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HOJE ALGUMAS FRASES ME DEFINEM: "Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento." Clarice Lispector "Os contos de fadas são assim. Uma manhã, a gente acorda. E diz: "Era só um conto de fadas"... Mas no fundo, não estamos sorrindo. Sabemos muito bem que os contos de fadas são a única verdade da vida." Antoine de Saint-Exupéry. Contando Histórias e restaurando Almas."Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." Fernando Pessoa

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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O Livro em Branco




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Andando um dia o grande Al Manzor, califa de Córdova, disfarçado em mercador, a correr as ruas dessa cidade com o intuito de observar, completamente despercebido, alguns de seus aspectos, deparou-se-lhe um indivíduo que, pelo trajar exótico e maneiras extravagantes, despertava a atenção dos transeuntes, reunidos alvoroçados em torno dele.
- Conheces aquele homem? - perguntou o sultão ao vizir que o acompanhara, oculto, também, em cuidadoso disfarce.
- Senhor - respondeu o interpelado – Aquele muçulmano que ali está no meio daquele grupo, a contar histórias maravilhosas e a relatar velhos sucessos, chama-se Banassafar e, embora chegado há pouco tempo, já se tornou figura popular nestes arredores.
Gaba-se de possuir invejável saber - e afirma que conhece todos os livros existentes no mundo. Querem alguns, porém, que ele não passe de um embusteiro muito hábil que merecia ser publicamente desmascarado!
- Por Maomé! - exclamou o califa. - Vou encarregar-me disto e hei de castigar esse aventureiro audacioso!
Determinou assim o sultão que o pseudo-sábio fosse levado a palácio e em presença dos nobres, ulemás e poetas da corte perguntou-lhe:
- É verdade que conheces todos os livros até hoje escritos não só no Islã, como no resto do mundo?
O arguto forasteiro, cuja audácia e sagacidade jamais o deixaram em situação embaraçosa, declarou peremptoriamente que não só conhecia como também já havia comentado todos os livros até então vindos a lume.
Tomou, então, o califa de um livro em branco, que ardilosamente mandara compor para ilaquear o aventureiro e perguntou-lhe:
- Dize-me, então, ó ilustre muçulmano, qual é a tua opinião sobre esta obra que tantas gerações têm visto?
O livro que Almanzor apresentou ao vaidoso Benassafar trazia luxuosa encadernação e em sua folha de rosto se lia gravado em caracteres dourados o seguinte título: "Últimos pensamentos engenhosos de Abul-Sanari".
Apenas lida a curiosa epígrafe, respondeu Benassafar:
- Sobejas vezes reli já esta obra admirável, glorioso califa!
Com grande espanto de todos os presentes - sabiam tratar-se de um livro em branco - o miraculoso homem prosseguiu:
- Posso assegurar-vos que este livro é magnífico. A ninguém faz mal; a todos é benéfico. Julgo-o superior às demais obras desse autor e - segundo os grandes críticos - é preferível às produções de Abenderrach. Em poder de um ignorante não têm as suas páginas valor algum; postas, porém, nas mãos de um letrado podem tornar-se mais preciosas do que o anel do grande Salomão!
Ao ouvir semelhante afirmativa, não se conteve o califa e exclamou irado:
Não passas de um vil mentiroso! O livro sobre o qual tanta coisa disseste tem todas as folhas em branco.
Benassafar, com enorme pasmo dos presentes, não deixou transparecer o mais leve indício de perturbação! O rancor do soberano, capaz de gelar o sangue nas veias do mais atrevido; a sua declaração, perigosa trama para o mais hábil - não tolheram sequer pequena parcela de sua muçulmânica serenidade. E disse:
- Senhor! Que Allah, o Exaltado, vos conserve até à consumação do século! Peço-vos, humildemente perdão. A resposta por mim formulada é exata e perfeita. Refere-se precisamente a um livro em branco. Que disse eu? Que esse livro não faz mal a ninguém e que a todos só pode fazer bem. É exatamente o caso de um livro em branco que, longe de ser nocivo, só pode ter utilidade para quem o vender e apurar no negócio boa quantia. Julguei-o superior às outras obras de Abul-Sanari. Esse homem não passa de um humilde obreiro, e este livro é, assim, a melhor das "obras" que ele tem produzido. Disse também que era preferível aos trabalhos de Abenderrach, o mísero idólatra que teve a audácia de criticar alguns versículos do Alcorão! Parece-me que um livro em branco é preferível sempre àquele que contenha conceitos aleivosos ao Livro de Allah! Afirmei, por fim, que o livro, posto nas mãos de um ignorante, não teria valor, mas que entregue a um sábio poderia tornar-se uma preciosidade. Para isto seria bastante que este imprimisse nas páginas em branco pensamento morais, versos delicados e ensinamentos úteis!
Almanzor viu-se obrigado a reconhecer que o inteligente Benassafar, vencendo-o naquela prova, fora mais hábil e mais esperto do que ele. Além disto, tendo concluído que o homem não passava de um sofista tão ardiloso quanto inofensivo, que andava a distrair o povo com suas declarações aparentemente fantásticas, mandou dar-lhe um traje de honra e deixou-o em paz, com boa recompensa, pelos caminhos de Allah.

Parábola. Fonte: Lendas do Deserto de Malba Tahan.

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