Fernando Pessoa

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sábado, 6 de novembro de 2010

A serpente de Ouro

Ao ir um homem rico à cidade, perdeu o que levava consigo: um saco repleto, com mil talentos, sobre os quais havia uma serpente de ouro com olhos de ametista.
Um pobre que passava pela mesma estrada achou o saco e o entregou à esposa, contando-lhe como o achara. Ouvida a história, a mulher disse:
-Guardemos o que Deus nos deu.
No dia seguinte, um arauto percorreu a rua gritando:
-Quem encontrou o tesouro contido num saco, restitua-o, e não só estará livre de qualquer delito, mas terá ainda a recompensa de cem talentos.
Ouvindo o arauto, o homem que achara o tesouro disse à mulher:
-Restituamos o tesouro, e não só estaremos livres de qualquer pecado, mas ainda por cima teremos cem talentos.
-Se Deus quisesse que o dono ficasse com o tesouro, o dono não o teria perdido. Portanto, guardemos o que Deus nos deu -replicou a mulher.
O homem insistiu em que devia restituí-lo, enquanto sua mulher a isto se opunha de todos os modos. Ele, porém, quisesse ou não quisesse a mulher, fez a restituição e reclamou o que o arauto prometera.
Entretanto o ricaço, cheio de perversidade, disse-lhe:
-Fica sabendo que falta a outra serpente.
Assim falou, com o criminoso intuito de não dar ao pobre homem os talentos prometidos. Este, por sua vez, afirmou que não tinha encontrado nada mais.
Os homens daquela cidade, favoráveis ao rico e no desejo de desacreditar o pobre, cuja sorte lhes provocara inveja, levaram-no à justiça. O pobre homem continuou proclamando que nada mais tinha encontrado.
Passou o caso a ser comentado entre os pobres e entre os ricos. Afinal, pelo relato dos ministros, chegou aos ouvidos do rei. Mal tomou conhecimento dele, o rei mandou trazer à sua presença o rico, o pobre e o tesouro.
Quando todos lá se achavam, mandou o rei vir um filósofo muito criterioso, juntamente com outros sábios, e ordenou-lhes que ouvissem a palavra do acusador e a do acusado, e esclarecessem a contenda.
Ouvido o caso, o filósofo, movido de compaixão, chamou a si o pobre e disse-lhe em segredo:
-Dize-me, irmão, se ainda tens algum bem daquele homem. Pois, se não o tens, procurarei libertar-te com o auxílio de Deus.
-Sabe Deus que tudo o que encontrei eu restituí.
Então foi o filósofo ao soberano, e disse-lhe:
-Se quiseres ouvir um alvitre certo, eu o apresentarei.
O rei mandou-lhe que falasse, e ele argumentou:
-O homem rico é muito honesto e digno de crédito, e tem grandes testemunhos de sua veracidade. Nem é crível que reclamasse alguma coisa que não perdeu. Por outro lado, parece-me provável que o homem pobre não tenha encontrado nada além daquilo que restituiu, pois, se fosse desonesto, não devolveria o que devolveu, mas esconderia tudo.
- Que concluís daí, ó filósofo?
-Concluo que o tesouro encontrado não é o desse homem. Deveis tirar do tesouro cem talentos e dá-los ao pobre, guardando o restante até que apareça quem o reclame, pois não pertence a esse rico. Ele que se dirija ao arauto e mande procurar um saco com duas serpentes.
O alvitre agradou ao rei e a todos os circunstantes. Então o rico disse:
-Ó bom rei, digo-te a verdade: este tesouro realmente é meu. Mas, como eu não queria dar a este homem o que o arauto prometera, aleguei que me faltava uma segunda serpente. Tem piedade de mim, e darei a ele o que foi prometido.
Então o rei retirou do tesouro duzentos talentos e os deu ao pobre, devolvendo ao rico apenas o que restara, como punição por ter levantado falsa acusação sobre a honestidade do pobre.
Fonte: Mar de Histórias, Editora Nova Fronteira de Petrus Alphonsi, seleção de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e Paulo Rónai. Conto Medieval.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Entre Ver e Enxergar: o Olhar do Contador de Histórias - Os Narradores

Entre Ver e Enxergar: o Olhar do Contador de Histórias - Os Narradores
Enxerguemos o que nos conta Otto Lara Resende no texto da página a seguir:

VISTA CANSADA
(É sempre bom lembrar, um copo vazio está cheio de ar)

“Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta.
Um poeta é só isto: um certo modo de ver.
O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar.
Vê não-vendo.
Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver.
Parece fácil, mas não é.
O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade.
O campo visual da nossa rotina é como um vazio.
Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta.
Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe.
De tanto ver, você não vê.
Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro.
Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência.
Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.
Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia?
Não fazia a mínima idéia.
Em 32 anos, nunca o viu.
Para ser notado, o porteiro teve que morrer.
Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência.
O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem.
Mas há sempre o que ver.
Gente, coisas, bichos.
E vemos?
Não, não vemos.
Uma criança vê o que o adulto não vê.
Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo.
O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê.
Há pai que nunca viu o próprio filho.
Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas.
Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos.
É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.”
(Otto Lara Resende - Texto publicado no jornal “Folha de S. Paulo”, edição de 23 de fevereiro de 1992.)

O autor nos fala sobre o olhar.
Incita-nos a refletir sobre a nossa própria cegueira.
E nos lembra, a todo o momento, que o que percebemos a primeira vista não é o que parece ser. Ele nos fala sobre a necessidade do enxergar, esse olhar aprofundado de que falávamos antes. O olhar que não apenas ver, sobretudo enxerga os detalhes da vida. Por isso que deficientes visuais podem enxergar melhor que muita gente de visão saudável: não podem prender-se a primeira vista porque não a possuem. Despertam para a visão interior, aquela que ENXERGA. E enxergam com todos os seus sentidos.
O olhar pode ser uma faca de dois gumes quando condicionado apenas aos órgãos sensoriais da visão. As imagens produzidas através de nossa retina são, na verdade, um reflexo de nosso córtex cerebral. Por esta razão, nossa capacidade de enxergar está ligada não apenas ao que vemos, mas também ao que intuímos ou sentimos.
Não raramente dizemos: “VEJO que você está tão triste!” ou “não consigo VER desta maneira”. São expressões de nossa sensibilidade intuitiva. Partem de nosso inconsciente e pertencem a nossa memória oral e ancestral, sem a qual o contador de histórias não existiria.
O olhar condicionado ao nosso corpo físico é o mais comum, por estar preso a uma única realidade material, por isso está associado à crítica do julgamento. Quando dizemos “a primeira impressão é a que fica” temos um exemplo de uma força implícita na palavra que diverge do sentido da frase. Poderia ter dito: “aquilo que vejo a primeira vista, me basta” ou “prefiro não enxergar o que isso realmente é”. O ato de ENXERGAR, realmente exige muito mais do olhar, porque envolve todo o nosso ser. Esta expressão citada se contradiria a outra bastante popular: “foi amor à primeira vista” – quando quer dizer: “na primeira vez que te vi, ENXERGUEI o amor no fundo de seus olhos”.
Percebemos que, não só as imagens que se apresentam em nosso cotidiano, mas, sobretudo as palavras pela qual nos expressamos são repletas de significados e exige de nós uma reflexão menos superficial.
Trabalhar esse olhar é completamente possível e necessário, especialmente numa época em que as pessoas cada vez mais se olham e se enxergam menos. Se eu não enxergo ao outro, não enxergo a mim mesmo. E como julgar conhecer ao outro se não me conheço? Há muitas respostas que ficamos sem saber. Tão pouco seremos capazes de compreender todas as coisas, nem é nosso propósito chegar a conclusão alguma, mas tão somente despertarmos do sono profundo que nos deixamos cair para aprendermos a sonhar mesmo quando acordados. Enxergar a beleza que tem em todas as coisas é exercício infindo, porque os olhos enganam a todo o momento. E achamos que o essencial é apenas aquilo que está visível.

Associamos nossos valores a estética do que nos agrada a visão e fugimos no primeiro desconforto. Mas a beleza também foge dos padrões e como é precioso encontrá-la em estado bruto!

Saint-Exupéry nos mostra em seu clássico “O Pequeno Príncipe” esta associação entre valor e estética:

"As pessoas grandes adoram os números. Quando a gente lhes fala de um novo amigo, elas jamais se informam do essencial. Não perguntam nunca: "Qual é o som da sua voz? Quais os brinquedos que prefere? Será que coleciona borboletas?"Mas perguntam: "Qual é sua idade? Quantos irmãos ele tem? Quanto pesa? Quanto ganha seu pai?" Somente então é que elas julgam conhecê-lo. Se dizemos às pessoas grandes: "Vi uma bela casa de tijolos cor-de-rosa, gerânios na janela, pombas no telhado..." elas não conseguem, de modo nenhum, fazer uma idéia da casa. É preciso dizer-lhes: "Vi uma casa de seiscentos contos". Então elas exclamam: "Que beleza!"

A palavra do contador de histórias é emoldurada pelas imagens que cada história trás. Cabe ao narrador transitar entre os dois universos da realidade ativa e subjetiva, colorindo com cuidado sua imagem da palavra. Chamamos “imagem da palavra” um conjunto de intenções (formas, pausas, tempos e nuances) dedicadas ao ato de narrar.

Para que a história contada seja atrativa e funcional, o narrador deve procurar estudá-la, de modo a pontuar alguns verbos, adjetivos e palavras que julgue importantes para emoldurar e colorir, dando-lhes forma e vida em sua narração. Fatores ambientais sobre o espaço onde vai narrar, quantidade e faixa etária do público, também influenciam em sua escolha de repertório e no alcance na projeção de suas imagens.

A Palavra Viva do narrador está na maneira de como ele moldura as imagens das palavras de uma história, intrinsecamente ligadas à sua prática pessoal no exercício do “enxergar”.

Por isso que, aprender a enxergar deve ser o principal objetivo do contador de histórias, porque é o caminho mais verdadeiro para se atingir a humanamente inatingível arte de desencantar palavras!


Jossy Correia

A voz e a Imagem do Contador de Histórias - Os Narradores


Para construir uma casa, um pedreiro precisa de pedra, água, areia tijolos e cimento, seus principais instrumentos de trabalho. Para narrar um conto, um narrador precisa de uma história, um ouvinte e dele mesmo. Seu principal instrumento de trabalho é a sua voz e o seu corpo. O conto, pode até ser inventado ali mesmo, naquela hora, mas o domínio de suas ferramentas é que fará a diferença em sua performance.
A voz do contador de histórias tem o poder de conduzir o ouvinte para o que ele conta, transformando a voz em imagens e somando gestos e sons.
Na boca do contador de histórias as palavras ganham vida. Nascem do fundo de sua alma, sempre gestante e, brotam como ramas do centro da flor de suas emoções. Por isso que, contar histórias exige um conhecimento de si mesmo, uma espécie de autodomínio, pois é o narrador um condutor de sonhos capaz de despertar em quem o ouve fortes emoções. É como se você fosse um maquinista de um trem conduzindo muitos vagões repletos de gente, onde cada vagão mostra um ângulo distinto de uma mesma paisagem. A paisagem é o conto. O maquinista é o narrador que nos conduz para passear dentro dela, mas o que cada ouvinte vê depende da posição de sua janela e de seu vagão. E mesmo que ele escute o mesmo conto várias vezes, terá sempre a liberdade de escolher seu vagão e sua janela. Ainda que o ouvinte escolha o mesmo lugar, descobrirá sempre algo novo na paisagem. Por este motivo, contar e ouvir histórias é uma experiência única que nunca, nunca se repete igual.
A arte de contar histórias é feita de muitos caminhos. E sempre que um narrador escolhe e é escolhido por uma história, um novo trilho é construído. Por isso que uma mesma história contada por narradores diferentes nos conduz a paisagens completamente distintas. Uma paisagem tão vasta de imagens que mesmo ele é incapaz de enxergá-la sempre de um mesmo ângulo, até porque ela, a história, está sempre em movimento.
Diferente da literatura escrita, as palavras quando narradas, espalham-se e misturam-se a paisagem que o narrador quiser conduzir. E quanto mais imagens ele puder compartilhar, tanto mais a história será interessante.
Todas as pessoas nascem contadoras de histórias. E seu momento mais inventivo está ainda na infância, na descoberta da linguagem articulada. Toda criança só aprende a falar pela necessidade que tem de contar histórias. Apenas sustentada pela intuição de sua oralidade, ela vai montando o seu acervo de idéias a partir de suas próprias descobertas. A criança conta o visível pelo invisível. Parte da imagem para a palavra. A palavra da criança está sempre viva, ao revés do adulto que, ao se distanciar desta intuitiva prática com o passar dos anos, necessita da palavra para criar a imagem. E eis que, imagem e palavra, independente da ordem, são duas forças que nos acompanharão pelo resto de nossas vidas!
Mas se nascemos contadores de histórias, porque algumas pessoas têm dificuldade de se expressar ou porque alguns narradores parecem ser tão melhores em relação a outros?
Costumo dizer que, não há na arte, de uma maneira geral, um melhor ou pior artista. Não se pode analisar o dom, apenas a técnica. A diferença está no autoconhecimento técnico de suas ferramentas de trabalho aliadas à intuição de cada um.
O que define um resultado mais lapidado, também passa pelas experiências de vida de cada artista, de cada narrador. Não adianta você querer contar histórias com bonecos porque viu alguém contar e era lindo se, em algum momento de sua vida você não tiver tido o contato prático com a técnica de teatro de bonecos. Um músico que se descobre narrador contará sempre histórias musicais. Um escritor, geralmente narra suas histórias de maneira mais fiel ao texto e a palavra escrita. Não há regras, mas são “tempos” diferentes. E contar histórias é ser atemporal. É enxergar outras realidades e transitar entre elas sem se perder, revivendo a infância. Por isso é que um bom narrador uma vez conectado à infância haverá de seguir sempre com sua criança interior capaz de narrar palavras vivas, intuídas de suas imagens.
Por tudo isso, creio que, o principal exercício de um do narrador é trabalhar o olhar.
O olhar que não só ver, mas, sobretudo, enxerga.
Porque ver é superfície e enxergar é profundidade.
A criança enxerga, mesmo quando não vê.
O poeta é uma criança que cresce sem mudar a sua maneira de olhar o mundo, enxergando o invisível. E todo narrador é um poeta.
Eis aqui o maior segredo dos contadores de histórias.
Afinal, não estão nos olhos as janelas da alma?
E não é de lá, do fundo da alma gestante que brota a indizível magia que dá vida a uma história?
Havemos de trabalhar o olhar do contador de histórias, a partir das pequenas coisas de seu dia-a-dia.
O bom narrador, pratica o que ensina.
Josy Correia da Cia. Catirina.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Resposta Sábia


Um médico ocidental em visita ao Oriente ficou surpreso de ver a
quantidade de velhos saudáveis, e, curioso sobre os aspectos da milenar
medicina oriental, indagou de um experiente médico local qual o segredo
para se viver mais e melhor.

Ouviu do mesmo a sábia resposta:
"- É muito simples.
É só:
Comer a metade.
Andar o dobro.
E rir o triplo."

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Nasrudin e as Lágrimas Amargas

Imagem retirad do Bing
Tamerlão recebeu de presente no palácio um espelho de platina, e mal olhou-se refletido, seus olhos encheram-se de lágrimas, Nasrudin, a seu lado, pôs-se também a chorar convulsivamente. Diz Tamerlão:
- Agradeço sua solidariedade, Nasrudin. Quando me olhei no espelho, me achei tão feio que chorei. Mas vamos pensar em outra coisa.
Nasrudin, porém, continuava a soluçar.
- Nasrudin. Nasrudin. Para de chorar. Que coisa! Não vê que eu mesmo já parei?
E Nasrudin:
- Ah, é ? Ver seu rosto no espelho por menos de um minuto o entristeceu por um instante. Agora, imagina eu, seu servo, obrigado a olhá-lo o dia inteiro.

Anedota Sufi.
fonte:

O Alfaiate e o Mandarim

Imagem retirada do Bing

Um dia um homem recebeu a notícia de que acabara de ser nomeado mandarim.
Ficou tão eufórico que quase não se conteve.
- Serei um grande homem agora - disse a um amigo. - Preciso de roupas novas imediatamente, roupas que façam jus à minha nova posição na vida.
- Conheço o alfaiate perfeito para você - replicou o amigo. - É um velho sábio que sabe dar a cada cliente o corte perfeito. Vou lhe dar o endereço.
E o novo mandarim foi ao alfaiate, que cuidadosamente tirou suas medidas. Depois de guardar a fita métrica, o homem disse:
- Há mais uma informação que preciso Ter. Há quanto tempo o senhor é mandarim?
- Ora, o que isso tem a ver com a medida do meu manto? - perguntou o cliente surpreso.
- Não posso fazê-lo sem obter essa informação, senhor. É que mandarim recém-nomeado fica tão deslumbrado com o cargo que mantém a cabeça altiva, ergue o nariz e estufa o peito. Assim sendo, tenho que fazer a parte da frente maior que a parte de trás. Anos mais tarde, quando está ocupado com seu trabalho e os transtornos advindos da experiência o tornam sensato, e ele olha adiante para ver o que vem em sua direção e o que precisa ser feito a seguir, aí então eu costuro o manto de modo que a parte da frente e a de trás tenham o mesmo comprimento. E mais tarde, depois que seu corpo está curvado pela idade e pelos anos de trabalho cansativo, sem mencionar a humildade adquirida através de uma vida de esforços, então faço o manto de forma que as costas fiquem mais longas que a frente.
"Portanto, tenho que saber há quanto tempo o senhor está no cargo para que a roupa lhe assente apropriadamente."
O novo mandarim saiu da loja pensando menos no manto e mais no motivo que levara seu amigo a mandá-lo procurar exatamente aquele alfaiate.
Imagem retirada do Bing
Parábola do Vietnã. Fonte: William J. Bennett em O Livro das Virtudes II - O Compasso Moral - Editora Nova Fronteira

"A humildade vem antes da honra."
(Provérbios 15:33)

domingo, 31 de outubro de 2010

46H MMN - O Peixinho de Ouro

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Em uma ilha distante daqui, a Ilha Buián, viviam um pescador e sua esposa. Muito velhos e muito pobres, tinham apenas sua cabana para viver e uma rede que o homem fizera com suas próprias mãos para pescar.
Um dia, ao mar, o homem sentiu que a rede lhe vinha mais pesada. E, pensando na boa pescaria que fizera, veio puxando, puxando a rede, puxando com toda a sua força... entre as malhas, a mesma água, o mesmo sal, e um peixinho do tamanho de quase nada. No entanto, não era um peixe comum: suas escamas eram de puro ouro.
O velho pescador já ia agarrá-lo quando o animaleto assim falou:
"Não me leves, avozinho... Deixa-me livre nas águas do mar que te serei de grande valia. Tudo o que desejares, dar-te-ei em recompensa."
Embora perdesse a pesca e o almoço, o velho respondeu:
"Vai-te embora, não preciso nada de ti. Vive em paz no mar!"
Voltando para casa, o homem viu viu que a velha lhe esperava à porta. "E que tal foi a pesca hoje?" Sem dar importância ao ocorrido, foi contando...
__ Que velho mais idiota! Tivestes a sorte entre as mãos e não soubestes aproveitar! Ao menos, tivesses pedido um bocado de pão... com o que havemos de forrar o estômago, se não há nesta casa nem uma pobre migalha?
E a velha brigou o dia inteiro com o marido -- até que ele, não podendo mais ouvir sua voz, foi à beira-d'água:
__ Peixe, peixinho, vem cá! Vira a cabeça para mim e põe o rabo para o mar!
O peixe de ouro nadou em sua direção:
"O que desejas, bom velho?"
__ Minha mulher está zangada e diz querer pão.
"Volta para casa que pão não vos faltará."
Ao chegar, o velho encontrou a mulher mais brava do que antes. (Ela era do tipo difícil de agradar!) Pão havia de sobra, uma gaveta cheia. O que agora ela queria era uma tina nova -- a madeira havia rachado e ela não tinha onde lavar a roupa:
__ Vai dizer ao tal peixe que nos providencie uma!
O homem obedeceu e, mais uma vez, foi à praia:
__ Peixe, peixinho, vem cá! Vira a cabeça para mim e põe o rabo para o mar!
O peixe de ouro veio a nadar.
"E o que desejas, meu bom velho?"
__ Minha mulher precisa de uma tina nova.
"Volta para casa que a tina nova lá está."
O pescador estava ainda uns vinte passos de cabana, a mulher correu ao seu encontro:
__ Vá imediatamente falar com o peixe e peça-lhe que construa uma casa nova para nós! Aqui já é impossível alguém morar...
Girando nos calcanhares, o homem voltou ao mar. Repetiu as mesmas palavras (que você já sabe, por isso não vou repetir) e o peixe apareceu, dourado e solícito como sempre. No entanto, de novo em casa, o pobre do pescador viu sua esposa soltando fumaça pelas orelhas:
__ Quão estúpido tu me vens! Esta casa é muito pequena! Não a quero! Vai outra vez ter com o tal peixinho de ouro e faça-o saber que não quero ser mais uma camponesa: quero ser esposa de governador, ter uma casa decente para morar!
Mais uma vez, lá foi o bom velho:
__ Peixe, peixinho, vem cá! Vira a cabeça para mim e põe o rabo para o mar!
O peixe nadou até a margem e assim fez, a cauda na água e a cabeça ao céu a falar:
"Que agora desejas?"
__ Minha mulher deve estar maluca: ela não me deixa em paz. Diz que já não quer ser camponesa, prefere ser esposa de governador.
"Não te aflijas, que tudo estará resolvido."
Ao voltar, não mais encontrou a velha cabana, nem outra mais nova sequer... Erguia-se, no mesmo terreno, uma mansão de três andares, contruída sobre largas bases de pedra. Sim, o peixe de ouro havia atendido com prontidão a mais esse pedido. Foi achegando-se e os criados vieram recebê-lo no pátio, perguntou por sua esposa... não tardou por encontrá-la refestaleda em uma poltrona, toda vestida em luxo.
__ Como estás, minha esposa? Contente?
__ Tens o atrevimento de chamar-me tua mulher, justo a mim, mulher do governador?
E assim dizendo, deu ordens aos criados para despejarem-no à rua. Lá fora, o pescador levou boa surra com paus e cordas. Apanhou de tal jeito que, só com muito custo, conseguiu ficar de pé outra vez... e, além de tudo, foi nomeado varredor da casa, obrigado à vassoura e a deixar o pátio sempre limpo... se encontrassem uma folhinha no chão ou qualquer sujeira sequer, deciam-lhe o pau!
Foi vivendo assim humilhado até o dia em que a esposa do governador quis vê-lo pessoalmente. Já estava cansada daquela vida.
__ Vai, agora mesmo, velho tonto, falar com o teu peixe. Desejo ser czarina para toda gente me obedecer e respeitar! Devo morar em um palacete e todos deverão se inclinar quando me virem passar! Andas, sem demora!
E foi ao mar ao pescador e veio à praia o peixe de ouro.
Tudo se fez como contam as palavras... e, naquele mesmo lugar, onde muito tempo atrás existiu uma cabana, no lugar dela, estava um palácio coberto com telhas de ouro. Sentinelas tomavam conta à porta. E ele entrou por um rico jardim, viu muito mais criados correndo de um lado para o outro. Na cozinha, descobriu-se um bom cheiro pelo ar, preparavam um banquete. E cada vez mais ressabiado, o pescador procurou pela mulher.
Ela, estava lá, no alto de uma esplanada, entre nobres e generais, passando revista às tropas. Tambores e trompetes faziam soar o hino do Czar...
O pescador desistiu de falar-lhe, procurou pela vassoura e ficou bem quieto em seu posto.
Mas não demorou para que a velha esposa se entendiasse com toda aquela vida de riqueza e honrarias; então, ordenou que trouxessem o pescador à sua presença. Nobres, generais, soldados e criados colocaram-se em polvorosa pois ninguém jamais havia ouvido falar de tal pessoa entre os afetos da czarina... Foi com muita dificuldade que conseguiram encontrar o bom velho, levado imediatamente para o salão do trono.
__ Tens sorte de ainda viver para ver-me deusa dos mares. Este é meu desejo, comandar toda gente que vive sob as águas. Sem demora, retornas ao peixe e ordene-lhe!
Coração muito apertado, o pescador obedeceu.
__ Peixe, peixinho, vem cá! Vira a cabeça para mim e põe o rabo para o mar!
Mas o peixe de ouro não apareceu na primeira chamada, nem na segunda, nem na terceira...
Foi então que o mar se ergueu, ondas revoltas, o azul ficando escuro. As águas ficaram irreconhecíveis e, neste momento, o peixe de ouro chegou à beira-praia:
"Que mais queres, bom velho?"
E ele tudo foi contando como havia acontecido, mas o peixe, sem mais nada dizer, deu as costas e... desapareceu nas profundezas do mar!
O pobre pescador foi-se também embora, pensando na guilhotina à espera de seu pescoço. Mas, chegando, que surpresa encontrou no lugar do palácio: a velha cabana, pequena e mal-acabada, sua mulher sentada num toco de árvore remendando uma roupa por costurar. Tudo de volta ao mesmo lugar, toda vida como era antes.
Pescando dia após dia, o velho, a rede e o mar, nunca mais teve a mesma sorte de encontrar seu amigo de ouro.

Conto russo adaptado por Peter O'Sagae
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