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HOJE ALGUMAS FRASES ME DEFINEM: "Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento." Clarice Lispector "Os contos de fadas são assim. Uma manhã, a gente acorda. E diz: "Era só um conto de fadas"... Mas no fundo, não estamos sorrindo. Sabemos muito bem que os contos de fadas são a única verdade da vida." Antoine de Saint-Exupéry. Contando Histórias e restaurando Almas."Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." Fernando Pessoa

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terça-feira, 10 de novembro de 2009

As Três Cidras do Amor


Era uma vez um príncipe, que andava à caça: tinha muita sede, e encontrou três cidras; abriu
uma, e logo ali lhe apareceu uma formosa menina, que disse:
– Dá-me água, senão morro.
O príncipe não tinha água, e a menina expirou. O príncipe foi andando mais para diante, e
como a sede o apertava partiu outra cidra. Desta vez apareceu-lhe outra menina ainda mais
linda do que a primeira, e também disse:
– Dá-me água, senão morro.
Não tinha ali água, e a menina morreu; o príncipe foi andando muito triste, e prometeu não abrir
a outra cidra senão ao pé de uma fonte. Assim fez; partiu a última cidra, e desta vez tinha água
e a menina viveu. Tinha-se-lhe que brado o encanto, e como era muito finda, o príncipe
prometeu casar com ela, e partiu dali para o palácio para ir buscar roupas e levá-la para a
corte, como sua desposada. Enquanto o príncipe se demorou, a menina olhou dentre os ramos
onde estava escondida, e viu vir uma preta para encher uma cantarinha na água; mas a preta,
vendo figurada na água uma cara muito linda, julgou que era a sua própria pessoa, e quebrou a
cantarinha dizendo:
– Cara tão linda a acarretar água! Não deve ser.
A menina não pôde conter o riso; a preta olhou, deu com ela, e enraivecida fingiu palavras
meigas e chamou a menina para ao pé de si, e começou a catar-lhe na cabeça. Quando a
apanhou descuidada, meteu-lhe um alfinete num ouvido, e a menina tornou-se logo em pomba.
Quando o príncipe chegou, em vez da menina achou uma preta feia e suja, e perguntou muito
admirado:
– Que é da menina que eu aqui deixei?
– Sou eu, disse a preta. O sol crestou-me enquanto o príncipe me deixou aqui.
O príncipe deu-lhe os vestidos e levou-a para o palácio, onde todos ficaram pasmados da sua
escolha. Ele não queria faltar à sua palavra, mas roía calado a sua vergonha. O hortelão,
quando andava a regar as flores, viu passar pelo jardim uma pomba branca, que lhe perguntou:
– Hortelão da hortelaria,
Como passou o rei
E a sua preta Maria?
Ele, admirado, respondeu:
– Comem e bebem,
E levam boa vida.
– E a pobre pombinha
Por aqui perdida!
O hortelão foi dar parte ao príncipe, que ficou muito maravilhado, e disse-lhe:
– Arma-lhe um laço de fita.
Ao outro dia passou a pomba pelo jardim e fez a mesma pergunta: o hortelão respondeu-lhe, e
a pombinha voou sempre, dizendo:
– Pombinha real não cai em laço de fita.
O hortelão foi dar conta de tudo ao príncipe; disse-lhe ele:
– Pois arma-lhe um laço de prata.
Assim fez, mas a pombinha foi-se embora repetindo:
– Pombinha real não cai em laço de prata.
Quando o hortelão lhe foi contar o sucedido, disse o príncipe:
– Arma-lhe agora um laço de ouro.
A pombinha deixou-se cair no laço; e quando o príncipe veio passear muito triste para o jardim,
encontrou-a e começou a afagá-la; ao passar-lhe a mão pela cabeça, achou-lhe cravado num
ouvido um alfinete. Começou a puxá-lo, e assim que lho tirou, no mesmo instante reapareceu a
menina, que ele tinha deixado ao pé da fonte. Perguntou-lhe porque lhe tinha acontecido
aquela desgraça e a menina contou-lhe como a preta Maria se vira na fonte, como quebrou a
cantarinha, e lhe catou na cabeça, até que lhe enterrou o alfinete no ouvido. O príncipe levou-a
para o palácio, como sua mulher e diante de toda a corte perguntou-lhe o que queria que se
fizesse à preta Maria.
– Quero que se faça da sua pele um tambor, para tocar quando eu for à rua, e dos seus ossos
uma escada para quando eu descer ao jardim.
Se ela assim o disse, o rei melhor o fez, e foram muito felizes toda a sua vida.

* * *

Teófilo Braga,
Contos Tradicionais do Povo Português,
1883

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