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HOJE ALGUMAS FRASES ME DEFINEM: "Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento." Clarice Lispector "Os contos de fadas são assim. Uma manhã, a gente acorda. E diz: "Era só um conto de fadas"... Mas no fundo, não estamos sorrindo. Sabemos muito bem que os contos de fadas são a única verdade da vida." Antoine de Saint-Exupéry. Contando Histórias e restaurando Almas."Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." Fernando Pessoa

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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O Sal e a Água


Um rei tinha três filhas;
perguntou a cada uma delas por sua vez, qual era a mais sua amiga.
A mais velha respondeu:
– Quero mais a meu pai, do que à luz do Sol.
Respondeu a do meio:
– Gosto mais de meu pai do que de mim mesma.
A mais moça respondeu:
– Quero-lhe tanto, como a comida quer o sal.
O rei entendeu por isto que a filha mais nova o não amava tanto como as outras, e pô-la fora
do palácio. Ela foi muito triste por esse mundo, e chegou ao palácio de um rei, e aí se ofereceu
para ser cozinheira. Um dia veio à mesa um pastel muito bem feito, e o rei ao parti-lo achou
dentro um anel muito pequeno, e de grande preço. Perguntou a todas as damas da corte de
quem seria aquele anel. Todas quiseram ver se o anel lhes servia: foi passando, até que foi
chamada a cozinheira, e só a ela é que o anel servia. O príncipe viu isto e ficou logo
apaixonado por ela, pensando que era de família de nobreza.
Começou então a espreitá-la, porque ela só cozinhava às escondidas, e viu-a vestida com
trajos de princesa. Foi chamar o rei seu pai e ambos viram o caso. O rei deu licença ao filho
para casar com ela, mas a menina tirou por condição que queria cozinhar pela sua mão o
jantar do dia da boda. Para as festas de noivado convidou-se o rei que tinha três filhas, e que
pusera fora de casa a mais nova. A princesa cozinhou o jantar, mas nos manjares que haviam
de ser postos ao rei seu pai não botou sal de propósito. Todos comiam com vontade, mas só o
rei convidado é que não comia. Por fim perguntou-lhe o dono da casa, porque é que o rei não
comia? Respondeu ele, não sabendo que assistia ao casamento da filha:
– É porque a comida não tem sal.
O pai do noivo fingiu-se raivoso, e mandou que a cozinheira viesse ali dizer porque é que não
tinha botado sal na comida. Veio então a menina vestida de princesa, mas assim que o pai a
viu, conheceu-a logo, e confessou ali a sua culpa, por não ter percebido quanto era amado por
sua filha, que lhe tinha dito, que lhe queria tanto como a comida quer o sal, e que depois de
sofrer tanto nunca se queixara da injustiça de seu pai.


* * *
Teófilo Braga
Contos Tradicionais do Povo Português
(1883)

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