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HOJE ALGUMAS FRASES ME DEFINEM: "Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento." Clarice Lispector "Os contos de fadas são assim. Uma manhã, a gente acorda. E diz: "Era só um conto de fadas"... Mas no fundo, não estamos sorrindo. Sabemos muito bem que os contos de fadas são a única verdade da vida." Antoine de Saint-Exupéry. Contando Histórias e restaurando Almas."Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." Fernando Pessoa

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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Os Dez Anõezinhos da Tia Verde-água

Era uma mulher casada, mas que se dava muito mal com o marido, porque não trabalhava
nem tinha ordem no governo da casa; começava uma coisa e logo passava para outra, tudo
ficava em meio, de sorte que quando o marido vinha para casa nem tinha o jantar feito, e à
noite nem água para os pés nem a cama arranjada. As coisas foram assim, até que o homem
lhe pôs as mãos e ia-a tosando, e ela a passar muito má vida. A mulher andava triste por o
homem lhe bater, e tinha uma vizinha a quem se foi queixar, a qual era velha e se dizia que as
fados a ajudavam. Chamavam-lhe a Tia Verde-Água:
– Ai, Tia! vocemecê é que me podia valer nesta aflição.
– Pois sim, filha; eu tenho dez anõezinhos muito arranjadores, e mando-tos para tua casa para
te ajudarem.
E a velha começou a explicar-lhe o que devia fazer para que os dez anõezinhos a ajudassem;
que quando pela manha se levantasse fizesse logo a cama, em seguida acendesse o lume,
depois enchesse o cântaro de água, varresse a casa, aponteasse a roupa, e no intervalo em
que cozinhasse o jantar fosse dobando as suas meadas, até o marido chegar. Foi-lhe assim
indicando o que havia de fazer, que em tudo isto seria ajudada sem ela o sentir pelos dez
anõezinhos. A mulher assim o fez, e se bem o fez melhor lhe saiu. logo à boca da noite foi a
casa da Tia Verde-Água agradecer-lhe o ter-lhe mandado os dez anõezinhos, que ela não viu
nem sentiu, mas porque o trabalho correu-lhe como por encanto. Foram-se assim passando as
coisas, e o marido estava pasmado por ver a mulher tornar-se tão arranjadeira e limposa; ao
fim de oito dias ele não se teve que não lhe dissesse como ela estava outra mulher, e que
assim viveriam como Deus com os anjos. A mulher contente por se ver agora feliz, e mesmo
porque a féria chegava para mais,
vai a casa da Tia Verde-Água agradecer-lhe o favor que lhe
fez:
– Ai, minha Tia, os seus dez anõezinhos fizeram-me um servição; trago agora tudo arranjado, e
o meu homem anda muito meu amigo. O que lhe eu pedia agora é que mos deixasse lá ficar.
A velha respondeu-lhe:
– Deixo, deixo. Pois tu ainda não viste os dez anõezinhos?
– Ainda não; o que eu queria era vê-los.
– Não sejas tola; se tu queres vê-los olha para as tuas mãos,
e os teus dedos é que são os dez
anõezinhos.
A mulher compreendeu a causa,
e foi para casa satisfeita consigo por saber como é que se faz
luzir o trabalho.

* * *
Teófilo Braga
Contos Tradicionais do Povo Português
(1883)

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